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Quotidiano

Ricardo, a oposição e a mídia: um retrato da Era do Ridículo tabajara

No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso, já dizia Guy Debord

O comunismo. O vice decorativo. A votação do impeachment. A mamadeira de “piroca”. A gestão via Twitter. O porteiro do inferno, a pomba gira, a infeliz das costas oca. As fake news. Duelo estilo velho oeste. Ações, discursos e narrativas que têm dois lados: ataca ou capitaliza. Às vezes, os dois ao mesmo tempo. A Era do Ridículo nunca foi tão presente quanto agora, e nunca fez tanta morada na política quanto nos idos atuais. Vamos olhar os lírios do campo?

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No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso, já dizia Guy Debord. Outrora protagonizada por agentes pontuais, o discurso absurdo, que beira – por vezes se afunda – o tragicômico, parece ter se tornado regra na política tupiniquim. Troca de insultos, xingamentos, discursos preconceituosos (homofóbicos, machistas, misóginos, racistas, xenofóbicos), ataques e até agressões – como vimos na eleição da Câmara Municipal do Macapá (AP). A política virou um grande circo, em estado de ebulição diuturna.

Exemplo é a troca de farpas entre o ex-governador Ricardo Coutinho e o deputado estadual Wallber Virgolino (Patriota). O parlamentar chamou o governador para um duelo. Isso mesmo. No melhor estilo Velho Oeste, ao que parece. “Escolha as armas e o lugar”, bradou o deputado através da imprensa. Que, aliás, creio num momento de falha das sinapses cerebrais, fez o que nenhum agente político deve fazer: misturar a atuação política com o lado pessoal. Wallber atacou a honra da família de Ricardo – que perdeu a mãe, Dona Natércia recentemente -, ao afirmar que ele não tem “base familiar”.

Aliás, não apenas o nobre deputado, mas aquela parcela da imprensa, que se diz digna e combativa, que inunda as redes sociais com manchetes envolvendo a vida pessoal do ex-governador para tentar acabar a reputação política daquele que promoveu a maior revolução na forma de governar este estado. Quem viveu, viu. E até eles admitem isso silenciosamente. Até porque, ninguém chuta cachorro morto.

Falaram da companheira de Ricardo, que teria sido rebaixada na gestão de João Azevêdo; que o atual governador estaria usando-a para dar algum “troco” a Ricardo ou até mesmo a saída dela do Empreender seria sinais de litígio no ninho girassol. Na sanha de derrubar o líder político, não percebem a violência moral que fazem contra ela.

Eu faço aqui uma autocrítica. Para além do ideal de imparcialidade que cada jornalista deve ter, eu sou uma daquelas raras vozes que vez por outra tece críticas à gestão do prefeito Luciano Cartaxo (PV). Confesso que produzo mais reportagens, de cunho investigativo, do que opinião. Todas elas fundamentadas em fatos, documentos… Mas veja, critico a gestão quando peca. Tenho o prazer de publicar quando acerta. Mas pouco me importa o que acontece em sua alcova. Me interessa o Cartaxo enquanto CNPJ político, não enquanto CPF. Investigo o que ele faz no Centro Administrativo, não no Condomínio Alphaville.

Alguns tentam desfilar entre as teorias de Maquiavel, alçadas em “O Príncipe”, mas nem cristã nem política, só chegam mesmo ao subterfúgio de suas limitações. Acho que estimo muito ao citá-lo, pois não vejo sinais de que compreenderam bem o pensamento e a crítica política de Nicolau. A obra dele descrevia como o Estado funcionava, não como ideal de governança. Mal sabem que estão mais para o terceiro episódio da segunda temporada de Black Mirror, ‘The Waldo Moment’, onde um personagem virtual se torna extremamente popular com um discurso escrachado e voraz contra políticos, chegando a se lançar numa disputa eleitoral – e quase vencendo um conservador na disputa.

Diversos personagens se apresentam de forma ridícula e se empoderam com esse discurso. Também há algo de errado com a sociedade? A Era do Ridículo na política já é chamado de “Ridículo político”. A definição é da filósofa e política Márcia Tiburi. Reproduzo uma análise dela sobre o assunto: “O discurso preconceituoso, o discurso do ignorante, da estupidez, capitaliza politicamente esses indivíduos. O sujeito não fala essas asneiras apenas porque ele não sabe falar algo além disso. Ele percebeu que quanto mais estúpido ele parecer, mais ele capitaliza, e atrai também as pessoas que não gostam de política”.

Eu não estou aqui para fazer defesa de Ricardo Coutinho. Mas em meio a um turbilhão de absurdos, impossível não se colocar por um momento no lugar deste que hoje tenta ir numa padaria como cidadão comum sem ser espezinhado por paparazzis de plantão. Tudo bem, sabemos que é o preço que se paga por ser uma personalidade pública, mas isso não torna sua privacidade um bem público.

Me pergunto se este tipo de ataques é feito apenas por esporte por aqueles que o despreza ou se é típico de quem vê nele o demagogo que é. Sim, Ricardo Coutinho é um demagogo. Até o chamaram disso por esses dias. Ser demagogo tem lá seus encantos. Palavra de origem grega que se referia àqueles que falam pelas minorias, líderes de um agrupamento político representativo ou defensor dos interesses populares.

No atual quadro da política brasileira, mais vale uma manchete bem produzida do que uma atuação minimamente decente e produtiva em seu cargo eletivo. Com o intuito de arrebanhar apoiadores, os discursos são cada vez mais pensados e calculados. Por mais surreal que seja, o objetivo é sempre o mesmo: capitalizar. Seja demonizando o uso da Lei Rouanet ou criticando o uso medicinal da Cannabis – que aliás, são um culto à ignorância, mas isso fica para outro texto. Os políticos estão cada vez mais bestializados. Impulsionados por uma onda de apoios virtuais e superficiais, se sentem cotidianamente incentivados a explorar e expressar qualquer tipo de absurdo, desconhecimento, calúnia e mentiras. Seja na “pompa” dos plenários ou na ponta dos dedos em seus mídias sociais. E, lamentavelmente, para muitos de nós da imprensa, mais vale espremer para sair sangue. A pergunta que fica é: o que resultará dessa alta pressão contra Ricardo Coutinho? O tempo dirá.

Os opositores apontam. Tem dedo para todo lado. Entretanto, não com mãos limpas, mas com as mesmas que temem usar para descortinar o espelho e olharem para si. Esquecem até de olhar no retrovisor. É que Narciso acha feio o que não é espelho. Mas o tempo é implacável. E a história? Essa é imperdoável.

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Edilane Ferreira

Jornalista, radialista e utopista. Editora-chefe do Paraíba Já. Contato: [email protected]

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