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Contrapoder

Deixa as trans jogar, Eliza!

Vereadora de João Pessoa apresentou projeto de lei que visa proibir trans de jogar modalidades femininas

No país que mais mata LGBTs no mundo, certos discursos no parlamento – onde o debate acontece – são nocivos e preocupantes. Em João Pessoa, a pauta LGBT voltou aos holofotes após um projeto de lei apresentado pela vereadora Eliza Virgínia (PP), que proíbe transexuais de competirem em equipes distintas de seu sexo biológico.

Com um discurso extremamente tendencioso, distante dos Direitos Humanos e desconectado da realidade, Eliza levou o debate a uma posição rasteira.

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Em discurso no plenário, ela citou o exemplo da jogadora brasileira de vôlei Tifanny. Declarou que quando ela jogava no masculino não chamava atenção, mas no feminino ela quebra recordes e faz sucesso. Mas Eliza, ela é respaldada pelo COI e pela Federação Internacional de Vôlei. Ou vossa excelência tem métodos avaliativos mais firmes de que os órgãos esportivos? Deixemos o benefício da dúvida.

Por sinal, as taxas hormonais dela, como bem citastes – parabéns! -, estão dentro dos aceitos. Não vamos nos ater à questão de avaliações de força, um dos pontos que a senhora falou. Sem tempo, irmã.

Você também disse que a carta da ex-jogadora de vôlei Ana Paula, onde ela comenta que uma “análise superficial” corroboraria com a extinção dos trans das modalidades femininas, é recorrer a um expediente tacanho. Exaltar o empírico em um assunto tão sério que está sendo levado ao parlamento não deve ser prática de nenhuma das vossas excelências na Câmara.

Sabe o que são dados reais, Eliza? Em 2017 foram assassinados 179 pessoas trans. Sabe em quantos casos os suspeitos foram presos? Apenas 18. Entre 2008 e 2016 ocorreram, no Brasil, pelo menos 868 homicídios de pessoas trans, de acordo com International Trangender Europe (TGEU), que monitora casos em todo o mundo. No ano passado, morreram de morte violenta (incluindo suicídio) 420 LGBTs; em 2017 haviam sido 445 vítimas e, em 2016, 343 – dados do Grupo Gay Bahia.

Aliás, criticar a ideologia do outro tentando impor a sua é bem incoerente. Atacar uma vereadora – Sandra Marrocos – que nitidamente levanta as bandeiras feminista e LGBT classificando-a de misógina, e usar o feminismo com conveniência, não soam bem. De oportunismo, o pessoense está esgotado.

Já foi ‘Escola Sem Partido’, pichação, ataques em escolas e agora esportistas trans. Admiro sua onda de surfar no ‘hype’ e converter as pautas para agradar seu eleitorado conservador. Porém, uma hora é preciso aterrissar. Urge a necessidade de se situar em João Pessoa. Os problemas, as reivindicações, a realidade local. O trânsito caótico, as ruas sem pavimentação, o caos que sempre vem com as chuvas, o descaso com a saúde, o desmonte da educação. Isso é prioridade para a Capital, vereadora. Os LGBTs também são, mas eles precisam de respaldo político-público para simplesmente viver; a legislação que necessitam não é segregadora, mas sim inclusiva.

Num ponto concordamos: “estamos beirando o politicamente insano”. Verdade. Só ver o resultado das urnas.

O pessoense não elegeu vereadora para receber R$ 138.125 mil e propor apenas nove projetos em doze meses – vide 2018. E, ressalte-se, sendo quase 45% voltados a denominar ruas. Cadê a produção legislativa? São apenas 22 Projetos de Lei Ordinária desde 2017. Mas o problema do pessoense é realmente a trans que quer jogar nas modalidades femininas… e não na sonegação do IPTU.

Deixo aqui alguns casos que envolvem transgêneros ou carga hormonal nos esportes: Jaiyah Saelua. Schuyler Bailar. Chris Mosier. Erika Coimbra. Caster Semenya. Dutee Chand. Pesquisemos mais.

Se as federações e órgãos especializados no tema liberam, deixa as mona, as mina [trans] e os manos [trans] jogarem, Eliza. Vamos atuar de forma mais edificante e em prol da população pessoense na Casa de Napoleão Laureano.

Ah, para não deixar passar: vereador Carlão, uma pessoa trans não fez opção sexual. É identidade de gênero que chama. “Opção sexual” é sobre se relacionar, identidade é sobre como se enxerga.

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