Machismo, pressão e o desafio do “ser mulher”: uma entrevista com Márcia Lucena sobre a presença feminina na política

Na última eleição municipal, em 2016, as candidaturas femininas na Paraíba representaram somente 14,6% (387) das postulações. Na Região Metropolitana de João Pessoa, que conta com 12 cidades e concentra 1,2 milhão de habitantes, de acordo com dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), há somente duas prefeitas eleitas. Márcia Lucena (PSB) esta à frente de Conde, e Eunice Pessoa comanda Mamanguape. Um pleito cada vez mais presente, inclusive alvo de campanhas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a participação da mulher na política vem se intensificando ao longo dos últimos anos. Impulsionado pelas pautas direcionadas e pelo movimento feminista, a inserção da mulher se torna cada vez mais real e necessária, para ocupar os espaços e legislar para elas vindo delas.

Além do desafio natural, já que o espaço político é estruturalmente ocupado em sua maioria por homens, um processo de masculinização na forma de fazer política é enfrentado pelas mulheres.

Para Márcia Lucena, prefeita de Conde, o machismo permeado na sociedade perpassa as estruturas sociais e chega também na política. De forma que para romper com isso, é necessário uma luta também nesta frente.

“Ser mulher e estar na política é um grande desafio. Porque o universo da política e do poder são espaços extremamente masculinos. Nos habituamos a esses espaços serem ocupados por homens, é uma tradição histórica vermos isso. E quantas mulheres tiveram que se masculinizar para poder ocupar esses espaços? Pela distorção dessa sociedade machista que a gente vive há séculos”, pontuou a prefeita.

Mas é antes de tudo um direito. É assim que Márcia prossegue na sua observação sobre ser uma mulher num cargo de poder.

“Temos o direito de estar decidindo e construindo as coisas, além de termos uma capacidade incrível de fazer isso de uma forma absolutamente própria da mulher. Somos aquele que bicho que amamenta, que dá alimento, que sustenta, que dá o coeltivo”, destacou a gestora. “Usamos essas características do ser feminino no espaço da gestão, na forma de fazer a política, integrando e dialogando”, completou.

Luta e privilégio

Márcia entende que o processo da inserção feminina, de forma equitária, na política está em vias iniciais, e que ainda há um grande caminho pela frente. Reforçando seu entusiasmo de estar no fronte deste embate, a prefeita analisa este processo como um grande privilégio.

“Ser mulher e estar na política é desafiante, é. É uma construção que ainda tem um lastro muito grande pela frente, muito a ser feito, é. Mas é também um grande privilégio, para nós que temos essa capacidade e essa oportunidade de partilhar com o coletivo, com os comuns e invisíveis, essa nossa capacidade de olhar e agir de forma integrada, ajudando todos”, avaliou.

O desafio do “ser eu”

Não sucumbir a pressão de tomar atitudes baseada em visões masculinas do fazer político. Um dos maiores desafios ressaltados por Márcia Lucena em seu cotidiano como chefe de um Executivo municipal.

“Como mulher num espaço de poder e prefeita, me sinto desafiada todos os dias para ser eu mesma, porque a pressão para que você encare a política como um homem encara é muito grande. Então primeiro deasfio é se manter quem a gente é”, afirmou Márcia.

Ao mesmo tempo, ela também contou que é um “privilégio tremendo e uma alegria imensa notar o quanto de construção, em pouco tempo, a gente, com nossa capacidade feminina, é capaz de construir”.

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