Dirigentes, árbitras, goleadoras: conheça as mulheres do futebol paraibano

É um assunto debatido ao longo de todos os anos, mas com a necessidade de não haver limites — e muito menos silêncio — sobre o preconceito e sobre a desinformação que cercam esta problemática: o papel da mulher é fundamental em qualquer âmbito social. E, no esporte, não é diferente. No futebol, então, esporte que tem esmagadora maioria masculina, o protagonismo feminino tem se tornado mais visível, ainda que mais lentamente do que elas merecem. Na Paraíba, por exemplo, a Federação Paraibana de Futebol (FPF) é presidida por uma mulher, assim como dois clubes profissionais. Treinadoras, jogadoras e árbitras seguem perseverando pela categoria e ganharam bons destaques nos últimos anos. Mas até quando essas ocupações devem ser vistas como exceções?

Futebol paraibano segue precisando direcionar melhores horizontes à categoria feminina — Foto: Clicksportive

Futebol paraibano segue precisando direcionar melhores horizontes à categoria feminina — Foto: Clicksportive

O Dia Internacional da Mulher é “comemorado” em todo o mundo nesta segunda-feira, em data oficializada no ano de 1970. Não é um dia para oferecer-lhes flores. É dia de reflexão em busca da construção de uma realidade que dissipe de vez a intolerância e a indiferença contra a mulher. A data simboliza as lutas históricas que elas travaram em busca de igualdade por seus direitos. Nos dias atuais, o combate à violência doméstica e o debate sobre a discrepância de gênero muitas vezes vistas nas relações profissionais, refletida na desigualdade salarial, são problemáticas importantes a serem abordadas.

No futebol brasileiro, em específico, uma risca de mudança começou a se desenhar em setembro de 2020, quando a CBF, através do presidente Rogério Caboclo, anunciou a igualdade de pagamento de diárias para as seleções masculina e feminina. Essa medida se estende, inclusive, para as premiações das equipes nos Jogos Olímpicos. Foi um primeiro passo, é verdade. Mas muitos outros impulsos como esse precisam ser estudados e — com urgência — postos em prática.

Elas no comando. Mas nem tanto…

A Paraíba é o único estado do Brasil que tem uma mulher no comando do futebol. Michelle Ramalho preside a Federação Paraibana de Futebol desde 2018 e está no controle do que acontece e do que deixa de acontecer em solo paraibano quando o assunto é o esporte mais popular do Brasil. E a força da mulher na administração do futebol da Paraíba não se limita a esse exemplo. Porque, além de Michelle como mandatária da FPF, há dois clubes profissionais do estado que também são presididos por mulheres. Mas, infelizmente, até nesses casos, quando elas deveriam ser as protagonistas, o machismo imperante no futebol ofusca a atuação feminina.

Michelle Ramalho é a presidente da FFP e mulher mais atuante no futebol da Paraíba — Foto: Divulgação / FPF-PB

Michelle Ramalho é a presidente da FFP e mulher mais atuante no futebol da Paraíba — Foto: Divulgação / FPF-PB

Khésia Suille é presidente do Sport Lagoa Seca e Raíza de Araújo Alves preside o CSP. Os nomes das duas, no entanto, não são familiares no meio futebolístico. Parece até estranho associá-las ao principal cargo de um clube de futebol. É porque elas raramente aparecem no exercício de suas funções no futebol.

Durante toda a disputa do último Campeonato Paraibano, por exemplo, Khésia raramente foi vista dando entrevista ou aparecendo nos estádios, acompanhando a delegação do Sport-PB. Essa tarefa era sempre cumprida por Arthur Ferreira, que hoje é dirigente do São Paulo Crystal; era sempre ele que respondia por contratações, dispensas ou qualquer outra tratativa que se referisse ao Lobo da Serra.

Já no CSP, embora Raíza seja a presidente oficialmente, quem sempre está em evidência é outra figura masculina: Josivaldo Alves. Ele, inclusive, é uma espécie de “faz tudo” no Tigre. Isso porque ele comanda as categorias de base, o time profissional e é presidente do Conselho Deliberativo. Raíza, que tem apenas 23 anos, raramente é notada publicamente respondendo pelas demandas do clube. A reportagem do ge Paraíba buscou contato com ela e conseguiu extrair um pouco de sua percepção sobre o espaço que ocupa.

