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CulturaWalter Galvão

Show Ofertório: Moreno, Tom, Zeca, Caetano e o pacto ético por um mundo feliz

Para o show Ofertório, que Caetano Veloso e os filhos trazem a João Pessoa nesta quinta-feira (25), é recomendável uma atitude: ame-os e deixe-os ser o que eles são. Moreno (45 anos), Tom (21), Zeca (26) e Caetano (76) são artistas livres para realizar, compasso a compasso, instante a instante nessa excursão nacional do espetáculo que há um ano conquista público e crítica, um campo de vibrações interativo em que a arte é celebrada enquanto expressão de um encontro feliz marcado pelo destino. A canção “O seu amor” é um plano aberto cinematográfico desse cenário.

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Nesse campo minado de talentos à flor da pele, música e letra, corpo e instrumento, afeto e memória, desejo e imaginação delineiam um percurso de encantamento para o puro prazer do público, e também do quarteto que se entrega contente ao jogo de timbres, ritmos, arranjos, vocais, falsetes, assovios, batuques e performances que acontecem no fazer-se em cena das canções-cristais prismáticos. “Reconvexo” é um índice da diversidade do show.

Encantam, na perspectiva intuitiva de prazer, alegria e admiração: a performance de pai e filhos músicos que dizem juntos de maneiras diferentes o mesmo que há em todos; a performance individual de cada um que diz um pouco do pai na diferença do outro que há em si; as diferenças entre filhos e pai que definem o contraste que os assemelha; a semelhança de pai e filhos que transforma a diversidade, que há em cada um, numa unidade harmônica de sentido.

O Quarteto em V percorre rota de ritos, vozes, causos, chistes, risos, conversas, lembranças, e ritmos que diz quase tudo deles artistas, quase tudo de nós público e se estende num universo de inventividade que se desvela múltiplo e sereno à percepção excitada da plateia.

Ofertório. Show-mapa da espontaneidade de artistas que fazem do despojamento um recurso técnico, e do saber técnico a expressão de uma poética da leveza conduzida entre piano elétrico, baixo, guitarra, violão e percussão que ora soam como Beatles, ora como o Olodum.

Do público, é possível dizer que é mergulhado a cada momento do show em diferentes regiões sensíveis. Mergulho que nos leva a vivenciar a maciez de atmosfera sonora adensada por sentimentos que vão do envolvimento simpático, que estimula memórias afetivas dos artistas (momentos como “Jenipapo absoluto”, “Alguém cantando”) relacionadas à persistência de uma obra musical que é a cara do Brasil, à percepção de novas possibilidades reflexivas, estas relacionadas às canções enquanto estímulos à liberação da subjetividade do ser contra formas cristalizadas de regulação e organização emocional e intelectual presentes em momentos como “Não me arrependo”, e “Gente”.

Ofertório é um convite ao transe – misto do fervor evocativo típico da oração, e do sensualismo resultante de sentir o bem acontecer –  que se conquista ao sabor dos mantras históricos que entoamos com Caetano desde a explosão criativa dos anos 1960, a exemplo de “Alegria, Alegria”, e de canções contemporâneas que revolvem camadas inconscientes da nossa base emotiva.

Um exemplo é a canção “Todo homem”, composta por Zeca Veloso no ano passado, e que se destaca pela força de sua concepção: um desenho melódico minimalista que se repete numa série que evoca imagem de alta carga de lirismo, como o voo de um pássaro que plana ao sabor dos ventos no entorno do ninho.

A canção “Todo homem”, cujo frase nuclear – “todo homem precisa de uma mãe” – reclama no show o percurso clássico, segundo a teoria psicanalítica, de constituição do sujeito ao estabelecer o triângulo edípico emblemático (mãe-filho-pai) para a produção do conjunto de expectativas desejantes da nossa identidade sexuada, inspira o cenário também minimalista do recém-falecido cenógrafo Hélio Eichbauer, não por acaso um grande cordão umbilical que reivindica todos os seus desdobramentos simbólicos: gestação, parto, filhos, transmissão, ligação, reprodução, alimentação, natureza, realidade, vida e morte.

Há também a relevância da dimensão psicossocial da presença do quarteto no palco quanto à sinalização para alguns dos núcleos de afirmação daquilo que chamo de biossociabilidade. Entre esses núcleos estaria a paternagem, esse grau a mais da paternidade em que o elemento masculino tradicional se dissolve numa perspectiva inovadora frente ao filho; estaria também a hereditariedade como elemento para a problematização positiva da identidade; e a individuação, a conquista da maturidade pela consciência de si.

Da observação do universo sensível, que o soar das canções configura, à passagem ao campo do inteligível que as referências culturais propõem, o aporte criativo do show é uma codificação da poeticidade de artistas que se realizam enquanto tal na produção de um quadro em que a beleza da música é metro civilizatório na lógica defendida por Nietzsche para a arte, arte sentido da vida.

Na observação de um percurso inverso: do universo inteligível das práticas técnicas vocais e instrumentais otimizadas para a modelagem de objetos artísticos como as canções passíveis de monetização; à dimensão do sensível, onde a canção é também a expressão do espírito do tempo na perspectiva do inconsciente coletivo, Ofertório é pacto ético a serviço de uma estética legitimadora da existência feliz. Viva a vida com música, então.

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