Sexo, álcool e drogas: infectologista alerta para aumento de casos de HIV em jovens

Especialista relembra como foi o diagnóstico do primeiro caso transmitido no Brasil e fala sobre a evolução do tratamento

Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

O infectologista David Uip, reitor do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) é um dos maiores especialistas em HIV/Aids e um dos pioneiros no tratamento de pacientes com a doença no país. Uip foi um dos autores do estudo sobre o primeiro caso autóctone da doença no Brasil e é um dos fundadores da Casa da Aids, um serviço inovador de atendimento de pacientes com HIV/Aids.

No Dia Mundial de Combate à Aids, Uip relembra como foi o diagnóstico do primeiro caso da doença transmitido no Brasil, fala sobre a evolução do tratamento ao longo dessas quatro décadas, quais são os grupos de risco atualmente e o que falta ser feito para eliminar a doença.

Ao longo dessas quatro décadas, houve mudança no grupo mais vulnerável à infecção?

Em 1982-83, nós não sabíamos que a Aids era causada por um vírus nem como era a transmissão. Tanto que, nas minhas primeiras aulas sobre o assunto, eu colocava alguns países como grupo de risco porque eram lugares que as pessoas visitavam para ter relações sexuais mais abertas. Então era muito diferente. Depois que se descobriu a forma de transmissão, isso foi ficando mais claro. Hoje sabemos que a Aids é transmitida pelo sangue, por relação sexual e também há transmissão materno-fetal. Nos lugares com acesso aos medicamentos, a transmissão materno-fetal deixou de existir. O controle dos bancos de sangue também eliminou a transmissão via transfusão de sangue ou derivados. A transmissão pelo uso de drogas injetáveis varia muito de país para país. O que continua é a transmissão por via sexual. Nesse sentido, os grupos mais vulneráveis são a população de travestis, transexuais, gays, homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e pessoas privadas de liberdade, além do usuário de drogas. Nesses grupos, é preciso ter uma atenção redobrada, inclusive com campanhas esclarecedoras muito dirigidas.

Dados do Ministério da Saúde apontam para um aumento dos casos de HIV em jovens. Esse grupo da população ainda desdenha da doença?

Eu estou muito preocupado com os jovens em geral. Pessoalmente, eu tenho visto um aumento no número de casos de HIV em jovens tanto homens quanto mulheres. O que nós estamos vendo na prática são alguns grupos em absurdo exagero: bebida alcoólica, uso de drogas e sexo sem nenhum nível de proteção. Esse tripé é muito complicado não só para a Aids, mas para inúmeras outras doenças, tanto as doenças sexualmente transmissíveis como as hepatites B e C, por exemplo. Quando as pessoas entram nesse embalo, além de não se protegerem do ponto de vista sexual, elas saem muitas vezes do estado de racionalidade pelos excessos que cometem. Há quem diga que sempre foi assim. Mas eu não acho. Está pior. As pessoas nem cogitam o uso de preservativo.

Qual é a reação do jovem quando recebe o diagnóstico de HIV positivo hoje em dia?

A notícia é sempre ruim. Eles desdenham da doença e acham que estão totalmente protegidos, mas quando vem a notícia que tem HIV, o choque é igual ao de antigamente. Então o médico precisa explicar que a doença mudou e que hoje em dia é possível tratar melhor.

De fato, a vida de quem toma antiretroviral é praticamente igual a de quem não tem a infecção?

Hoje, os pacientes com HIV tratados, bem conduzidos e aderentes ao tratamento, não morrem de HIV. Eles têm que se dedicar ao tratamento, fazer exames periódicos, mas vivem uma vida muito semelhante ao indivíduo que não é HIV positivo. Mas é claro que tem as consequências da rotina de fazer exames, do uso dos medicamentos a longo prazo e dos efeitos adversos desses medicamentos. Mas o que foi uma sentença de morte no passado, hoje não é mais.

Como funciona o tratamento hoje em dia e quais são os efeitos colaterais?

Hoje, o esquema básico são dois comprimidos por dia. Para fator de comparação, no início dessa história, o indivíduo começava a tratar o HIV com, no mínimo, 20 comprimidos. Era uma loucura. Os efeitos colaterais também diminuíram muito, mas ainda tem alterações metabólicas. O indivíduo tem resistência insulina, aumenta o colesterol e o triglicérides. Além disso, o paciente precisa fazer exames periódicos. Os meus pacientes que estão controlados passam em consulta a cada três meses, por exemplo. Nessa periodicidade eles também fazem exames para ver o CD4 e o CD8, que são marcadores de imunidade, e a quantificação do vírus. Além disso eu faço a prevenção de todos as eventuais complicações de medicação, as alterações cardiovasculares, a densitometria óssea, etc. Eu resumo isso tudo dizendo: essa doença continua não sendo boa. Não vale a pena você se arriscar a pegar.

Por que, apesar de todos os avanços, ainda não há cura nem vacina para a Aids?

O HIV é um vírus complicado. Claro que o mundo inteiro procura remédios definitivos. Mas é muito difícil, mesmo medicando, que você garanta a supressão total do vírus. Provar a cura é muito difícil porque o vírus se esconde em reservatórios. A prevenção por vacinas também é um desafio porque esse é um vírus muito complexo e mutante. As pessoas que não acompanham a literatura pensam que a ciência não está mais preocupada com a Aids. Mas não é isso. É difícil mesmo. Evoluiu-se muito no tratamento e virão novidades, como novos grupos de medicamentos, velhos grupos com medicamentos mais atuais. Mas, na verdade, hoje nós não temos a prevenção completa nem a cura.

