Manuscrito censurado de Shakespeare tem agora versão digital e gratuita; veja como ter acesso

Nota informa ainda que a peça "Sir Thomas More" foi censurada por Edmund Tilney, quando foi escrita

O único manuscrito atribuído a William Shakespeare sobrevivente aos séculos posteriores à criação, a peça “Sir Thomas More”, de 1591, está agora disponível gratuitamente no site da Biblioteca Britânica, que digitalizou o documento.

O texto, disponibilizado desde o dia 9 de julho pela Biblioteca após longas análises de caligrafia e léxico ali presentes, é um caso polêmico na academia literária. Isso porque sua autoria já foi centro de grandes debates e estudos sobre o dramaturgo britânico.

A peça, que nunca foi encenada na época de sua criação, foi escrita por diversas pessoas —há inclusive muitas diferenças de caligrafia no documento—, tem como autores originais os dramaturgos Anthony Munday e Henry Chettle, e a colaboração de Thomas Dekker, William Shakespeare, um escriba não identificado e talvez de Thomas Heywood.

Na época, era muito comum que um manuscrito passasse pelas mãos de diferentes pessoas. A participação de Shakespeare, no entanto, foi reconhecida oficialmente apenas em 2005 durante a publicação de “The Oxford Shakespeare”.

Muitos pesquisadores da literatura já quiseram atribuir ao dramaturgo não somente a colaboração nesta obra, mas também a coautoria.

A caligrafia de Shakespeare aparece, contudo, em três páginas do manuscrito. Por isso, a peça nem sempre foi interpretada como obra do escritor.

“Estamos muito satisfeitos por poder disponibilizá-lo online para que todos possam ler e desfrutar”, escreveu a Biblioteca Britânica em nota. “[É também] para você determinar por si próprio se foi mesmo William Shakespeare quem escreveu essas linhas com suas próprias mãos.”

A nota informa ainda que a peça “Sir Thomas More” foi censurada por Edmund Tilney, quando foi escrita. Uma das cenas mais emblemáticas do texto —e que tem a escrita de Shakespeare— contém falas críticas a discursos preconceituosos e racistas contra imigrantes, algo que na época era recorrente em Londres, onde se passa a história.

Na cena, londrinos pedem a expulsão de imigrantes, mas o prefeito da cidade, Thomas More, refuta os pedidos e defende um discurso empático. Estaria Shakespeare fazendo uma crítica ácida ao assunto? Esse e outro questionamentos podem surgir ao longo da leitura, diz a nota da biblioteca.

Da Folha de São Paulo.

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