A lenda do pato amarelo

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O Brasil vive um desastre político de proporções ainda imprevisíveis. Infelizmente as perspectivas de recuperação imediata não são muito animadoras. Não se trata só de uma crise institucional. Há uma crise de civilização. Há uma crise ética. Sobretudo, há uma crise de democracia. Os efeitos desse desastre na economia são devastadores. Justamente nesse contexto de decadência acelerada, as grandes redes midiáticas cumprem suas perversões. Por exemplo, comemoram os 10 bilhões recuperados pela Lava-jato e omitem os 140 bilhões de rombo que toda essa celeuma provocou no Produto Interno Bruto. Voltaram a propagar a “incompetência” brasileira. Mas, será mesmo que somos um país de incapazes? Das duas uma: ou reagimos imediatamente ou desabamos numa rendição em massa. As redes sociais refletem o que pensa a população.  Há uma crescente indignação popular ainda submersa. Nem só de mitos psicopatas vivem os alienados e os malas. Entretanto, devemos perceber que a dita sociedade civil organizada está atônita. Setores estratégicos perderam a credibilidade. Não há estratégia alguma, na verdade. Há duas minguadas frentes populares batendo cabeça. Disputando microfones aos tapas. As organizações de classe e os partidos sofrem o escalpo da própria mediocridade. Por isso todas as esperanças foram jogadas nas costas de uma única personalidade. Há um consenso um tanto desesperado em torno de Lula. Mas, no fundo, sabemos que não basta eleger Lula em 2018. Mesmo tendo sido ele o maior estadista que este país já conheceu. Maior que JK, maior que Getúlio ou qualquer outro. O Brasil passou a ser respeitado no exterior a partir da postura de independência, de protagonismo. Passamos a ocupar espaços entre as grandes economias. Saímos, pela primeira vez, do Mapa da Fome da ONU. Acabaram os saques aos supermercados dos anos FHC. Também sabemos que a economia das pequenas cidades deu um salto com os programas sociais. Entre eles, o Bolsa Família. O pobre passou a consumir. Cresceu, por exemplo, a indústria de alimentos e bens de consumo. O que não se esperava é que as classes favorecidas por esses programas acatassem o caos com um estrondoso silêncio. Esse é o nó para desatar no pouco tempo que resta até 2018.

Se engana quem pensa que tudo nasceu no impeachment da Presidenta Dilma. A crise veio antes. De fora pra dentro e de dentro pra fora. O que começou com o golpe parlamentar que produziu o impeachment foi apenas a aceleração de um processo anterior. Outro dia ouvi uma frase perfeita para definir ideologicamente o Brasil dos últimos 15 anos. “A esquerda nunca esteve no poder e a direita nunca saiu do governo”. É isso. A esquerda se perdeu na vaidade dos gabinetes. Burocratizou-se ao extremo. Afastou-se das bases. A arrogância foi a marca de alguns grupos que hoje se mostram com o rabo entre as pernas. E, logicamente, a direita mesmo sem hegemonia sugou tudo que pode, inclusive dos direitos sociais. Afinal, quem se beneficiou mais nos programas como Minha Casa Minha Vida? A população de baixa renda ou renda mínima? Ou as grandes construtoras? Parecia que estávamos saindo de um complexo de vira-latas para um status de grande potência mundial. Tudo muito rápido. Fizemos a Copa do Mundo e as Olimpíadas como forma de projetar o Brasil. Mesmo assim estádios lotados mandavam Dilma tomar no cu. Os benefícios seriam reconhecidos nas infraestruturas. Mas, cadê? Acho que tudo isso contribuiu talvez até mais que o discurso raivoso e inconformado do PSDB e demais segmentos derrotados nas urnas em 2014. Além disso, saiu do armário uma sociedade ainda mais conservadora, insuflada pelas forças mais reacionárias da história brasileira. Transformaram um pato amarelo, de borracha, cheio de vento, num símbolo de revolta nacional. É vergonhoso pensar que tudo isso está solidamente plantado na estrutura social do nosso País. Esse é um dilema brasileiro. Dos grandes, aliás. Ainda mais sendo alimentado por um projeto de educação sem pensamento crítico. Sem os estímulos necessários à criatividade.  Para mexer nesse vespeiro não basta apenas eleger Lula.

O fato é que o pior desastre está programado para o futuro. Isso até mesmo alguns milhares de patos amarelos batedores de panela estão começando a compreender. No fundo eles também sabem que o pior ainda está por acontecer. Falo do congelamento dos gastos públicos que vai fazer com que a precarização dos serviços aumente ano a ano. Logicamente, uma vez que a demanda aumenta e o atendimento será reduzido. Uma equação macabra. Tudo isso está sendo digerido com o molho pardo do desemprego abusivo. Na fervura constante da supressão dos direitos trabalhistas, sociais e humanos. O desastre foi programado e está sendo implementado de forma progressiva. Sustenta-se no velho discurso peemedebista e peessedebista de contenção dos gastos públicos. Contenção apenas para os pequenos, lógico. (Até parece que a velha UDN está de volta.) No paralelo, irão impulsionar a privataria das estatais e a tucanagem das empresas privadas. Rapidamente vão reduzindo a economia brasileira aos desmandos do capital especulativo. Por isso o tempo de Temer é um tempo de horror. Seja pela ilegitimidade e virulência com que se instalou, seja pela instabilidade que gerou na economia com graves repercussões na sociedade. Não por acaso ele se parece tanto com o Conde Drácula.  Talvez algumas das pessoas que foram para as ruas de amarelo, por esses dias, comecem a refletir sobre a imensa roubada que todos entramos. O próprio Paulo Skaf, presidente da poderosa FIESP e um dos gerentes das manifestações de massa pelo impeachment, tem seu nome envolvido em escândalo. Mas, em última análise, o Pato Amarelo foi o maior símbolo dos movimentos que abalaram a república. Afinal, “quem vai pagar o pato”? Os ministérios que não podiam aceitar o foro privilegiado para Lula, agora abrigam uma abundante safra de delatados e processados. Teori Zavaski morreu de forma suspeita, dando lugar a um ministro suspeito. O Supremo perdeu o rebolado. Desandou o samba. Enfim, esta é a lenda do Pato Amarelo que, afinal, era uma fraude até na concepção. Um fake de péssimo gosto. Essa é a estética do golpe. Uma lenda que fez da realidade uma tragédia institucional. Agora é necessário desmanchar o mal feito. Mas, como? Elegemos deputados que nunca trabalharam na vida e demos a eles o privilégio de legislar sobre direitos trabalhistas. Nosso país depende de nós porque nós dependemos dele. O debate não é mais sobre petralhas e coxinhas.  Que isso seja finalmente compreendido. O debate é sobre o legado para nossos filhos e netos. A única certeza que eu tenho neste momento é que não há saída fora da democracia.

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