De Jaguarão à Jaguaribe – Paulo Ró apresenta álbum “Quarta Capa”

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    No próximo dia 13, o compositor Paulo Ró estará apresentando seu novo disco ao público no Café da Usina – Usina Cultural Energisa, com tarde de autógrafos na Parahybólica Cultural. Mais uma aventura do compositor pelos caminhos incertos da poesia, desta vez, a partir dos versos do poeta Lau Siqueira. A novidade é que neste disco a voz predominante é a da cantora paraibana Dida Vieira, artista conhecida e reconhecida nos meios culturais da Paraíba, mas que até o momento não havia lançado um disco solo.
    As composições de Paulo Ró com Lau Siqueira foram feitas em apenas dois dias no ano de 2007. Na verdade, toda a obra de Paulo Ró dialoga com a poesia. Seja no grupo Etnia, no Jaguaribe Carne em discos como “Olhos de Prôa” e “Jardim dos Animais”. Ao todo ele lançou 8 discos em sua carreira. A maioria em parceria com poetas, mas todos com uma pegada experimental muito forte. Um traçado não linear que vai da cultura popular aos grandes mestres da música do mundo.
    “Quarta Capa”, no entanto, é uma parceria coletiva. O trabalho foi crescendo e ficando mais abrangente. Começou com a participação dos músicos Uaná Barreto e Rudá Barreto, aos quais se juntou Rainere Travassos e o produtor Marcelo Macedo. A eles juntou-se a cantora Dida Viera cujo instrumento afinado da sua voz busca a condução dos versos do poeta. Este trabalho disputa espaço entre a música, a poesia, a amizade, as relações humanas e a tradução da luta de artistas pela arte e pela vida nestes tempos movidos pelo caos e pelo silêncio.
    O disco tem gerado boas expectativas e, sobretudo, emocionado quem dele participou ou quem já teve a oportunidade de escutá-lo. Assim, num ponto equidistante entre a comunhão e a transgressão que os autores impuseram ao trabalho, chegou a hora de mostrar o produto de uma longa gestação. A apresentação da obra ficou por conta de Totonho:
    “Um náufrago remando contra marés. A favor dele, palavras que flutuam por muitas partes, inundam o barco, que quase sem querer se escora, e ancora em águas de uma esquina do Oceano, onde se margeia a Paraíba, não o rio, a capital da aldeia, aparentemente vazia. O encontro com o compositor e pescador de melodias, melonoites adentro.     Paulo Ró pareceria inusitado se não fosse proposital. Afinado, cercado de delicadezas por todos os lados. Quando ouvi aquelas canções, pensei que fosse coisa muito antiga, das enchentes dos quereres, mas seria mais que isso; o compromisso de quem mergulha no seco, em busca de versos, distante do seu chão, sem anzóis, sem arpão. O que essas canções de Lau Siqueira e Paulo querem dizer, nem debaixo d’água saberíamos senão que são iscas que te puxam pra cima, pelo ouvido, pelo perigo contra eles descompromissados, sem boias ou medo do risco, sem preocupação com a invenção da roda, ou do disco. Ouvi naquelas canções, tantos peixes  saltando que pra escolher um causava-me desespero, abstinham-se de temperos, pouco sal, muito zelo, Dida Vieira, Uaná e Rudá. Indígenas de braçadas sonoras e impecáveis, sem pensar num comprador de fato, dando as costas ao farol do Mercado. Agora choro quando ouço mesmo as miudinhas, de escamas douradinhas, aquelas que são as últimas a vender na feira, porque é canção brasileira, vinda do desconhecido, da nada acanhada Nau Siqueira”.  Totonho – 2015
     
    Lau Siqueira
    Lau Siqueira, nascido em Jaguarão-RS, escreve poemas desde a adolescência. Depois de ler “Os Sonhos de José”, de Sérgio Antônio Raupp, passou a imitar o protagonista que, coincidentemente, escrevia tudo que sentia. Na década de 70, começou a publicar seus poemas na coluna Do Brik-à-brak da vida, do Jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Publicou seu primeiro livro em 1993: ” O Comício das Veias”, com o selo da Editora Idéia. Poemas seus e contos de Joana Belarmino. Antes deste, havia participado de antologias como a “Mário Quintana – 1985” (aliás, Quintana, gaúcho como Lau, chegou a ser entrevistado por ele e por Joana Belarmino, em janeiro de 1987). Seguem-se em 1998, “O Guardador de Sorrisos”, pela Editora Trema, livro pelo qual o autor recebeu o prêmio Dom Quixote, do Jornal O Capital, de Aracaju-SE; em 2002, “Sem Meias Palavras”, de novo pela Editora Idéia; em 2007, Texto Sentido, pela Editora Bagaço, de Recife-PE; em 2011 publicou Poesia Sem Pele, Editora Casa Verde, de Porto Alegre-RS.
    Seus poemas encontram-se ainda em diversos sites, suplementos, revistas, etc. Também em antologias como “Na Virada do Século – Poesia de Invenção no Brasil” (Editora Landy, 2002), antologia organizada pelos poetas Frederico Barbosa e Cláudio Daniel; Moradas de Orfeu, antologia de poetas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, organizada por Marco Vasquez, (Editora Letras Contemporâneas, 2011); Coletânea de Poesia Gaúcha Contemporânea, organizada por Dilan Camargo (Edição da Assembléia Legislativa do RS, 2013); Poemas que Escolhi para Crianças, antologia de Ruth Rocha (Editora Salamandra, 2013); Bicho de Siete Cabezas – seleción de la poesia brasileña contemporánea, Editora Detodoslosmares, 2014, Córdoba, Argentina.
    Seus poemas também podem ser encontrados no Livro da Tribo e em outras agendas ou publicações diversas. Possui canções em parceria com Erivan Araújo, Paulo Ró, Kennedy Costa e outros compositores. Desde 1985 o poeta vive na cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. Segundo a crítica, ele mantém uma integridade rara, básica, que o torna tão expressivo quanto significativo para a poesia contemporânea. Realiza uma poeisa sem máscaras de qualquer espécie.
     
