(Foto: Reprodução/Divulgação)

Uma ex-funcionária do centro de serviços da Samsung, supostos produtos com descontos para membros internos da gigante sul-coreana, milhares de reais em pagamentos recebidos por Pix e cartões de créditos, produtos não repassados aos compradores e nada de devoluções das cifras. Esse é o roteiro do caso que vem ficando conhecido como da “golpista paraibana da Samsung”, que gerou um prejuízo estimado em aproximadamente R$ 300 mil em mais de 50 paraibanos. O Paraíba Já investigou o caso, conversou com vítimas e a empresa, e também buscou as autoridades.

Thatiana Cristina Rodrigues Campos, ou simplesmente Thatiana Rodrigues, teria aplicado golpes até mesmo em policiais, advogados e membros da comunidade religiosa que frequentava. Ela utilizava da confiança de pessoas próximas para realizar as supostas vendas. Suas vítimas eram quase sempre de seu convívio ou círculo social, quando muito distantes eram indicações dessas pessoas. Por isso o suposto golpe vinha obtendo sucesso.

Dois grupos de vítimas já se formaram no WhatsApp, em um deles o prejuízo chega a R$ 150 mil, no mais recente já ultrapassa R$ 116 mil. Outras vítimas também formam um grupo do mesmo local de trabalho e compraram aproximadamente R$ 30 mil com Thatiana.

Diversas vítimas já procuraram a Polícia Civil e prestaram Boletim de Ocorrência, outras já estudam uma ação coletiva contra Thatiana. Algumas vítimas, ouvidas pelo Paraíba Já, também vão acionar o Ministério Público da Paraíba (MPPB).

A “golpista da Samsung” vem fazendo vítimas, pelo menos, desde junho deste ano. Mais de 20 B.O.s já foram prestados contra ela. Até a própria autorizada da Samsung em João Pessoa registrou queixa contra Thatiana.

O Paraíba Já ouviu diversas vítimas de Thatiana Rodrigues, que relataram como era a aproximação, as enrolações sobre entrega dos produtos e o que pretendem fazer contra a ex-funcionária da gigante sul-coreana. As vítimas não serão identificadas e vão receber nomes fictícios quando publicados os seus relatos.

Modus operandi

Thatiana Rodrigues era funcionária do Centro de Serviços da Samsung, popularmente conhecida como autorizada, em João Pessoa. Ela contatava pessoas próximas em encontros casuais, nas redes sociais ou via WhatsApp, oferecendo produtos da Samsung com descontos abaixo do mercado – até 50% de desconto – alegando ter benefícios por ser funcionária.

Ao abordar as vítimas, ela enviava uma planilha intitulada “Promofunc Day – Samsung Customer”, que comentava ser de uma ação interna da empresa, com produtos como:

  • Smartv 50 polegadas: R$ 1.399
  • Tablet Galaxy Tab S6 Lite: R$ 800
  • Smartphone Galaxy Z Flip: R$ 2.300
  • Ar-condicionado WindFree: R$ 900
  • Geladeira Evolution 385L: R$ 1.899
  • Smartwatch Galaxy Watch 6: R$ 1.200

Veja planilha enviada aos compradores

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Após persuadir as vítimas, geralmente pessoas próximas a ela que desfrutavam de confiança, Thatiana dizia que apenas ela poderia fazer o pedido e com isso os compradores deveriam fazer o pagamento para conta pessoal dela. Com isso, ela compraria o produto e o repassaria para o comprador. O suposto golpe começava a se concretizar neste momento.

Os pagamentos só eram aceitos por Pix ou cartão de crédito. Após a efetivação da transferência ou compra, Thatiana Rodrigues enviava uma espécie de nota fiscal com o pedido dos produtos. As vítimas relataram que o documento tinha nome da empresa, CNPJ, códigos, entre outros elementos que passavam autenticidade. No caso da compra ser via cartão de crédito, ela enviava um motoboy no endereço do comprador para ele passar o cartão na maquineta.

“Ela usou da confiança de amigos para oferecer produtos a preço baixo ‘por ser funcionária da Samsung’. A pessoa fazia o pagamento, ela mandava até comprovante de pedido, mas era tudo falso. Ela enganou amigos de anos, não só desconhecidos”, relatou Danúbia (nome fictício), comprovando a proximidade das vítimas de Thatiana.

Thatiana Rodrigues vendia produtos abaixo do preço alegando promoções internas para funcionários (Foto: Reprodução)

De acordo com a apuração do Paraíba Já, as maquinetas eram alugadas à empresa que também fornecia os motoboys. Um profissional chegou a informar para uma vítima que a empresa de aluguel também foi vítima de Thatiana, que não arcou com pagamentos para o negócio. O dono das maquinetas já foi identificado.

