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ColunasCotidianoWalter Galvão

Beijo, para quê te quero?

Será uma grande surpresa para o mundo se um dia o Papa Francisco não mais nos surpreender com atitudes inovadoras.

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Esta semana ele mais uma vez surpreendeu a cristandade. Foi durante o episódio em que recusou aos fiéis participar do clássico beija-mão característico do contato que o público tem com o pontífice.

Há séculos que o rito acontece. O Papa estende a mão. O fiel contrito faz uma reverência antes do beijo.
Isso se ele não for muito versado nas coisas da liturgia.

Quem sabe o que reza a tradição fica de joelhos para se habilitar ao ato que tem por objeto específico não a mão, mas sim o anel, o também tradicionalíssimo anel de pescador que evoca o fato de o pescador Pedro ter sido o primeiro papa.

Há até mesmo os que ficam ao rés do chão antes de beijar a mão, ou o anel, do líder espiritual.

A tradição do “baciamano”, como é chamada no Vaticano, porém, foi atropelada pelo surpreendente Francisco na última segunda-feira. E a surpresa foi múltipla: ele recusou o beijo, não permitiu que o beijo fosse direcionado ao anel, quebrou o histórico de reverência devida à autoridade máxima do catolicismo e o fez sem avisar a ninguém.

O ato chocou a igreja, espantou o clero, desnorteou católicos, instigou a mídia, abalou o público e dividiu opiniões.

Os conservadores argumentam, contra o gesto, o fato, entre outros, de ele representar uma renúncia descabida a tradições que afirmam e reverenciam a autoridade papal na atualidade.

Hoje, cada vez mais, as igrejas tradicionais, notadamente a católica, enfrentam a redução dos espaços de mobilização e atuação. A expansão das pentecostais atesta as dificuldades da teologia liberal para expandir o seu círculo de influência.

Ao desprezar a tradição, Francisco estaria renunciando ao poder espiritual, comprimindo a simbologia, esvaziando a liderança e comprometendo o futuro da Igreja.

Para os progressistas, Francisco segue uma agenda por ele mesmo proposta de “humanização” da religião que lidera. E o gesto mais recente no sentido de popularizar a imagem clerical e desmobilizar resquícios aristocráticos, bem como toda a pompa que cerca o clero, atende ao seu propósito.

O episódio desta semana remete a embates que situam a confluência das tradições romana (conservadora) e galicana (inovadora) na formatação do aparato ideológico da Igreja que se “moderniza” a partir do Concílio Vaticano II (1961 a 1965) fechando um ciclo iniciado com o Concílio de Trento (1545 a 1563) que cuidou das coisas da Reforma.

A tradição romana de apego radical à liturgia, informam os especialistas, se cristaliza no século VII, justamente o período de avanços muçulmanos por volta dos anos 650, período preparatório às grandes invasões à Europa que aconteceriam em 711, ano em que Tárique comanda o avanço islâmico no estreito de Gibraltar para se apossar da península ibérica. No século VIII, várias razões fizeram com que a dinastia carolíngia, no país dos Francos (tradição galicana), assumisse a vanguarda da Igreja, fato responsável por um período de inovações que atingiriam o ápice 400 anos depois com a construção das grandes catedrais no século XII. É nesse período, mais precisamente em 1256, que o anel surge como símbolo de poder do Papa e também sinete para fechar a correspondência do Vaticano. O anel com a dimensão rechaçada por Francisco, que pediu um de prata ao invés de ouro quando da posse, foi introduzido por Clemente IV.

Neste sentido, “Sacrificium Laudis: a hermenêutica da continuidade de Bento XVI e o retorno do catolicismo tradicional (1969-2009)”, livro publicado a partir do mestrado (Unesp) em história de Juliano Alves Dias, é esclarecedor quanto aos avanços da liturgia na Idade Média, não tão conservadora assim, e pano de fundo para a compreensão do gesto do papa Francisco.

Ao expandirmos o efeito simbólico da atitude papal para além de altares e templos contemporâneos, vamos mergulhar em tradições que evocam o princípio da organização de sociedades complexas rigidamente hierarquizadas.

É a partir do século IV que a Igreja católica investe contra o beijo por considerá-lo a expressão negativa da concupiscência demoníaca. Mas o beijo, cujos registros históricos de suas práticas remontam ao Kama Sutra, algo em torno de 2.500 anos antes de Cristo, foi, entre os gregos, expressão de rígida hierarquização social, cada estrato social só poderia beijar certas áreas do corpo ; entre os romanos antigos, expressou uma hierarquiza sensorial-sensual; entre os povos Maias, Astecas e outros seus contemporâneos o beijo realizava intentos relacionados a práticas antropofágicas.

Para o papa Francisco, o beija-mão, rito que Dom João VI introduziu no Brasil, é a expressão de um servilismo ao qual o católico não deve mais se entregar. Convicção merecedora de um vasto beijo da história.

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