    Dida Vieira
    Nascida em Itabaiana, irmã do músico e compositor paraibano Adeildo Vieira, deu seu primeiro passo musical no Ateliê Casa Velha, no bairro de Jaguaribe e participou de vários festivais musicais (UFPB, SESC,IFPB), com canções de Adeildo Vieira, Milton Dornellas, Chico Lino e Paulo Ró. Dida também já registrou sua voz em trabalhos musicais de compositores como Pádua Belmont, Byaya, Paulo Ró, além de Milton Dornellas (vinil), Adeildo Vieira (CD’s e DVD) e Musiclube da Paraíba. Também fez parte dos corais Voz Ativa e Gazzi de Sá, em João Pessoa.
    Essa é a participação mais extensa de Dida Vieira em um álbum musical. Desta vez a cantora alça vôos mais altos, colocando sua voz em quase todas as faixas do Álbum “Quarta Capa”, compondo um trabalho coletivo entre amigos.
    Paulo Ró
    Paulo Roberto do Nascimento, é músico instrumentista e ativista cultural paraibano.  Teve seu primeiro contato com a música ainda na infância, ouvindo desde música clássica em casa, até a popular dos grupos folclóricos que ouvia nas ruas de Jaguaribe, bairro onde morava.
    Sua história percorre entrelaçada ao grupo “Jaguaribe Carne de Estudos”,criado nos anos 70 e 80, junto ao seu irmão Pedro Osmar. O grupo foi uma verdadeira escola para diversos outros artistas da cena contemporânea, como Totonho, Escurinho, Chico César, Adeildo Vieira, entre tantos outros, marcando assim a história da música paraibana. Assumindo a Guerrilha Cultural como uma perspectiva de ação direta nos bairros da cidade, o grupo trabalhou em conjunto com ONGs, partidos de esquerda, pastorais da igreja e grupos anarcopunks.
    Surgiram dessas parcerias, projetos como a Coletiva de Música da Paraíba (76), o Musiclube (81), o projeto Fala Bairros (82), o Movimento de Escritores Independentes (84), entre outros projetos coletivos que seguiram envolvendo diversos agentes culturais ao longo dos anos.
    Em 1992 o grupo lançou seu primeiro LP “Jaguaribe Carne Instrumental” e ainda nesse ano, Paulo Ró gravou o LP “Etnia”, com o grupo de nome homônimo, um trabalho de estudos de ritmos e instrumentos populares latino-americanos. Em 1998, Paulo Ró gravou o CD “O Jardim dos Animais”, em parceria com o poeta mineiro Ronald Claver. Esse trabalho obteve elogios da crítica e do público em geral. Em 2004, gravou um de seus melhores trabalhos, o CD “Olhos de Proa”, em parceria com o biólogo e poeta Vergara Filho, com músicas que tratam do cotidiano do mar e de seus pescadores, num constante diálogo entre natureza, cultura e trabalho. Neste mesmo ano, iniciou-se o projeto de gravação do CD “Vem no Vento”, do grupo Jaguaribe Carne, que contou com a participação de grandes nomes da MPB, a exemplo de Elba Ramalho, Chico César, Zeca Baleiro e muitos outros artistas que sempre apoiaram o trabalho dos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró. Em 2011, Ró lançou o “Cantus Popularis”, um trabalho de releituras a partir de ritmos tradicionais da Paraíba, com participação de mestres da cultura popular de Lucena, onde reside. Em 2014, lançou o álbum “Sob o Sol”, em parceria com o poeta maranhense Fábio Kerouac, musicando os poemas que o amigo fez sobre a cidade de Lucena, litoral norte da paraíba.
    Entre uma extensa carreira dedicada ao experimentalismo musical, às canções e poesias musicadas, com apresentações internacionais e influenciando uma gama de artistas nacionais, Paulo Ró demonstra a continuidade de sua obra, reafirmando a expressão característica de sua identidade musical, demonstrando sua total capacidade criativa e renovadora.

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