‘Joanne’ leva Lady Gaga ao country e ao soul, mas falta sutileza

Lady Gaga é um pouco menos Lady Gaga em sua fase “Joanne”. Saem de cena os figurinos extravagantes, os vídeos superproduzidos e as batidas eletrônicas arrasa-quarteirão. Ela chega pouco montada, no som e no visual, para seu quinto álbum. Gaga está mais Stefani Germanotta – seu nome de batismo. Mas a produção mais delicada contrasta com a voz e a interpretação, ainda no estilo exagerado de antes.

As companhias também mudaram. Ela se cerca de músicos com moral na crítica. O produtor Mark Ronson (de Amy Winehouse e do hit “Uptown funk”) é o principal parceiro. Beck, Florence and the Machine, Father John Misty, Josh Homme (Queens of the Stone Age) e Kevin Parker (Tame Impala) deixam “Joanne” mais orgânico, com mais instrumentos “de verdade”.

Até o sotaque é diferente. A novaiorquina emula uma caipira em “A-Yo”, que tem guitarras country e levada soul dançante – essa mistura é a mais presente no disco. Para equilibrar, o produtor BloodPop (de Justin Bieber) dá pitadas de efeitos para que “Joanne” seja menos retrô. Felizmente, há mais boas ideias do que no repetitivo primeiro single “Perfect illusion”.

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Capa de “Joanne”

‘Nova sertaneja’
Há melodias inspiradas, que devem agradar às rádios. Vide o rock de arena à la The Killers “Diamond heart” (com a boa mão para temas grandiosos do produtor Jeff Bhasker, de Fun e Kanye West) e as baladas folk “Million reasons” (à espera de uma versão sertaneja brasileira), “Angel down” e “Joanne” – homenagem a uma falecida tia dela. Pena que nestas Gaga começa contida, como pede o arranjo, e logo perde as estribeiras rumo ao melodrama.

Quando se aventura em outros gêneros além do country-pop bem resolvido, o disco é irregular. Parece a mesma foto de Lady Gaga com fundo em cromaqui. Agora um deserto na Califórnia (“John Wayne”, com Josh Homme), agora um bar no Caribe (“Dancin in circles”, com Beck, mas sem a cara dele), agora no interior dos EUA (“Sinner’s prayer”, com bom riff de Father John Misty), agora uma arena com disfarce de Elton John (“Come to mama”).

À paisana
A parceria com Florence, “Hey girl”, teria cenário numa boate de Nova York nos anos 70. Os sintetizadores carregam demais na tinta retrô. Florence, com voz mais adequada a uma faixa assim, soa melhor. Por outro lado, a letra mundana sobre ajuda entre mulheres tem mais a ver com Gaga que a convidada. Em geral, a faixa é inferior ao potencial das duas, infelizmente.

A impressão é de que essa fase de Lady Gaga à paisana é só mais uma fantasia dela – que nem é a das mais convincentes, mesmo com vários elementos acertados. “Joanne” acaba tendo uma coisa ou outra capaz de agradar todo mundo, “little monster” ou não. Vai ter muito “hater” curtindo Lady Gaga sem querer por aí. As informações são do G1.