A União: David Bowie, uma galáxia em expansão

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Por Walter Galvão, editor do jornal A União

David Bowie morre no início deste 2016, ano do centenário do Dadaísmo. Não está tudo bem, mas posso aceitar isso como mais uma coincidência na atmosfera nublada dos tempos. Mas bem que parece uma ironia do destino. Ou quem sabe uma conspiração dos entes cósmicos que ele clonou para hospedar os frutos estranhos nas canções que invadiram o mundo a partir de 1969.

Nas músicas, Bowie nos informava, com telescópios focados em ninhos de galáxias pré-Big-Bang, sobre batalhas existencialistas travadas no fundo do quintal das angústias urbanas da contemporaneidade.

Dos dadaístas, Bowie cultivou o gosto pelo estranhamento que exibiu como uma nova ordem estética, propôs o ímpeto e a ousadia da inovação a partir de escombros, praticou uma alquimia de ruptura frente aos sentimentos que o equilíbrio e a harmonia propõem, diagnosticou ansiedades das tribos urbanas em desacordo com os ritos produtivos da alta industrialização e ousou romper as fronteiras de gênero ao se recriar enquanto pessoa e ostentar a imagem andrógina de extrema provocação ao estabelecido.

Os artistas dadaístas se insurgiram contra a Primeira Guerra, para eles a expressão definitiva de que a beleza clássica da arte ocidental havia chegado ao fim desde o atentado de Sarajevo. Em 1976, ano da explosão do punk rock com o lançamento de “Ramones”, Bowie, o poeta mú- sico das hibridações sonoras, compôs a canção “Heroes”, sobre a Guerra Fria. A canção foi a que levou a Alemanha a agradecer nessa segunda-feira ao artista por ter “ajudado a derrubar o muro de Berlim”. Foi composta no mesmo ano em que Jonh Rotten pronunciou seu célebre “fuck off” em rede nacional na TV londrina, “Sex Pistols” emergente, dez anos depois de John Lennon ter dito aquela frase sobre Beatles, Jesus e popularidade.

Heroes, do álbum homônimo, lançado em 1977.

Mas Bowie, inglês assediado pela mentalidade europeia, foi além do mal-estar da civilização diagnosticado por Freud e simbolizado pelo Dadaísmo numa Europa em transe belicista. A exemplo de Andy Warhol, soube construir um planeta de invenção, ironia e crítica sobre os escombros da utopia hippie. Isso depois da fatídica declaração de Lennon sobre o fim do sonho. O camaleão construiu uma obra que espalhava flores de arame farpado sob a nuvem translúcida da fumaça atômica, sinais de alerta para novo e necessário salto da civilização sobre o abismo de tédio, droga, do consumo, da competitividade e do lucro como razão.

Performance de “Starman”, do álbum The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars. No Brasil, a banda gaúcha Nenhum de Nósfez uma versão, chamada “O astronauta de mármore”, maior sucesso da banda. 

A União: David Bowie, uma galáxia em expansão
Influência no pop: Lady Gaga, na divulgação da música Poker Face, do álbum The Fame.

É possível comparar, mutatis mutandis, David Bowie com artistas como Caravaggio, pela incorporação à obra de figuras do cotidiano sensuais, trágicas e comuns; a Wagner, pela ambição da universalidade expressional; a Paganini pelo carisma com que hipnotizava plateias. No Brasil, Caetano Veloso, Tom Zé e Raul Seixas estariam na mesma faixa de eletromagnetismo criativo. Artistas como Madonna, Michael Jackson, Laurie Anderson, Brian Eno, Prince, e nomes como Pharrel Williams, Megan Trainor, Boy Jorge e Lady Gaga expandem o campo em que David Bowie nasceu, cresceu e se multiplicou.

Nessa manhã de segunda-feira, em que recebemos a notícia de que o câncer dera um golpe fatal, definitivo, na vida do multiartista, ficou, para mim, evidente uma coisa. O universo, dizem, está em expansão, os astros morrem, mas galáxias, como Bowie, brilharão. Até o início de novos tempos.

 

John Lennon tenta explicar a polêmica frase “Somos (Beatles) mais populares que Jesus”. 

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