“Eu conheço há muito tempo, não é de hoje. Então nem imaginava que essa mulher me daria um golpe. Conheço ela desde a época da adolescência. Ela chegou me oferecendo os produtos, falando que era funcionária da Samsung e tinha descontos, por eu a conhecer comprei. Ela dizia que tinha até bônus de desconto se a compra atingisse tal valor, para tentar tirar mais dinheiro da gente, cheguei a fazer um pagamento a mais para ganhar esse bônus. Fiz o pagamento via Pix para ela, mais de R$ 5 mil, comprei TVs, tablets. E até hoje não recebi nada, nenhum dinheiro de volta”, disse Sônia (nome fictício) à reportagem.

Em alguns casos, Thatiana chegava a entregar produtos de menor valor para gerar confiança na articulação com possíveis traços estelionatários que realizava. “Era um jeito dela passar confiança, de confirmar que fazia mesmo as compras e estava ajudando a gente. Porque geralmente era pessoas do mesmo círculo, ela vendia para um amigo, e ele indicava pra gente, e também era todos conhecidos uns dos outros”, destacou Ana (nome fictício), uma das vítimas.

O caso viralizou no X, antigo Twitter, a partir da terça-feira (28). Algumas vítimas relataram suas supostas compras com Thatiana na rede social. Foi então que intitulou-se o episódio de “Golpista paraibana da Samsung”, e partir disso outras vítimas passaram a surgir, entrando em grupos de WhatsApp e buscando ações de forma coletiva.

Ouça áudios enviados aos compradores

Thatiana usava a tática de mostrar “exclusividade” para o comprador, citando proximidade e confiança com a vítima, e para pressionar pela compra rápida, citava prazos curtos da suposta promoção interna.

As condições de pagamento, sendo possível também via cartão de crédito, também eram ressaltadas pela ex-funcionária.

Aniversário e tentativas de golpes na própria família

Uma fonte que tem relação com familiares de Thatiana Rodrigues revelou ao Paraíba Já que ela tentou aplicar golpes até mesmo na própria família.

Além disso, recentemente ela deu uma festa de aniversário com várias bandas, o que demonstraria poder aquisitivo.

“Ela é bem próxima a mim. Inclusive fez um aniversário recente com várias bandas. Liguei para a família dela e eles confirmaram, falaram que ela também tentou aplicar golpe na família . Estão todos perplexos e não vão passar a mão na cabeça dela. Ela está sumida, desativou as mídias, e nem a família tem contato com ela”, disse Antônio (nome fictício).

Conforme outra vítima, em contato com a reportagem do Paraíba Já, Thatiana “deu golpe nos amigos de infância, pessoas que ajudaram ela nos momentos ruins, pessoas de berço mesmo”.

Uma fonte informou ao Paraíba Já que Thatiana Rodrigues estaria tentando um empréstimo junto a familiares no valor de R$ 40 mil.

Ações malsucedidas

Alguns possíveis golpes foram malsucedidos, seja por negócios não concretizados ou porque Thatiana Rodrigues se viu obrigada e sem saída para fazer a devolução dos pagamentos.

“Um colega de trabalho virou uma espécie de sócio dela em outro serviço, e ela ofereceu os produtos para ele, que veio e nos informou da promoção. Por sermos policiais não achávamos que seríamos vítimas, e por ele conhecer Thatiana. Somos mais de dez que compraram aqui com ela, pedimos celulares, geladeiras, TVs, ela não entregou nada. A gente comprou, ela ficou enrolando, inventava mil desculpas, chegou até a falar que não sabia fazer depósito no caixa eletrônico. Fiquei pouco mais de um mês falando com ela, cobrando a devolução do meu dinheiro. Depois desse tempo ela me devolveu, de forma fracionada ainda. Todos daqui receberam de volta o dinheiro, acho que ela ficou com medo por sermos policiais”, afirmou Mariana (nome fictício).

Vítimas registraram ocorrências junto aos seus bancos alegando o golpe. Algumas conseguiram ressarcimentos ínfimos perto das quantias que enviaram para as “compras” junto a Thatiana. A ex-funcionária da Samsung não deixou dinheiro na conta, os bloqueios retiraram menos de R$ 100 da conta dela.

Autorizada e Samsung também seriam vítimas

Um grupo de vítimas foi até a loja autorizada da Samsung na capital. Thatiana Rodrigues teria fraudado documentos e comprovantes bancários em nome da empresa, cometendo um possível crime até mesmo contra a marca sul-coreana e a autorizada. Ela possivelmente utilizaria até mesmo o horário de expediente e aparelhos da loja para criar os documentos falsos e conversar com as vítimas.

De acordo com as vítimas, a gerente da empresa informou ao grupo que Thatiana estava gerando notas fraudadas da autorizada da Samsung, e que a ordem de pedido era muito parecida com as ordens da empresa, mas não eram nada oficiais.

