Irresponsável, criminosa e que gera tragédias: especialista analisa fala de Eliza sobre suicídio

As declarações da vereadora de João Pessoa, Eliza Virgínia (PP), alegando que ofereceu uma arma para um amigo com depressão que apresentava motivação suicida, são totalmente rechaçadas por especialistas da área de Psicologia. De acordo com psicólogos, afirmações irresponsáveis, baseadas no senso comum sobre a saúde mental, aliadas a momentos específicos do comportamento frágil alheio podem ter causas irreversíveis.

A psicóloga Arethusa Moreira reprova completamente a atitude de Eliza. Para a especialista, falar sobre a temática, em qualquer âmbito ou circunstância, requer responsabilidade e comprometimento, pois atitudes irresponsáveis podem gerar tragédias.

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“As alegações da parlamentar soam de um familiar desconhecimento e da confiança, sem reservas, entranhada pelo senso comum sobre o que é saúde e adoecimento mental. A depressão é uma doença séria e, assim como o comportamento suicida, vêm sendo estudados nos últimos anos, é um assunto de respaldo filiado às ciências da saúde e do comportamento humano. Falar sobre a temática requer responsabilidade e comprometimento, pois a incitação irresponsável ou debochada do ato pode, sim, gerar tragédias. Isto é um fato comprovado”, afirma Arethusa.

A psicóloga explica que a depressão e a ideação suicida muitas vezes caminham juntas. No período de crise, a depressão pode apresentar características de obsessividade ou impulsividade, e de ausência de sentido de vida, que aliada com o desespero situacional, pode culminar num plano suicida.

Um ponto de destaque levantado por Arethusa é: quando a pessoa consegue dizer, é a hora de dar ouvidos ao pedido de ajuda. “Portanto, se uma pessoa em crise, desesperada, afirma que quer se matar, não soa ‘saudável’ duvidar e incitar seu extermínio, por mais que você conheça seu amigo, não tem como saber a intensidade do seu desespero e da sua certeza de morrer. Se você não pode ajuda-lo, já que nem todo mundo tem a disponibilidade afetiva ou a competência para lidar com o suicídio, ofereça-se para encontrar ajuda profissional nunca uma arma”, disse. “Isso não é cura, ao contrário do que a parlamentar falava, é crime previsto no Código Penal Brasileiro, artigo 122”, completou, enfatizando uma possível prática criminosa.

A responsabilidade e o poder de fala de um político

Questionada se por se tratar de uma parlamentar as afirmações tinham algum tipo de amplificação junto aos que apresentam fragilidade na saúde mental, Arethusa sinalizou que isso pode sim acontecer.

“Enquanto figura pública, a sua voz e seu discurso chamam atenção pelo poder das palavras no lugar de representatividade sócio-política que ocupa. É comum na nossa sociedade reproduzirmos o discurso daqueles que nos identificamos e que temos alguma admiração, por isso, sem dúvidas, a sua declaração tem ‘peso’ tanto para os depressivos que ouvem como para quem lida ou lidará com pessoas em meio a uma crise suicida”, declarou.

Para a especialista, esse tipo de fala de Eliza Virgínia que subestima o comportamento e a tentativa suicida facilita a criação do estigma social e do discurso de constrangimento que diz que quem tenta suicídio “não quer morrer”.

“Esse tipo declaração psicofóbica pode dificultar as pessoas de buscarem ajuda espontaneamente, afastando a possibilidade de tratamento adequado e encorajando a possibilidade de acontecer tentativas cada vez mais definitivas”, ressaltou a psicóloga.

Artigo 122

O Artigo 122 do Código Penal Brasileiro versa sobre a indução ou instigação para alguém praticar suicídio. De acordo com o texto da Lei, prestar auxílio para que alguém cometa este ato é crime.

“Art. 122 – Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:
Pena – reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

Parágrafo único – A pena é duplicada:
Aumento de pena
I – se o crime é praticado por motivo egoístico;
II – se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência”.

Como agir caso alguém com depressão peça ajuda

O Ministério da Saúde preparou uma cartilha com dicas de como ajudar quem está passando por esse momento difícil, de depressão profunda ou risco de suicídio. Acesse a cartilha na íntegra.

Confira algumas delas:

  1. Ouça mais, fale menos
  2. Incentive uma consulta profissional
  3. Fique perto
  4. Previna
  5. Mantenha contato
  6. Não condene
  7. Não banalize
  8. Não opine
  9. Não dê sermão
  10. Evite frases de incentivo

O CVV

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.

Os contatos com o CVV são feitos pelos telefones 188 (24 horas e sem custo de ligação), pessoalmente (nos 110 postos de atendimento) ou pelo site www.cvv.org.br, por chat e e-mail. Nestes canais, são realizados mais de 2 milhões de atendimentos anuais, por aproximadamente 3.400 voluntários, localizados em 24 estados mais o Distrito Federal.