Piancó e a Coluna Prestes

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Não faz muito tempo estive em Piancó percorrendo as pegadas da Coluna Prestes. Ainda estão vivas as marcas dos combates. Balas cravadas nas portas. Traços da resistência do Padre Aristides e seus comandados. Aristides tinha personalidade forte. Naquele tempo já questionava o celibato. Tinha filhos. Mesmo que escondesse o que todo mundo sabia. Convenhamos, o que não é nenhuma vergonha. Vergonha é o envolvimento de altos escalões das igrejas em casos de pedofilia. Pois bem: acompanhado dos amigos Marcelo, João Leite e Chico Jó, por alunos e professores do Educandário Mesquita, percorri as trilhas da resistência na cidade. Numa das caminhadas fomos abordados por um senhor com muitas dificuldades de mobilidade. Ele foi logo dizendo: “eles saíram daí. Os revoltosos que invadiram Piancó estavam bem aí onde vocês estão. Eu nasci 20 anos depois, mas minha mãe me contou tudo.” Ele falou muitas outras coisas que não recordo. Todavia, vindo naquele momento de um banquete sertanejo no Sítio do Peixoto, à 10Km de Piancó, pude sentir a força da oralidade na história da Coluna Prestes. Tudo isso num sertão seco de pessoas ternas e verdadeiras. Antes que Moro desconfie e me envolva na Lava-Jato, preciso dizer que o Peixoto é uma colônia de pescadores onde a água não chega desde 2004, mas não falta wi-fi. Este é apenas o início da conversa que determinou a retomada do debate e a necessidade de criação do Fórum Intermunicipal da Coluna Prestes no Sertão da Paraíba. Algo que deverá ser instalado nos próximos dias 25 e 26 na Escola Normal de Piancó. Um dos cenários da batalha.

A cidade gaúcha de Santo Ângelo, de onde partiu a coluna para percorrer 25 mil quilômetros Brasil adentro, já construiu o Memorial da Coluna Prestes. Em Tocantins, a capital Palmas também. Outras regiões começam a perceber a importância deste traçado histórico. Convenhamos, a própria cavalgada dos militares militantes da Coluna por si já foi um fenômeno mundial sem precedentes. Apesar de não terem logrado êxito no convencimento das suas ideias contrárias à República Velha. A Coluna já nasceu como fenômeno político de primeira grandeza. Gerou episódios épicos. Alguns muito cordiais. Outros, resolvidos na bala. O fato é que a cruzada pelo Sertão marcou muito a Paraíba inteira.  A ideia de revitalizar essa história tem muitas vertentes e começos. Só não teve ainda um encaminhamento efetivo. Em Piancó, recomeçamos a conversa com militantes da cultura sertaneja. Gente disposta ao bom debate. A expectativa é que a restauração da memória da Coluna Prestes abra possibilidades no campo do turismo cultural e do desenvolvimento econômico regional. A exemplo do exitoso modelo da Rota Caminhos do Frio, onde Estado, municípios, empresas, artistas e população formaram um bloco de alianças com resultados extremamente positivos. Cresce por ali a ideia de um consórcio regional. Algo que possa suscitar uma onda de desenvolvimento turístico e cultural na região. No caso sertanejo não é diferente. É possível agregar não apenas os pontos de memória diretamente ligados à Coluna. Mas, também, as possibilidades e particularidades de cada município. Nada a ser inventado. Tudo a partir do que já vem sendo elaborado por pensadores e pesquisadores da região.

O município de Piancó se coloca como provocador deste momento. Agregando escolas públicas e mesmo da rede privada, como o Educandário Mesquita. Os estudantes do Educandário Mesquita já pesquisam e revelam as possibilidades de valorização do patrimônio histórico. Isto é concreto. É real. Logicamente que não estamos começando do zero. Se trata aqui de valorizar e dar continuidade a um debate que vem sendo travado há anos e que, de certa forma, começa a gerar frutos. A ideia do Encontro dos dias 25 e 26 é a formalização de um Fórum que dará os encaminhamentos necessários para o desenvolvimento de um projeto sustentável para a região. Tudo a partir desta provocação.  Não temos dúvidas quanto à viabilidade. Há fortes indícios de uma apropriação coletiva. Mas, é possível iniciarmos já em 2017 uma ação integradora da região a partir das narrativas populares do Repente, do Cordel, do RAP e de outras linguagens que se integrem numa mesma identidade da cultura regional. Da história oral à pesquisa acadêmica. Enfim, há uma vontade pulsando e uma lacuna no desenvolvimento local. Tudo isso envolvendo a memória e as potencialidades de uma expressão humana que, de tão forte, foi a maior representação do Brasil no encerramento das Olimpíadas 2016. Há um trem de expectativas passando em nossas portas. A Paraíba não pode perder esta viagem.

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