— Acredito que a principal importância é quebrar esse tabu de que mulher não pode isso ou aquilo, principalmente no futebol, um meio ainda tão machista, onde as pessoas acham que a mulher não tem competência para exercer uma profissão como a minha, de liderança, de ser presidenta de um clube de futebol ou até mesmo de ser jogadora. Infelizmente, ainda hoje, não é tão comum termos mulheres em posição de destaque em um clube de futebol. Porém, eu particularmente procuro quebrar esse tabu, de que futebol é um espaço só para homens — disse Raíza.

Raíza de Araújo Alves, presidente do CSP — Foto: Arquivo Pessoal / Raíza Alves

Raíza de Araújo Alves, presidente do CSP — Foto: Arquivo Pessoal / Raíza Alves

Já Michelle Ramalho, gestora da entidade máxima da modalidade na Paraíba, é a segunda mulher na cadeira presidencial da FPF. Antes dela, Rosilene Gomes esteve com o controle do futebol do estado por 25 anos. Para a atual mandatária, a sua ocupação é motivo de satisfação e pode servir de inspiração para mulheres que queiram fazer do futebol o seu campo de atuação profissional.

— Trabalhar na gestão da FPF é uma satisfação não só profissional, mas também pessoal. Me encanta os desafios de estar à frente de entidade com tanta visibilidade como é a do futebol da Paraíba. Só em saber que sou a única a estar à frente de uma federação de futebol me deixa muito honrada e aumenta a minha responsabilidade de ser espelho e motivar outras mulheres a seguirem o caminho do futebol, que nada mais é do que um segmento para todos — afirmou.

Sem impedimentos

Adriana Basílio dedicou 18 anos de sua vida ao trabalho como assistente de arbitragem. Dos anos de 2001 até 2019, a auxiliar representou a Paraíba aos quatro cantos do Brasil. Foi ela a primeira mulher paraibana a receber a insígnia de arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De lá até aqui, ela representou o quadro de árbitros do estado nas séries C e D do Brasileiro, na Copa do Brasil, na Copa do Nordeste e em todas as séries do Brasileiro Feminino.

Aposentada dos gramados há dois anos, Adriana não consegue se desprender da paixão de cooperar pela melhoria da qualidade dos árbitros da Paraíba. Com isso, a ex-assistente se tornou o primeiro nome feminino analista de arbitragem, atuando nas mais diversas competições.

— Futebol e arbitragem, para mim, são a minha vida. Quando coloquei a ideia de deixar os campos, eu tive que trabalhar (internamente) por alguns anos. E foi muito doloroso. O árbitro tem no sangue a arbitragem. É um amor incondicional — disse.

Adriana Basílio nos tempos em que atuava como árbitra assistente — Foto: Arquivo Pessoal / Adriana Basílio

Adriana Basílio nos tempos em que atuava como árbitra assistente — Foto: Arquivo Pessoal / Adriana Basílio

A relação de árbitros e assistentes confirmados para a temporada 2021 do futebol paraibano apresenta apenas duas mulheres aptas a atuarem dentro de campo ou à beira do gramado: Ruthyanna Camila, como árbitra, e Flávia Rennaly, como assistente. Os demais 44 nomes do quadro, como esperado, são de homens.

Adriana relatou que sempre esteve exposta às piadas machistas e à subestimação de ser mulher atuante em um dos esportes que mais inspira intolerância de gênero. No entanto, a segurança em sua competência e a vontade de deixar a sua significativa colaboração dentro dos gramados foram imponentes frente a toda e qualquer limitação que tentassem colocar em sua trajetória profissional.

— A mulher é muitas vezes percebida pelo ponto estético e não pelo lado profissional. Com o passar dos anos, tudo foi evoluindo. Todos se acostumando. Por si só, passaram a nos respeitar. O preconceito existe, mas o que define o bom árbitro não é o gênero, e sim a boa atuação, a competência — afirmou.

Hoje, com 43 anos, Adriana Basílio é frequentemente escalada para atuar como analista de arbitragem em jogos do Campeonato Paraibano, da Copa do Nordeste e das séries C e D do Brasileiro.

