No corpo de duas mulheres, as dores do corpo martirizado da República. Dor e crueldade nesses dias em que o conflito da ética com a política assola Brasília em grau máximo.

A temperatura do meio ambiente no Octógono Federal é a mesma do tungstênio, a mais alta para a fusão dos metais. Na forja de liquefação das credibilidades, é poder contra poder, contrapoderes entram em choque, [email protected] têm razão em suas tornozoleiras eletrônicas e ideológicas de último tipo. O conflito é simplesmente devastador.

Nesse clima miasmático, de fumaça de reputações queimadas por delatores a irritar olhos e gargantas de Norte a Sul, não é de estranhar que a ex-senadora Marina Silva tenha sido internada. Não é o caso de se responsabilizar o ministro Herman Benjamin, ou o procurador Janot e o juiz Moro por dores sofridas pela ex-ministra de Lula, que passa bem, ainda bem.

O adoecimento da potencial candidata a presidente, em caso de diretas-já novamente, simboliza um risco de queda do voo da esperança de que tudo acabe bem nessa grande liquidação de políticos ora em curso no liquidificador do Ministério Público Federal.

É como se a pressão da Lava Jato tivesse efeitos colaterais incontroláveis nos alvéolos respiratórios e na circulação do corpo da nação. Os réus, os delatados, os homens da mala estão todos aí, pressão 12 por oito, senhores da razão, enquanto a planta tenra da democracia sofre o bafo da poluição que sobe da imundície acumulada nos gabinetes do mensalão e do petrolão.

Sob o mesmo céu dessa terra em transe, quando o premiado manifesto político do cineasta Glauber Rocha completa 50 anos, em Terra em Transe Glauber disseca a mente paranóica e egocêntrica das elites políticas, jurídicas, intelectuais e artísticas de um Brasil na encruzilhada ideológica da Guerra Fria, eis que a atriz e modelo Luiza Brunet é espancada pelo empresário companheiro.

Dor e crueldade agridem a República enferma da Lava Jato
Luíza Brunet alegou, no ano passado, ter sido espancada, com soco no rosto, chutes e quatro costelas quebradas pelo seu ex-marido, Lírio Parisotto. Após a atriz e modelo vencer na Justiça o processo, Lírio chamou-a de “patranheira”. Foto: Reprodução/Internet

A imprensa registrou ontem as imagens do olho e da face muito machucados da moça. E registrou também a mediocridade dos argumentos da defesa do empresário Lírio Parisotto, o bilionário gaúcho espancador condenado a um ano de prisão em regime aberto, e mais 12 meses de serviço comunitário.

Para a defesa, que expressa, obviamente, a visão que o empresário tem do episódio, o processo só caminhou porque o promotor quis aparecer por se tratar de um caso em que há celebridade e ricaço envolvidos.  A defesa do autor do clássico ato de covardia acusa o Ministério Público de sensacionalismo e afirma que a vítima é mentirosa. Ecoa a defesa dos maiores corruptos nunca antes denunciados na história desse país.

Uma quadrilha de proporções monumentais foi finalmente enquadrada no Brasil por quem de direito após se constatar que a corrupção seduz à esquerda e à direita. As evidências se acumulam na memória recente da nação de que alguma coisa não está certa.

Líderes populares se apresentam como viciados em viagens de jatinho particular, em lençóis de linho egípcio e vinhos de 20 mil reais a garrafa. Nos cargos públicos que ocuparam, jamais obtiveram ganhos capazes de cobrir a vida luxuosa aprendida com os burgueses que fedem – como dizia Cazuza, mas fedem a perfume francês.

Potentados encarapitados nos mais altos cargos distribuem ordens de coleta de malas cheias de dinheiro sem que se saiba a origem das notas. Propina de 500 mil reais por mês é acertada com a simplicidade de quem falsifica um contrato na Petrobras.

À esquerda e à direita os absurdos se propagam a partir das investigações, das denúncias e das delações premiadas, absurdos embarcados nos discursos de negação das evidências.

O militante da revolução popular foi flagrado com a cueca cheia de dinheiro no aeroporto? A culpa é da burguesia corrupta e do capitalismo selvagem nacional que se uniu à Casa Branca porque tudo não passa de uma trama dos Estados Unidos que quer roubar o petróleo brasileiro e se apropriar da floresta amazônica.

O militante do reformismo golpista foi flagrado cobrando propina para assinar um contrato? A culpa é do Ministério Público que tenta desmoralizar as lideranças que querem moralizar a nação.

O Brasil está ruim de economia, com 14 milhões de desempregados? A culpa é da operação Lava Jato que em sua pirotecnia emperra os negócios que grupos econômicos de prestígio abrigados com o dinheiro público no ar condicionado do BNDES.

Estamos em plena ditadura? A culpa, claro, é da Rede Globo de Televisão. Na semana passada, pessoa a quem muito admiro me enviou texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo” do ex-ministro Zé Dirceu, o Guerreiro do Povo Brasileiro, em que ele conclama a militância a ir pras ruas fazer a revolução. Imediatamente, pensei: corrupto convoca na mídia golpista o povo ao confronto direto com as forças reacionárias e fascistas do golpe. No mínimo, Zé se associou a uma fábrica de gás lacrimogêneo.  Mas logo afastei essa ideia de jerico. E fui tentar aprender, antes que para mim seja tarde demais, com quem sabe fazer a história acontecer.

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