Existem casos pontuais de pacientes que foram curados com transplante de medula óssea. O senhor é otimista com esse tratamento?

Não há hipótese de se implementar o transplante de medula como medida terapêutica para o HIV. Eu trabalho a vida inteira com infecção e transplante. As consequências de um transplante, em termos de rejeição e infecção, são dramáticas. Mas é possível usar o conhecimento trazido pelo transplante para ir em busca de novos medicamentos. Isso abre uma linha de pesquisa muito interessante.

Não existe vacina, mas existe a PrEP, que é a Profilaxia Pré-Exposição. Qual é o papel desse tratamento na prevenção da doença?

O uso de medicamentos pré e pós exposição ajudaram muito no combate à Aids. A PrEP em si foi um grande avanço que continua a evoluir. Hoje existe a PrEP que é uma injeção por mês e, em breve, será uma a cada seis meses. Isso é um grande avanço na prevenção, mas tem que ser entendido que não é uma forma isolada de prevenção. Ela complementa outras, como o uso de preservativo e a educação de formas mais seguras de relacionamento. Essas medidas devem ser conjuntas. A terapia pós-exposição também é uma medida importante de segurança, mas não é 100%. Conheço um indivíduo que usou a PEP no tempo adequado e soroconverteu. Além disso, as pessoas precisam lembrar que existem outras doenças que não são preveníveis pela PrEP ou pela PEP. Hoje temos uma epidemia de sífilis, de HPV, de gonorreia causada por gonococo resistente aos antibióticos e um aumento muito expressivo de herpes tipo dois, transmitido por sexo.

O Brasil vive um aumento preocupante dos diagnósticos de sífilis. O que o senhor acha disso?

É estarrecedor, inclusive o aumento do número de casos de sífilis congênita. O indivíduo pode pegar sífilis na relação habitual, mas estamos vendo um aumento do número de casos de sífilis adquirida por sexo oral. Isso não é uma novidade, mas estamos vendo aumentar.

O sexo anal com proteção é seguro?

Hoje na literatura está muito claro quais são as formas de maior exposição. A principal é o sexo anal receptivo, seguida do sexo introdutivo anal. Mas com o uso de preservativo, desde que ele não rompa, o sexo anal é seguro. É preciso lembrar que a lubrificação vaginal é diferente da anal. Eu digo isso porque há um aumento das escoriações e machucaduras dos dois lados, com aumento do risco do rompimento do preservativo. Por isso, também tem que haver lubrificação e cuidados adequados.

Na sua opinião, o que falta no Brasil em termos de políticas públicas de combate à Aids?

Os serviços de saúde voltados à Aids foram muito bem organizados no Brasil desde o começo. O paciente tem acesso a um diagnóstico fácil e correto, tem acesso aos medicamentos e às consultas. O Brasil, sem dúvida, saiu muito na frente e ainda é um programa exemplar. Mas precisamos de mais campanhas em cima dos grupos-chave. A gente só fala de HIV no dia 1º de dezembro. Eu me decepciono muito comigo mesmo porque eu falo de HIV há mais de 40 anos e tem muitas coisas que eu continuo a ver que não estão acontecendo, como a prevenção. Isso tem que ser política pública constante. Tem que falar todos os dias de HIV e de doenças sexualmente transmissíveis.

O senhor é um dos autores do estudo sobre a detecção do primeiro caso autóctone de Aids no Brasil, há 40 anos. Poderia contar como foi isso?

O primeiro caso que nós vimos foi em 1982. Foi um indivíduo que veio para a consulta com febre e emagrecimento e, na investigação, ele culminou com uma cirurgia de vesícula. Nesse procedimento, o cirurgião, que era muito experiente, viu que ele tinha mais gânglios do que deveria para um problema de vesícula e fígado aumentado e decidiu fazer uma biópsia. Naquele momento, sabia-se muito pouco de Aids e não tinha exames para a detecção da doença. Mas a análise patológica mostrou que ele estava infectado com uma mico-bactéria prima da tuberculose e essa era justamente uma das infecções oportunistas que estavam sendo associadas aos primeiros casos de Aids em São Francisco e Nova York. Então embora não tivessem exames para Aids, nós conseguimos isolar uma bactéria e mostrar a deficiência. Depois, foi feito um grande estudo imunológico desse caso e a descrição feita cientificamente em 1983 é muito interessante porque mostra todo o sistema imunológico deficiente. Esse caso foi publicado como o primeiro caso autóctone do Brasil, ou seja, foi o primeiro brasileiro que pegou Aids de outro brasileiro. Soubemos disso porque se tratava de um paciente que morava no interior de Minas Gerais e que nunca viajou para outro lugar. Então nós tínhamos certeza que ele adquiriu de alguém dentro do Brasil.

Quais são os principais desafios no combate à Aids?

A meta da Unaids para acabar com a pandemia de Aids até 2030 é uma estratégia que chama 95, 95,95. Ou seja, que 95% das pessoas que vivem com HIV sejam diagnosticadas, que 95% das pessoas que conhecem seu status sorológico estejam sob tratamento e que 95% das pessoas em tratamento estejam com supressão viral. Países africanos que eram tidos como os mais afetados conseguiram alcançar os 95 95 95. Isso tem que ser meta brasileira. Eu, e muitos que começamos essa luta, merecemos isso. Tem que ser política pública. Não pode reduzir orçamento para HIV e DST. Tem que aumentar a divulgação da prevenção e visar os grupos-chave para uma prevenção bem acentuada. Uma última coisa que melhorou muito, mas que ainda precisamos combater é preconceito e o estigma. Isso não cabe mais nesse mundo.

De O Globo