Adriana atua agora dentro de uma sala, solitária, como analista de arbitragem — Foto: Arquivo Pessoal / Adriana Basílio

Adriana atua agora dentro de uma sala, solitária, como analista de arbitragem — Foto: Arquivo Pessoal / Adriana Basílio

Competência à beira e dentro de campo

À beira do gramado ou com a bola rolando, o futebol paraibano feminino tem dado visibilidade a nomes que começam a despontar no cenário nacional, num forte indício de que todo trabalho bem feito resulta em talentos promissores. A treinadora Gleide Costa, por exemplo, é um dos nomes que mais perseveram pela categoria na Paraíba e foi responsável na contribuição técnica de muitos nomes, a exemplo das artilheiras Lu Meireles e Letícia, campeãs paraibanas sob sua batuta pelo Botafogo-PB e que estão em busca de voos maiores em outros clubes pelo Brasil.

Outro destaque interessante dos gramados da Paraíba é Joyce Andrade, que, logo aos 15 anos, se transferiu para o futebol paulista e já acumula passagens pela seleção brasileira de base. Vamos conhecer um pouco sobre cada uma delas?

  • GLEIDE COSTA: TÉCNICA E EX-JOGADORA

Desde 1995 de forma ferrenha nos campos de João Pessoa, Gleide Costa hoje é treinadora do Botafogo-PB. Mas, antes, ela deu muito trabalho às suas adversárias com a bola no pé. Jogadora até o ano de 2008, ela foi bicampeã calçando chuteiras, atuando como meio-campista, e, depois, como treinadora, ficou com o título estadual nos anos de 2011, 2012, 2015, 2016, 2017, 2018 e 2020. Histórias para contar não faltam.

Gleide Costa é a treinadora do time feminino do Botafogo-PB — Foto: Paulo Cavalcanti / Botafogo-PB

Gleide Costa é a treinadora do time feminino do Botafogo-PB — Foto: Paulo Cavalcanti / Botafogo-PB

Só que, muito além da alegria das conquistas, os momentos de luta para fazer acontecer o futebol para as mulheres na Paraíba persistem até os dias atuais. Com 44 anos, a comandante do Belo enxerga melhorias da categoria no país, se for comparar com o tempo em que jogava, mas bate o martelo de que ainda há muitas diferenças para serem postas em igualdade.

— É impossível negar a ascensão da mulher no futebol brasileiro. Desde a gestão até a assessoria de imprensa, a arbitragem, aos corpos técnicos. Mas eu creio que ainda há muito o que se fazer. É uma discrepância de gênero que a gente precisa equilibrar — avaliou.

Consciente de que a luta por melhorias precisa ser incansável, Gleide visita a realidade que foi o seu passado e pede reconhecimento, profissionalização e oportunidades às atletas que querem investir no sonho de serem jogadoras profissionais e buscar estabilidade de vida através do esporte. Por isso, ela pede que todas estejam firmes em busca dos seus direitos. E que lutem.

— A gente encara o futebol feminino, na Paraíba, como uma missão. Nós fomos atletas e sentimos na pele. Foi toda uma luta para, naquela época, pelo menos praticar futebol. Hoje, a luta é para que essas atletas sejam reconhecidas. Nós vamos lutar pela profissionalização do futebol feminino, pela abertura de espaços, por essas atletas do nosso estado que vislumbram, no futebol, um futuro melhor. Direito não se deve negar. Direito se deve lutar — finalizou.

Botafogo-PB comemora título paraibano conquistado sob o comando de Gleide Costa — Foto: Paulo Cavalcanti / Botafogo-PB

Botafogo-PB comemora título paraibano conquistado sob o comando de Gleide Costa — Foto: Paulo Cavalcanti / Botafogo-PB

  • JOYCE: LATERAL-ESQUERDA

Joyce começou a mostrar o seu talento com a bola nos pés vestindo as cores do Mixto-PB. Mas nem deu tempo de ganhar muitos destaques. Não por conta da escassez de oportunidades que o futebol paraibano oferece às mulheres. É que ela, aos 15 anos, acertou a sua transferência para jogar pela base do Corinthians após ser descoberta em uma seletiva da Federação Paulista de Futebol, em julho de 2019. Por lá, ela ficou pouco tempo, mas o suficiente para ser convocada pela seleção brasileira sub-17.

