PMs de SP são suspeitos de forjar prisão de inocente para aparecerem na TV

Polícia abre inquérito para apurar conduta de policiais; suposta fraude levou suspeito a ser submetido a tribunal do crime e quase ser assassinado

De óculos escuros e fuzil pendurado ao peito, o capitão da PM explica à repórter de TV, em nova “entrevista exclusiva”, detalhes da prisão de um homem suspeito de ter estuprado e matado uma moça de 24 anos.

O principal indício era o reconhecimento por parte de outra vítima de estupro que, dias antes, teria sido violentada pelo mesmo homem, mas escapando com vida.

“O testemunho dela foi de suma importância para chegarmos à conclusão de que ele, realmente, pode ser o autor do estupro e do homicídio da Amanda. Nós precisamos coletar alguns indícios, algumas provas, para realmente ligá-lo ao crime, tendo em vista que ele não confessou ontem no DHPP o cometimento do homicídio e estupro da Amanda”, disse o capitão André Silva Rosa, referindo-se a Francisca Amanda Costa Silva, 24, morta em 29 de março, em São Mateus (zona leste de São Paulo).

Essa entrevista com o oficial da PM paulista foi veiculada pela TV Record em 1º de abril, Dia da Mentira, data apropriada para o que se acredita ter ocorrido nos bastidores dessa história: policiais militares são suspeitos de forjarem a prisão desse homem, o morador de rua Clayton Silva Paulino Santos, 34, sabidamente inocente, com o objetivo de aparecerem na TV.

As suspeitas ganharam força em maio deste ano, quando equipes do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) conseguiram chegar ao verdadeiro suspeito do assassinato de Francisca Amanda e, principalmente, quando a vítima que acusava Santos de estupro voltou atrás de seu reconhecimento e explicou os motivos de ter mentido.

Ela disse ter sido pressionada por policiais militares para acusá-lo porque, segundo os PMs, Santos seria o autor do estupro e morte de Amanda e, assim, tinha de ser “punido”, tinha que “pagar”, “porque era o certo”.

Para dar credibilidade à falsa versão, os PMs teriam orientado a moça até sobre o que deveria falar para convencer o delegado.

“Os policiais disseram para a declarante mencionar a tatuagem no reconhecimento, informando que o indivíduo tinha uma tatuagem do Corinthians, dizendo, ainda, que a declarante deveria também reconhecer um boné de cor preta com a inscrição ‘Argentina’ como sendo o boné utilizando pelo autor do crime do qual foi vítima”, diz trecho de documento da Justiça paulista que determina a soltura de Santos e a abertura de investigação por parte da Corregedoria da Polícia Militar.

Esses detalhes narrados pela vítima, em especial o da tatuagem no antebraço, além do reconhecimento, influenciaram os policiais civis a pedirem a prisão temporária de Santos em 31 de março deste ano. Ele foi solto, a pedido da própria polícia, em 18 de maio.

O novelo da história começou a ser desenrolado com a prisão em flagrante, em 25 de abril deste ano, do também morador de rua Fernando Domingos dos Santos Dantas, 30, sob a acusação de ter estuprado uma mulher de 36 anos na Cidade Líder, também na zona leste da capital.

A vítima contou aos policiais que, durante o crime, Dantas dizia frases do tipo “diz que você quer ser minha mulher”, “que quer morar comigo”.

Quando os policiais do DHPP tiveram acesso a essas informações, lembraram de que a vítima que acusava Santos tinha dado versão muito parecida, com frases similares, ao registrar o boletim de ocorrência, em 1º de março.

Ao ser chamada mais uma vez ao DHPP para falar sobre o assunto, essa vítima confessou ter mentido sobre Santos e contou sobre a pressão feita pelos policiais militares. Ela também reconheceu ser Fernando Dantas o autor do seu estupro.

Dantas, por sua vez, confessou aos policiais civis ter estuprado e matado Francisca Amanda, mas, negou ser o autor do ataque à vítima de 1º de março. Para policiais ouvidos pela Folha, não há dúvidas de que Dantas seja o autor dos três crimes.

Policiais civis e militares ouvidos pela reportagem afirmam não saber qual é o grau de envolvimento do capitão Silva Rosa no episódio —se teve participação direta na suposta fraude ou se apenas aproveitou a oportunidade para “ganhar mídia”, já que tem interesses políticos. Silva Rosa está afastado da corporação para concorrer a uma vaga a vereador na capital.

Para a família de Clayton Santos, o capitão foi o responsável pela prisão e articulou a propagação da notícia. Ele teria, inclusive, repassado uma foto de Santos a uma equipe da TV Record, imagem que foi veiculada (sem qualquer distorção) como sendo do possível autor da morte de Francisca Amanda.

A falsa acusação de estupro e a divulgação da foto de Santos pela TV quase provocaram a morte de Santos, segundo a família e polícia. Tão logo chegou à casa da irmã, após ser solto, em maio, ele foi levado por um grupo de criminosos para ser submetido ao tribunal do crime.

“Levaram ele para o barraco, e iriam matá-lo. Eu liguei para advogada, e contei que pegaram ele na rua, dizendo que para estuprador não tinha lei. Aí, ela foi lá, mostrou o alvará e a filmagem [do SBT], mostrando que era inocente. Ele iria morrer. O nome dele estava na lista para morrer.”

A advogada Bethânia Belarmino confirma. “A Polícia Militar foi irresponsável nesse caso e quase decretou a morte de um inocente. Eu entrei em contato com a Record inúmeras vezes, todas sem sucesso. Eles têm por obrigação dar uma nota falando da inocência do Clayton, com a mesma ênfase com que o condenaram sem provas”, afirmou ele

A família conta ainda que Santos teve passagens por furto e roubo, crimes praticados para sustentar o vício em drogas, mas não são do perfil dele crimes sexuais.

No último dia 25 de junho, o capitão Silva Rosa divulgou em suas redes sociais a nova prisão de Clayton Santos sob a suspeita de roubo. Ele e mais duas pessoas teriam atacado um casal de idosos, com uso de faca.

Na postagem, o PM criticou a decisão da Justiça que determinou a soltura dele no crime envolvendo a morte de Francisca Amanda. “Se tivesse na cadeia, hoje a família do casal de idosos não estaria chorando!”, publicou.

A equipe que prendeu Santos pertence à mesma área em que foi realizada a prisão de estupro.

Procurado pela Folha, o capitão Rosa disse não ter conhecimento sobre a instauração de IPM (inquérito policial militar). Mas diz que, se for intimado, vai dar todas as informações e está a disposição para dar todos os esclarecimentos que lhe forem possíveis.

“A ocorrência não é minha, mas de subordinados ao meu comando. Por este motivo fui o porta-voz no dia dos fatos no DHPP”, diz ele. “Desconheço pressão contra a vítima e ainda não fui informado sobre o IPM instaurado. Quanto ao teor da publicação nas minhas redes sociais, esclareço que o espaço permite a emissão de opinião pessoal”, finalizou.

À Folha, a TV Record informou ter divulgado informações oficiais. “A reportagem divulgou informações fornecidas pela polícia para vários veículos de comunicação sobre a prisão de um suspeito”, diz nota.

A Secretaria da Segurança Pública informou que, após receber a documentação do Poder Judiciário sobre o caso, a Polícia Militar imediatamente instaurou um IPM para apurar todas as circunstâncias relativas aos fatos.

“Comprovada qualquer irregularidade, os policiais envolvidos serão responsabilizados nos termos da lei”, finaliza a nota, que não informa quais são os policiais investigados no IPM.

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