“Ela era conhecida minha da faculdade, cursava Direito mas nem chegou a terminar, era uma aluna complicada. Ela me seguia no Instagram, interagia comigo vez ou outra, nunca desconfiei de nada de errado dela. Adquiri com ela mais de R$ 2 mil em produtos. Quando você comprava, ela gerava ordem de pedido com os produtos, tinha CNPJ, dados da empresa e tudo, e era no nome dela. Ela dava o prazo da chegada dos produtos, e dizia que você podia retirar na Magalu ou Casas Bahia. Começou a demorar muito a entrega dos produtos e fiquei em cima, pressionando. Ela dava muitas desculpas, falava de doenças, problemas logísticos. E de tanto eu pressionar, ela mandou um produto de menor valor para minha casa, mas nada do outro. Thatiana falou que a namorada dela ia entregar meu produto, mas não aconteceu, porque quando falei com a namorada dela, ela nem sabia dessa entrega. Quando questionei ela depois, me disse que alguém na empresa denunciou ela e não tinha mais como efetuar as compras, e ficou de me fazer o estorno. Depois disso ela sumiu”, relatou Murilo (nome fictício) ao Paraíba Já.

Foram identificadas diversos pedidos de compras no CPF de Thatiana Rodrigues na Magazine Luiza, através da loja virtual. 

O que diz a autorizada da Samsung

O jurídico da empresa que representa a autorizada da marca sul-coreana, a System Autorizada Samsung confirmou ao Paraíba Já que foi aberto uma queixa contra Thatiana Rodrigues, bem como todas as medidas cabíveis já foram tomadas contra a ex-funcionária.

Thatiana foi demitida da empresa após a confirmação dos episódios envolvendo possíveis vendas falsas de produtos. Ela usava a marca da gigante sul-coreana e da autorizada de forma ilegal.

“O que estamos fazendo internamente, até por sigilo, não posso repassar. Tomamos conhecimento de vazamento de dados e começamos uma investigação administrativa interna. A partir disso chegamos a informação de que ela talvez comercializasse produtos, chegamos numa pessoa que confirmou, nos enviou documentos e descobrimos de forma efetiva que ela estaria usando a logomarca da empresa de forma indevida, tanto da autorizada quanto da própria Samsung. Isso então desencadeou uma série de situações e procedimentos, ela foi efetivamente desligada, pois não corroboramos com essa atitude, somos uma empresa séria. Foi aberto Boletim de Ocorrência, vai começar uma investigação policial. Todas as medidas legais cabíveis foram tomadas”, disse a advogada Alexandra Vilela ao Paraíba Já.

A defesa da autorizada deixou ainda o alerta para produtos comercializados muito abaixo do preço de mercado. “Ela [Thatiana] estava comercializando produtos que não eram apenas da Samsung, tem produtos que nunca vendemos enquanto autorizada da Samsung. Inclusive, estavam sendo comercializados muito abaixo do preço de mercado. Por exemplo, se você compra um celular de R$ 3 mil por R$ 1,5 mil, é preciso desconfiar. Quando o produto entra em promoção ou na Black Friday, a Samsung anuncia. O consumidor assumiu um risco, poderia ter ligado para empresa para confirmar”, afirmou a advogada.

Confira nota da autorizada Samsung na íntegra

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O que diz Thatiana Rodrigues

Nesta quinta-feira (30), após o caso ganhar repercussão e viralizar nas redes sociais, Thatiana Rodrigues compareceu à Central de Polícia, no bairro Geisel, acompanhada de um advogado. Ela negou que o golpe chegue a cifras de R$ 300 mil e pediu desculpas às vítimas. O Paraíba Já havia tentando contato com ela, mas não obteve retorno.

“Não chega nem a um terço desse valor [R$ 300 mil]. Eu e meu advogado estamos levantando esses valores, logo logo vamos está se pronunciando sobre isso também”, declarou Thatiana, em entrevista ao repórter Gustavo Chaves.

Thatiana Rodrigues reforçou que não está foragida e irá ressarcir as vítimas do golpe. “Não estou foragida, como muitas pessoas acham que peguei o dinheiro, foragi, que estou em outra cidade ou país”, destacou.

“A gente vai estar recebendo e fazer um meio para que todos recebam [as devoluções do dinheiro]. Não estou aqui para ficar com dinheiro de ninguém. Já fui desligada, não tenho nenhum vínculo com a Samsung”, completou.

Polícia no caso

A reportagem do Paraíba Já tentou contato com a Delegacia de Defraudações e uma das delegacias distritais onde vítimas registraram ocorrência, e até o momento da publicação desta reportagem não houve retorno. Assim que a resposta for enviada atualizaremos.