Foi aí que o olho do São Paulo cresceu. Isso porque que ela já havia recebido proposta também do Tricolor paulista. E aí foi para valer. Como o contrato com o Corinthians chegou ao fim em janeiro de 2020, a jogadora seguiu para o São Paulo e continua representando muito bem a Paraíba nos gramados pelo Brasil.

Joyce em treinamento com a seleção brasileira sub-17 — Foto: Divulgação/CBF

Joyce em treinamento com a seleção brasileira sub-17 — Foto: Divulgação/CBF

  • LETÍCIA: ATACANTE

Campeã paraibana nas duas últimas temporadas (pelo Auto Esporte e pelo Botafogo-PB, respectivamente), Letícia só não fez chover nos gramados da Paraíba. Com apenas 15 anos, ela saiu de Juazeiro do Norte, na Bahia, e resolveu encarar a estrada do futebol com o seu talento nato na bagagem. E tem dado certo. Depois de passar por times pessoenses, ela se transferiu para o Fortaleza.

E gol não tem faltado para ela, no Leão do Pici. Só que as redes balançando constantemente nem sempre são garantia de futuro, igualdade e visibilidade. Letícia fala em tom alarmante sobre a valorização do futebol feminino não só em gramados paraibanos, mas em toda a região Nordeste. Em sua opinião, a diferença não é só de gênero. Equipes femininas do Sudeste levam consigo vantagens estruturais que podem fazer toda diferença.

Letícia comemora gol vestindo a camisa do Fortaleza, onde está atuando — Foto: Adriano Fontes / CBF

Letícia comemora gol vestindo a camisa do Fortaleza, onde está atuando — Foto: Adriano Fontes / CBF

— O futebol feminino da Paraíba e do Nordeste, na maioria das vezes, é desvalorizado pela mídia nacional, de forma que não mostra jogos locais ou faltam notícias nos jornais. Também tem uma diferença na estrutura em relação ao futebol do eixo. Alguns times jogam em arenas ou em campos melhores — analisou.

E completou com uma mensagem de incentivo:

— Desde criança que eu tenho o sonho de ser uma jogadora de futebol. Que isso possa inspirar outras meninas a também sonharem com isso. Eu hoje, mais que nunca, luto todos os dias e acredito que, mesmo com as adversidades no futebol feminino, irei continuar lutando e buscando sempre fazer o melhor — declarou

Imparável dentro da área, Letícia marcou 40 gols nas últimas duas temporadas vestindo a camisa de times paraibanos, faturou dois títulos estaduais e traçou um futuro que tem tudo para ser brilhante dentro de campo.

Na Paraíba, Letícia vestiu a camisa do Auto Esporte e do Botafogo-PB — Foto: Montagem: Cisco Nobre / ge

Na Paraíba, Letícia vestiu a camisa do Auto Esporte e do Botafogo-PB — Foto: Montagem: Cisco Nobre / ge

  • LU MEIRELES: ATACANTE

Até maio de 2019, Lu Meireles era o principal nome do futebol paraibano feminino. Foi aí que ela ganhou a oportunidade de vestir a camisa do Flamengo e representar um dos maiores clubes do futebol brasileiro.

Cinco vezes campeã estadual, sendo quatro pelo Botafogo-PB, a jogadora foi artilheira de três edições do estadual da Paraíba e construiu bem a sua fama de goleadora, chegando a ser convocada para a seleção brasileira principal, no ano de 2017, pela então técnica Emily Lima.

— No Dia Internacional da Mulher, trabalhando profissionalmente em uma profissão predominantemente de homens, eu quero dizer às mulheres que acreditem na força que vocês têm. Nós podemos conseguir o que a gente quiser — disse.

Lu Meireles em campo pelo Flamengo, clube que defende desde 2019 — Foto: Marcelo Cortes / Flamengo

Lu Meireles em campo pelo Flamengo, clube que defende desde 2019 — Foto: Marcelo Cortes / Flamengo

Há duas temporadas no Flamengo, Lu Meireles é mais um dos muitos exemplos de quem precisou sair do seu estado para buscar reconhecimento. Em uma realidade de estádios vazios, com pouco público e com ainda menor engajamento, o futebol feminino da Paraíba precisa ser repensado e visto também como prioridade. Caso isso não aconteça, a luta das jogadoras e de todos os envolvidos vai ficar pela margem, carecendo da atenção especial que até o ano de 2021 ainda não chegou.

Do Globo Esporte.