Opinião: Me deixa ter minha bicicleta elétrica em paz

Racismo se perpetua num Brasil à deriva; "Se não ensinaram o que é revolução. A prática é o melhor jeito de aprender". canta o trio Emicida, Projota e Rashid

Sempre sou eu um dos primeiros a ser revistado numa abordagem no ônibus. Sempre sou eu que tenho que deixar a bolsa fora do provador mesmo com outra pessoa entrando de bolsa. Sempre sou eu confundido com o atendente da loja, mesmo sem uniforme. Sempre é a minha nota de R$ 100 que é conferida no caixa. Sempre sou eu que não posso correr pela rua às 2h30 da manhã para não parecer suspeito. Sempre sou eu que não combino com o camarote – e devo ter parcelado meu ingresso. Sempre sou eu que não posso ter uma bicicleta elétrica.

“Ah, mas é tudo coincidência”. Não. Não é! É reincidência. Histórica. Quase eterna.

O racismo estrutural, perverso e fatal, está nas estranhas da sociedade brasileira, com ares de hipocrisia retocado com filtros de Instagram que merecem likes na terceira década do século XXI. Não é sua opinião, é racismo. Não é só o que você acha, é racismo. Não é “que eu não sei o que realmente aconteceu”, é racismo.

Dia atrás fui num supermercado, afinal é preciso comer em meio à pandemia, e paguei com uma nota de R$ 100 no caixa. A moça conferiu a cédula. Colocou contraluz, fez atrito com a unha. “Reconferiu” contraluz. Não pela insistência, deveras casual até, mas senti um traço de suspeita ali. Por quê?

Porque o cliente antes de mim também pagou com uma nota de R$ 100, que sequer foi conferida. Ou até tenha sido, mas sem colocar cédula contraluz, bastou ela ver a pele dele: um homem branco de meia idade. Estava ali, a violência racial silenciosa se fez presente. Foi apenas um esquecimento da caixa? Na minha vez ela não poderia esquecer também? Por que lembrou justo no meu pagamento? Não foi de todo doloso, mas subconsciente, estrutural. Mas, repito, ali estava.

Longe de passar por violência tão escancarada como o instrutor de surf Matheus Ribeiro, que foi acusado por um casal de brancos de roubar uma bicicleta elétrica que lhe pertencia, no Rio de Janeiro, mas estamos sendo alvo há séculos. E cansa. Nos deixa exaustos. Ainda mais pelo fato de termos que agir como eternos professores de um status quo que só nos pisa, nos mata, nos marginaliza, que sequer nos deixam respirar ou existir em determinados – quase todos – espaços.

Não suportam ver um jovem preto portando o mesmo veículo que eles. Tendo a mesma riqueza. Usufruindo dos mesmos deleites, espaços, luxos. Seja da bike elétrica do carioca Matheus, o Porsche do Djonga, ou até mesmo ter sua própria linha de roupas como o Emicida. Não podemos prosperar, enriquecer, fazer sucesso. Quem somos nós para confrontar o extrato bancário dos raça-de-colonizadores? Peguei pesado no termo anterior?! Não é nem 0,000001% do que meu povo passa todo dia nesta terra brasilis. Uma amostra grátis. Reflita.

A escravidão não foi abolida, ela foi socada goela abaixo. Não tem Princesa Isabel heroína, tem jogo político de um dos últimos países a “abolir” oficialmente a posse de negros como servos. Os netos das netas, dos netos… se constrói um déficit geracional e de oportunidades que só se perpetua, com isso é preciso muito sangue e suor para romper essa redoma temporal e equiparar as chances de ascensão. Quem sabe o neto do meu neto viverá melhor.

E destaco: não adianta mais. Estaremos cada vez mais no topo. “Era uma questão de sorte, eu fiz ser uma questão de tempo“, rima o trio Emicida, Projota e Rashid, num trecho da canção ‘Nova Ordem’. Em que também entoam: “Se não ensinaram o que é revolução. A prática é o melhor jeito de aprender”.

Ocupando. Sendo. Existindo. Resistindo. Não abriremos mais espaço, não arredaremos o pé. Pretos no topo não é hashtag, é lema de vida. Seu discurso de “mimimi” vou revidar com punho cerrado ao alto, tipo Pantera Negra.

E para não esquecer: me deixa ter minha bicicleta elétrica em paz.