Barreira do Cabo Branco se dissolve nas mãos de Cartaxo sob o olhar indignado da população

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O apedeuta Homer Simpson tem uma máxima que se incorporou à prática de alguns políticos. Pressionado um dia pela filha que o critica por ter destroçado as fronteiras de um mínimo múltiplo comum ético, Homer sai pela tangente com a seguinte pérola: “A culpa é minha, e eu boto em quem eu quiser”.

Este é o caso, por exemplo, do prefeito de João Pessoa Luciano Cartaxo. Durante o evento em que assumiu o cargo, já há bastante tempo, mais de três anos, a população botou a barreira do Cabo Branco nas mãos dele. E pediu: use a força do nosso voto e faça por ela o que não foi possível fazer até agora. Foi um voto de confiança. Confiou-se o eleitorado em que as ações técnicas e administrativas no sentido da pesquisa quanto ao melhor método de intervenção na área seriam retomadas. A preservação é um trabalho permanente, de gerações. Antes, não havia essa percepção. Hoje, existe há mais de 30 anos. A proteção, nesse caso da ponta do Cabo Branco, é urgente. Mas não basta chamar o Samu.

Existem a memória e a agenda de um debate sobre o que fazer e como fazer para reduzir o impacto dos fatores que degradam um complexo ecossistema com suas marés, correntes marinhas, a energia das ondas, sistema de ventos, formas de vida silvestres, os timbus, tejus, e as raposas, a vida do mar com seus corais, aratus, siris, peixes, algas; os pássaros, gaivotas, gaviões, anus brancos, corujas buraqueiras, beija-flores, tetéus, rolinhas, pardais, canários, bem-te-vis; insetos, a flora, tudo, um bioma, uma comunidade biológica. Patrimônio enorme esse representado pela barreira.

Tudo, ou quase tudo sobre a agenda para a intervenção, está documentado e habita os arquivos do município. A tramitação dos últimos dez anos é acessível ao corpo técnico das Secretarias afins ao desafio a vencer.
A imprensa também guarda essa memória. Memória que se agita como vida a ser vivida e fruída, preservada e protegida na obra do artista Hermano José. A barreira do Cabo Branco. A falésia. O farol. Por que proteger tudo isso? É possível responder perguntando: quem deixa a própria casa cair?

Bem: com a barreira do Cabo Branco nas mãos, o que fez o prefeito de João Pessoa? Botou as mãos na chuva. E agora sente e vê que ela se dissolve, está a escorrer entre os seus dedos sob o olhar indignado da população.
Apela-se então à máxima do patriarca dos Simpsons. E o prefeito passa a dizer que a culpa da lentidão a passo de tartaruga marinha da gestão municipal é do Governo do Estado. E que nada fez porque Ricardo Coutinho não deixou.

Dessa forma, fica simples resolver o problema. Que continua lá. Nas mãos do prefeito. Nas quais a barreira está derretendo. Assim como a confiança da população na capacidade de realização da equipe montada pelo prefeito.
Muita gente acompanha a trajetória de Luciano Cartaxo. É um cidadão bacana, pessoa afável e simpática. Mas vê também que ele não teve competência para consolidar uma ação administrativa capaz de realmente reconfigurar o espaço urbano com a criatividade que as urgências da cidade merecem. Inversões de trânsito, melhorias em praças e parques, a exemplo do que foi feito na Lagoa, são a concretização de projetos sempre necessários que independem de uma inteligência diferenciada na gestão. Nesses tempos de comparabilidade, em que Luciano, que foi líder de Ricardo Coutinho na Câmara dos Vereadores, mede a extensão do que fez com o que realizou o atual governador e ex-prefeito, é preciso refletir. E comparar, realmente.

Pensemos numa obra quase abstrata de Ricardo prefeito, com o peso da insustentável leveza do ser, que foi a implantação das faixas de passagem para os pedestres.
Que mudança cultural na lógica da mobilidade urbana. No outro extremo do diagrama de materialidade de obras públicas, indicaríamos a pegada monumental da Estação Ciência, que é dupla: tanto estabeleceu nova arena para a contemplação reflexiva e a prática dialogal da arte e da ciência, também em dupla perspectiva, turística e didático-pedagógica, quanto inscreveu João Pessoa no rol das cidades referenciadas pelas obras de Oscar Niemeyer. Um ganho cultural enorme para a cidade.

O que temos em contrapartida no âmbito da atual gestão municipal para o simbolismo da relevância e da leveza e simplicidade da faixa de pedestre, iniciativa transformadora, é um letreiro de madeira com os dizeres “Eu (ícone: coração) João Pessoa” que já está descascando.

A contrapartida da atual gestão da cidade à Estação Ciência, uma obra que tenha a mesma importância para a arquitetura, a ciência, a educação, o paisagismo e o turismo na capital, até agora inexiste.
O prefeito terá que saltar a barreira política que a ineficácia da gestão que conduz produziu. Um salto que poderá ser no abismo.

(Reproduzido de o jornal A União, edição 03/07/2016)

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