Escritor paraibano lança livro em que traça um mapa do alastramento da delinquência

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A criminalidade é o tema central do livro Os desembestados, de autoria do paraibano Miguel Lucena, policial civil e jornalista. Mas Lucena escolheu um foco polêmico para discutir o problema da delinquência, que se alastra pelos centros urbanos: o livre arbítrio e a responsabilidade individual. Para ele, não existem inocentes neste jogo. A sociedade permissiva e supostamente libertária, na qual se perderam as referências de autoridade e onde impera o princípio do prazer a qualquer custo, suscitou o surgimento de uma geração sem freios morais, uma geração de desembestados. Lucena é policial, jornalista, escritor e, atualmente, ocupa a função de diretor de comunicação da Polícia Civil do DF. As suas reflexões são lastreadas por uma experiência de 18 anos como delegado  Desembestados figura entre os sete livros virtuais mais vendidos no site Amazon e será publicado em versão impressa pela editora Fragmento.

Por que, apesar dos mapeamentos e dos diagnósticos, a escalada da violência não cede?
Na verdade, sempre existiu violência, mas ela está saindo de controle. A violência não é só da criminalidade, mas também pela sociedade, que acaba gerando condições facilitadoras para a delinquência. A sociedade está criando o que chamo de geração de desembestados.

Quem são os desembestados?
Os desembestados são os filhos de mães e pais irresponsáveis, que sempre atribuem a terceiros as responsabilidades pelos seus atos. São marcados pelo egoísmo, pelo ressentimento e pelo desrespeito ao outro, o desrespeito aos pais e aos professores. No passado, os professores eram intocáveis. São filhos de mães e pais que colocam o prazer a qualquer preço antes de tudo. O resultado são lares desestruturados e a violência contra as crianças. O egoísmo do prazer a qualquer preço faz com que as mulheres vivam maritalmente com o primeiro que conheceu na balada. Existe o caso de uma mulher que sofreu um espancamento e, quando perguntada sobre o nome do marido, respondeu que era Doda, não sabia nem o nome. É uma irresponsabilidade completa.

Então, a crise de valores morais afetaria diretamente a violência nas classes populares? 
Há uma crise de valores generalizada por falta de freios morais. Devo confessar que tenho a minha parcela de responsabilidade pela militância de esquerda na juventude. Lutávamos pela desconstrução da autoridade, o não julgamento moral, a ruptura com qualquer forma de preconceito. É proibido proibir. Esses valores conquistaram espaço em nossa sociedade. Não se pode julgar ninguém, cada um pode ouvir música alta incomodando os vizinhos. O egoísmo de cada um se sobressai contra valores forjados por toda a humanidade. É uma forma de passar uma borracha em tudo o que a humanidade construiu.

O que  responderia se alguém dissesse que o senhor é um moralista dogmático?
Acho que os moralistas exageram na censura ao corpo, ao comportamento e até ao pensamento. Pode fazer tudo desde que não invada ou fira o direito de terceiros. Essa é a minha diferença em relação aos moralistas. Não tenho rejeição às pessoas individualmente, desde que não prejudiquem o direito de alguém.

E qual a responsabilidade do Estado em relação à segurança pública? O que precisa mudar?
Na área de segurança pública, os governantes investem muito em pirotecnia. Veja bem, não estou falando, especificamente, do DF; estou me referindo ao país inteiro. Há uma política de destruição das polícias de investigação.

O que é preciso fazer para que as forças de segurança parem de enxugar gelo?
O que dá resultado é a investigação para pegar os grandes criminosos. Quando você desmantela uma organização criminosa, a situação melhora, pois elas costumam atuar, simultaneamente, no tráfico de drogas, na prostituição, nos roubos a carros e no tráfico de armas. Não tem mais cabimento os governos investirem na compra de viaturas, muitas vezes obsoletas, sem competir nem de perto com os carros dos criminosos. É preciso investir em inteligência e investigação qualificada.

O que o Estado está deixando de fazer em relação às crianças? 
O Estado tem de cuidar das crianças porque senão temos de cuidar reprimindo. Faltam equipamentos culturais nas cidades da periferia. Não existem praças arborizadas. Nas cidades-satélites só tem botecos, prostíbulos, lugares inóspitos. A maioria das crianças fica largada quando as mães estão trabalhando. E passaram a ser assediadas para trabalhar com o crime organizado. Se ficam em creches, não são abandonadas ou largadas nas mãos de parentes, muitas vezes, desestruturados ou drogados. Oitenta por cento dos abusos são praticados nas famílias, sendo que 50% ocorrem com as crianças. Se tiverem oportunidades, elas desenvolverão os seus dons culturais na dança, no teatro, no cinema ou na literatura. Não existem grupos financiados para organizar projetos de arte-educação.  Falta conscientização da sociedade.

O que é preciso fazer?
Tem de ir para a porta das escolas disputar a juventude com os traficantes. Se a gente não for, os criminosos vão. As novas gerações crescem sem conhecer autoridade. Não têm em casa nem na escola. Só vão conhecer quando forem presos e se depararem com o delegado ou o juiz.

 

Escritor paraibano lança livro em que traça um mapa do alastramento da delinquência

 

Desembestados
De Miguel Lucena, 224 páginas/Amazon

As informações são do Correio Braziliense.

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