Médica paraibana cria grupo de apoio para pessoas com sequelas da Covid-19

Para a ginecologista e obstetra Melania Amorim, há necessidade de que se investigue a qualidade de vida dos que já foram infectados pela doença

(Foto: reprodução)

A ginecologista e obstetra paraibana Melania Amorim criou um grupo para apoiar pessoas que tiveram a Covid-19, mas estão sofrendo com sequelas da doença após a recuperação. O perfil no Instagram (@sindrome_pos_covid), que já conta com mais de 10 mil seguidores, reúne especialistas, estudos e outras informações sobre o vírus.

Na entrevista ao programa Bem Estar, da Globo, Melania Amorim, que teve Covid-19, percebeu que após uma recuperação inicial, passou a desenvolver sequelas da doença. De acordo com a médica, os sintomas persistentes chegaram a ser erroneamente associados a um caso de ansiedade.

“Eu tive um quadro inicial da Covid-19 no final de junho, começo de julho. Foi uma manifestação leve, eu tive calafrios, mal estar, dor de garganta, não tive febre. Era mais uma astenia, um cansaço. E como eu sou médica trabalhando num centro de referência para gestantes com Covid, imediatamente eu desconfiei e fiz o teste, que no terceiro dia deu positivo. Fiquei em casa, isolada. Eu tenho um oxímetro, fiquei monitorando, nunca apresentei queda da saturação e estava me sentindo bem depois dos três a quatro dias já estava me sentindo bastante bem”, explicou.

De acordo com a médica, três semanas após a recuperação, ela observou a falta de ar e dispneia durante sua locomoção no trabalho.

“Depois de umas três semanas eu comecei a perceber: eu trabalho num hospital que tem muitas rampas, um hospital de modelo antigo, tem muitas rampas e comecei a perceber falta de ar, cansaço quando subia essas rampas e que não estava mais conseguindo desempenhar todas as tarefas sem me cansar do ponto de vista físico sem me sentir fatigada. Esses foram os primeiros sintomas pós-Covid. A falta de ar, dispneia”, destacou.

Para Melania, há necessidade de que se investigue a qualidade de vida das pessoas após a infecção pela doença. “Porque não só sou eu. Somos muitos. São muitos sequelados da Covid. E quando a gente lê essas estatísticas todas de recuperados. Que recuperados, eu digo? Quem foi que avaliou como está a qualidade de vida e o quão recuperados nós estamos? Como eu sempre disse, nunca foi somente uma gripezinha”, pontuou.

Leia relato na íntegra:

“Eu tive um quadro inicial da Covid-19 no final de junho, começo de julho. Foi uma manifestação leve, eu tive calafrios, mal estar, dor de garganta, não tive febre. Era mais uma astenia, um cansaço.

E como eu sou médica trabalhando num centro de referência para gestantes com Covid, imediatamente eu desconfiei e fiz o teste, que no terceiro dia e deu positivo. Fiquei em casa, isolada. Eu tenho um oxímetro, fiquei monitorando, nunca apresentei queda da saturação e estava me sentindo bem depois dos três a quatro dias já estava me sentindo bastante bem.

E quando terminou o isolamento eu voltei a trabalhar, e voltei a trabalhar feliz acreditando que tinha vencido a Covid-19 e nos primeiros dias eu estava me sentindo bastante bem.
Depois de umas três semanas eu comecei a perceber: eu trabalho num hospital que tem muitas rampas, um hospital de modelo antigo, tem muitas rampas e comecei a perceber falta de ar, cansaço quando subia essas rampas e que não estava mais conseguindo desempenhar todas as tarefas sem me cansar do ponto de vista físico sem me sentir fatigada. Esses foram os primeiros sintomas pós-Covid. A falta de ar, dispneia.

E isso foi piorando. Eu comecei a sentir calafrios do tipo ondas. Ora eu estou muito bem, ora vem essa sensação de calafrios e também o que eu chamo de disautonomia e sintomas vasomotores. As palmas e as plantas dos pés ficam bem vermelhos, sudoréticos ou, por outro lado, há momentos que vem o que a gente chama de vasoconstrição. Eles ficam bem frios e às vezes roxos.

E continuou muito o cansaço físico, mal estar. E não é constante, tem dias que eu acordo muito bem e vou piorando principalmente no final da tarde. E tem dias que eu acordo mal e tem dias e momentos que eu estou me sentindo bem. Então são ondas mas que prejudicam bastante a qualidade de vida.

E aí eu comecei a me preocupar que isso fosse uma sequela e isso me parecia estranho porque eu tinha tido um quadro leve mas eu comecei a estudar.

Nessa época já tinha sido publicado um estudo de pacientes com sequelas pós-Covid. Já começaram a sair outras publicações e eu comecei a ver que pacientes estavam se organizando em outros países, principalmente na Inglaterra.

E algo que eu temia que aquilo fosse somente ansiedade ou algo da minha cabeça. Porque eu cheguei a ouvir de algumas pessoas que aquilo poderia ser somente estresse ou ansiedade.

E aí quando eu vi que existia realmente um problema e que ele poderia ser atribuído à Covid eu fui procurar ajuda médica com amigos meus. E a gente fez uma investigação bem aprofundada com vários exames e o que eles me contaram é que estavam recebendo muitos pacientes. Não só pacientes que tinham tido a Covid em sua forma grave e tinham várias sequelas cardíacas, pulmonares, perda de massa muscular mas também estavam recebendo pacientes com sintomas pós quadros leves ou moderados nessa bateria de exames.

Comecei a fazer fisioterapia respiratória e posso dizer que essa falta de ar, essa dispneia melhorou em cerca de 80% mas o que mais me perturba agora são essas outras queixas. Eu não tenho mais a mesma capacidade, o mesmo desempenho nas minhas atividades da vida diária.

Eu estou fazendo tudo mas isso me cansa muito, me cansa além da conta e tem sido muito, muito difícil. Para isso eu não sei ainda o que que pode funcionar… a gente continua estudando, mas meus médicos e meu fisioterapeuta têm recomendado a retomada, mesmo que as poucos, da atividade física.

Então me arrastando mesmo eu voltei a caminhar. No início eu caminhava na esteira com auxílio de oxigênio. E agora eu estou caminhando e fazendo pilates, e eu acho que eu estou mais bem condicionada, porque o meu condicionamento físico logo de início era péssimo. Agora está melhor, mas esses sintomas ainda persistem.

Eu fiquei muito preocupada não só com o que me acontece. Mas eu pude observar que havia muita gente como eu que tinha esses sintomas e que esses sintomas não estavam sendo valorizados. Gente que procurava a emergência com sintoma de cansaço e como não se encontrava nada palpável eram e ainda estão sendo tratados como se fossem casos de ansiedade. E até bullying eu mesma sofri nas redes.

E aí eu organizei um grupo, um grupo de apoio a pacientes com síndrome pós-Covid, e nós estamos ajudando uns aos outros com nossos relatos. E reclamando isso: atenção para esses sintomas que nós temos. A gente sabe que a doença é nova mas cada dia a gente está aprendendo sobre ela.

Porque não só sou eu. Somos muitos. São muitos sequelados da Covid. E quando a gente lê essas estatísticas todas de recuperados. Que recuperados, eu digo? Quem foi que avaliou como está a qualidade de vida e o quão recuperados nós estamos? Como eu sempre disse, nunca foi somente uma gripezinha.”

Com informações do G1