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Caleidoscópio

O dia em que me tornei pai de meus pais (ou sobre o todo dia é dia dos pais)

Datas comemorativas trazem nuances e interpretações pessoais para vivenciá-las - ou desprezá-las -, conto um pouco sobre viver por outro ótica

As datas comemorativas são um prato cheio para todos os gostos: há os que detestam por verem não a data em si, mas o consumo que aquece os mercados; há também aqueles que lamentam não terem mais seus pais devido à morte (ou passagem como muitos acreditam ser); e ainda há os que praguejam a data pelas experiências negativas com seus pais.

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Creio que já passei por todos esses sentimentos. E todos eles me pertencem por representarem a minha relação conflituosa com meu pai. Mas, tudo mudou. Absolutamente tudo mudou a partir do momento em que eu deixei de ser mero filho e me tornei pai de meus pais. E nada disso me soava próximo ou explícito até ontem, Dia dos Pais, um domingo de agosto de 2019.

Só vim me dar conta disso ao conversar com uma grande amiga e após ouvir ela me deu parabéns do Dia dos Pais porque na ótica dela eu havia me tornado pai.

Desde que meu pai foi acometido por um AVC em maio de 2018 e passou por dois estágios (o de andar com alguma limitação e reaprender a andar e a comer com talheres; e o de compreender que uma cama hospitalar era o seu único espaço a explorar devido a uma agudização do AVC no sábado de Carnaval de 2019) as atenções a ele se intensificaram, mas o alerta também de estendeu a minha mãe, que enfrenta os riscos da pressão arterial.

Quando era criança meu pai era um herói, até se entregar ao alcoolismo. Ali começou o precipício que nos afastou por anos. Muitos anos!

Ter ido morar só e depois indo para o Recife me permitiu um distanciamento que ao invés de nos afastar, me aproximou de meu pai. O reencontrei longe da bebida, responsável, sereno, se dividindo entre a leitura diária de jornais, os programas esportivos e os afazeres pesados de casa.

Pude experimentar o exercício de reescrever a minha história ao fazer comida para ele. Sempre que chegava lá ele corria para a cozinha e soltava um “Oba” porque comeria algo diferente.

E assim fomos eliminando o precipício. Embora ele não fosse dado às falas, era meticuloso. Jamais perguntou se eu estava precisando de alguma coisa. Mas, ao me visitar dizia que iria beber água com intuito de vasculhar a geladeira e cozinha para ver se estava com a feira abastecida e me alimentando bem.

Com o AVC, passei a acompanhá-lo a todas as consultas e exames. Todas! E diante da agudização do AVC aprendi algo maior: ter o controle emocional ao vê-lo na cama, com membros atrofiados e ter que saber como era dar banho, aplicar remédios e por fralda geriátrica.

Aprendi a ser pai com o pacote completo: fazer e dar comida na boca, levar ao médico, trocar fralda suja de urina e fezes, dar banho, por fralda de novo… Aprendi a ser pai de minha mãe também que precisa de monitoramento diário dos remédios, ida ao médico, conselhos para evitar as tristezas e as coisas triviais, como cuidar das burocracias e me desdobrar na cozinha.

No Dia dos Pais fui ao abrigo em que ele está internado levar bolo baeta e salada de frutas. Foi o que ele me pediu. Todas as vezes em que vou ele me pede prazeres da gula. Alguns prontamente atendidos como frutas, bolo, milho assado…outras impossíveis como toucinho de porco ou que o leve à feira.

No Dia dos Pais vi muita gente reclamando da data. E eu entendo como é difícil para nós homens sermos mais ligados à docilidade do que a tenacidade e rudeza do universo masculino.

Para homens como meu velho, que este ano completa 72 anos, se tornar pai foi um exercício muito difícil porque esse lugar do cuidado não lhe era permitido. Idoso, ele aprendeu que podia ser. E os inúmeros elogios me faziam ver essa transformação. Enquanto são meu pai foi o fã número 1 do repórter que me tornei. Acordava e ia à banca de revista comprar o jornal para ler o que eu tinha feito.

É como se o jornalismo também tivesse nos aproximado. Foi na redação de A União em 2000 que eu descobri o ídolo que meu pai, Zito Camburão, havia de tornado na década de 1960, não só por ter jogado e se transformado em ídolo no Botafogo da Paraíba, mas por ter se tornado campeão em 1968 e em sua trajetória ter tido passagens pelo ABC (de Natal), Vitória (da Bahia) e Santa Cruz (de Pernambuco). Só ouvindo os relatos e admiração de quem o viu jogar e se tornar craque é que pude entender a dimensão dele para os amantes do futebol.

E só me lendo ele pode entender a dimensão da minha paixão pela escrita e pelo mundo que, durante muito tempo, não compreendeu.

Por isso, o domingo do Dia dos Pais representa esse start de quando você entende que existe alguém que depende de você. E mais: que você já se percebe como cuidador. Eu me tornei pai dos meus pais. E o lamento e a glória ao mesmo tempo são as de saber que nunca o muito é suficiente.

Me tornei pai de meus pais e se a responsabilidade é gigante, o afeto é a única coisa que transborda. É uma tolice guardar rancor ou ficar reclamando das datas sem usá-las a nosso favor, pela sanidade, doçura e aprendizado da vida.

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Wagner Hardman Lima

Jornalista, mestre em Sociologia e professor universitário.

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