Sutis inventos narrativos e reafirmação de clichês hollywoodianos. Provocações críticas contra mesmices do senso comum fílmico e sequências que beiram o mais nostálgico sentimentalismo. Dramatização documental que reivindica a crueza do fato incontestável e fabulação ficcional que emula paisagens intangíveis…

Descrevo acima alguns contrastes que enriquecem a narração cheia de inteligência, humor, terror, amor e desamor que o cineasta Adam McKay (“A grande aposta”) roteirizou e dirigiu para realizar “Vice”, drama histórico, com recorte cinebiográfico, sobre Dick Cheney, figura emblemática da política norte-americana republicana dos séculos XX e XXI.

O tripé torpeza, acaso e cobiça é o cenário preferencial sugerido pelo filme para explicitar brotações venenosas da política estadunidense sob a condução do vice-presidente de George W. Bush. Cheney, afirma McKay, usurpou poderes presidenciais, manipulou o governo para ampliar o conservadorismo neoliberal e dele se beneficiar, e usou o poder da Casa Branca para se apropriar de poços de petróleo no Iraque quando do atentado terrorista que derrubou as Torres Gêmeas no fatídico 11 de setembro.

Autores de lá, a exemplo de Gore Vidal, Noam Chomsky e Norman Mailer; e de cá, nomes como os de José Arbex Júnior, Newton Carlos e Demétrio Maglioli diriam que historicamente a política norte-americana está vinculada a crimes graves como assassinatos de lideranças políticas (Orlando Letelier seria o caso mais notável, Kennedy seria a suspeita mais aguda, e as tentativas comprovadas sem êxito contra Fidel Castro, entre outras…) e atitudes como cegueira moral, intervencionismo brutalista e, por incrível que pareça, antiamericanismo.

Antiamericanismo compreendido como refutação de algumas supostas características da sociedade estadunidense: individualismo e pragmatismo extremados, compreensão do lucro como essência da democracia, sucesso enquanto sinônimo da felicidade e a propriedade privada como símbolo de liberdade.

Por essa estrada crítica caminhariam também personalidades de influência mundial a exemplo dos cineastas Michael Moore, Oliver Stone, Clint Eastwood, Spike Lee e Francis Ford Coppola. Do primeiro, “Vice” ostentaria o sarcasmo perante a hipocrisia típica da política dos EUA; do segundo, a vocação arqueológica para escarafunchar e identificar ruínas morais e conspirações; Eastwood e Lee inspirariam uma pegada analítica que revolve as camadas psíquicas profundas de um país neurotizado por ódios étnicos e mortes éticas; e de Coppola pode-se afirmar a presença da estilística do muralismo épico típico dos seus filmes que se tornaram clássicos.

Em “Vice”, McKay, com notável independência autoral, segurança discursiva e imaginação feérica, opera vários níveis de significação e sentidos num filme que às vezes resvala em grandiloquência, mas sem perder leveza.

Vê-lo é como assistir à desmontagem de uma cebola. A cada camada que se retira, outra se sobrepõe de igual forma e conteúdo. No caso do filme, forma híbrida que agrega coleção de abordagens de câmera, ora nervosa e solta, ora reflexiva e detalhista, às vezes subjetiva, e avançando numa profusão de planos em que o superclose nos deixa olho no olho com as emoções em conflito de personagens que obedecem a modelagens irretocáveis de um elenco magistral (perdão pelo clichê necessário).

São recursos expressivos que revelam a partir do roteiro marcado por lancinantes lances de ironia e peripécias vertiginosas um talento especial na observação das tramas do mundo para projetar cenário onde vastidão e profundidade são sinônimos da beleza da vida conflitada pelas exigências do cotidiano histórico concreto.

O conteúdo é o que surge da evisceração do neoliberalismo galopante pós-Reagan-Thatcher. E que pode ser resumido no que se convencionou chamar de “o paradigma da tortura” legitimado pelo Ato Patriótico do qual Cheney foi indiscutivelmente o arquiteto.

McKay faz análise dentro de várias análises (metanálise) do poder. Ou poderes: político, pessoal, grupal, afetivo, legal, imoral, interpessoal, de gênero, do amor, da mentira, da comunicação de massa, das armas, o poder da dor…em meio à qual faz dupla evocação shakespeariana: de “Lady Macbeth” o cineasta extrai considerações importantes sobre natureza e vontade, ideal e ambição, persuasão e determinação. De “Ricardo III”, o cineasta explora aquilo que Harold Bloom destacou como “a psicologia da mutabilidade”, a capacidade de o personagem pensar sobre si mesmo e com isso mudar o seu comportamento, o que acontece realmente com Cheney não sem o apoio de sua Lady Macbeth. Desde Richelieu, o ocidente cristão não sofria tanto sob as garras de uma eminência parda tão venal quanto Dick Cheney. O filme faz jus à sua torpeza complexa.

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