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Memórias de Carnaval e a fantasia de existir sem existir

A minha carne é de Carnaval e meus afetos, minhas memórias também. E muito dessa relação com o Carnaval veio da paixão que meus pais sempre tiveram com a festa, a musicalidade e a alegria que a festa irradia. Durante anos, décadas, meu pai sempre se vestia de mulher no domingo de Carnaval, fosse em Santa Rita ou no Recife (PE). Minha tia lavava e tratava os fios da peruca, minha mãe separava a roupa e as bijuterias (brincos, cordões e pulseiras) e assim meu pai saía solitariamente sem que existisse próximo dali um bloco como as Virgens de Olinda ou as Virgens de Tambaú. Lembro em particular de um Carnaval, o de março de 1983, na casa de meus tios, no Ibura RU 3, no Recife. Meu pai era o próprio Carnaval, uma verdadeira escola de samba na avenida, uma bateria potente em cima de um caminhão. Bastava ele na rua para animar a todos. Diferente de mim ele sempre foi o popular, exibido, falante e causador.

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Resolvi escrever sobre as memórias porque são elas – ou a ausência – que me devastam. No sábado de Carnaval, quando meu pai teve uma recaída e fiquei com ele uma noite e madrugada no hospital – o que parecia algo passageiro, ao longo desses cinco dias que passei na casa de meus pais – tornou-se uma constante: a demência em decorrência do AVC me apagou da memória de meu pai.

Uma das coisas que mais tenha me doído, talvez, seja entender e aceitar que ele sabe que tem dois filhos e os nomes. Mas, ele não sabe que esse filho sou eu. É difícil explicar e talvez até de entender para quem nunca viveu isso. Mas, é uma sensação de que é lembrado. Reconhecido? Nunca! E é aí que vem a sensação de perda, corte profundo que a gente nunca está preparado para essas artimanhas da vida: não existir mais para o outro.

Nesses cinco dias eu me tornei Edmundo, Adalberto, Marcos, Fábio. Pessoas do passado dele. Fábio, por exemplo, é o nome do filho de um ex chefe com quem ele tinha uma relação afetuisa: o médico Maurílio de Almeida. Com tantos nomes que nada me dizem e nem refletem nossa relação me tornei uma lembrança vaga do passado. E meu pai, no decorrer desse tempo, se tornou uma lembrança do presente para mim.

Durante muito tempo tivemos divergências, inclusive, porque eu não era exatamente o que ele havia sonhado e quis pra mim (o maior crime que a maioria dos pais comete). Eu me chamo Wagner porque era o nome de um goleiro do Botafogo. Meu pai sempre foi fanático pelo Botafogo, mas diferente dele que queria que eu fosse atleta e da minha mãe que queria que eu fosse militar (como meu avô), acabei me tornando professor e depois jornalista. E depois, professor de novo. Essa “misturada”…

Essa cobrança me soava tão chata em ter que ser bom jogador quando criança… No fundo, eu não entendia bem. Só quando comecei a trabalhar como repórter no Jornal A União foi que eu comecei a ter noção de quem era o meu pai, mas o que os outros conheciam. Logo, os repórteres mais antigos, especialmente, os que cobriam Esportes, ficaram eufóricos por eu ser filho de Zito Camburão, ídolo do Botafogo da Paraíba. Aí foi quando comecei a entender que meu pai fez – com aquilo que me cobrava – muita gente feliz e admirá-lo numa época do “futebol arte”. Só depois foi que eu descobri que ele já havia jogado no Vitória (da Bahia), ABC (de Natal), Santa Cruz (do Recife)…

Tempos depois é que fui percebendo que essa genética de atleta me favorecia. E pelos ensinamentos – que na época eu via como chatice. Meu pai me acordava e me levava para o quintal para correr, fazer flexão, etc. Dizia que era saúde! Uma série de exercícios que mostravam que ele queria que eu fosse aquilo que ele optou por parar no caminho.

Ao crescer percebi que o corpo lembrava muito. Uma certa malandragem também. O jeito despachado idem, que se somava à “sutileza” militar da minha mãe. O amor pelo Carnaval também estava lá e aqui… e mais recentemente percebi outra afinidade: eu gosto de cuidar de plantas como ele gostava. E me faz um bem danado cuidar e vê-las viçosas na varanda, na sala, no banheiro. Se pudesse, o apartamento viraria uma selva…

Essa percepção me fez entender que a lembrança de meu pai em mim estava mais viva do que nunca, embora eu esteja cada vez mais apagado da sua memória. Lidar com as perdas nunca é algo legal. Não somos nem criados, nem temos desenvolvimento cognitivo para lidar com as perdas. Não está na memória recente de meu pai foi e tem sido uma perda dolorosa. É como se eu não existisse mais. Apenas nas fotos! Nessas fotos. Apenas na lembrança do nome. E isso é cruel, mas quem disse que viver não é também o doce e o amargo das experiências?!

Às vezes, eu choro por essas perdas que a gente não aceita. Às vezes, eu choro porque viver é andar num fio incerto e eu não sei viver sem um controle descontrolado mínimo (embora insista em tentar aprender). Às vezes, o choro é só isso: sem muita explicação, como dor que vem de dentro e a gente não sabe dizer onde exatamente dói.

Das perdas desse 2019, ir para o Carnaval e ter que voltar às pressas no sábado e ficar dias e dias dormindo mal e cuidando da recuperação dele (que parece ocorrer lentamente), a maior perda não foi não estar no ‘Galo da Madrugada’ ou no ‘Enquanto isso na sala de Justiça’. Ou ver amigos, assistir aos shows e usar as fantasias. A maior perda foi perceber que para o meu pai de hoje eu sou uma lembrança vaga e embaçada do passado que ele só lembra ou tem lembrado do nome. E essa é uma dor que dói todos os dias. Que dói sempre que a cabeça para e na memória passam instantes de uma vida toda.

Minha carne, meu corpo, minha memória e minha realidade agora são, também, de Carnaval: a fantasia de que a “fantasia de existir” sem existir, basta!

 

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Wagner Hardman Lima

Jornalista, mestre em Sociologia e professor universitário.

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