Coronavírus: infectologista diz que cloroquina não tem eficácia comprovada e condena ‘compra irresponsável’

A cloroquina e a hidroxicloroquina se tornaram alguns dos assuntos mais comentados com relação ao tratamento contra coronavírus nos últimos dias. Isso porque, aliado a azitromicina, teria trazido resultados satisfatórios da redução dos efeitos do coronavírus, e até protegidos células em alguns estudos em laboratório. Autoridades e alguns poucos estudos levaram a população a entender – de forma totalmente equivocada e errônea – que a combinação dos compostos trataria e preveniria o contágio por Covid-19. Com isso, as farmácias tiveram seus estoques esvaziados por quem não está infectado e sequer precisa do remédio, levando ao completo desabastecimento para pacientes com lúpus, malária e artrite reumatoide.

O auge de buscas pelo composto – até então desconhecido por grande parte da população – teve início após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que o medicamento é eficaz para tratar a Covid-19, doença causada pelo coronavírus. Um estudo recente realizado em laboratório com células in-vitro sugere que o medicamento consegue impedir o coronavírus de invadir as células, o que poderia ajudar a prevenir ou limitar a infecção.

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Resultados da combinação dos compostos no tratamento contra coronavírus é prematuro (Foto: Reprodução/O Norte)

O infectologista Fernando Chagas, que atua no Hospital Clementino Fraga, rechaçou a eficácia do tratamento com os compostos combinados e ressaltou que trata-se de estudos iniciais sem resultados comprovados. Para o especialista, a conclusão dos estudos ainda é remota, o que não leva à criação de protocolos e utilização como tratamento contra o novo coronavírus.

“Na verdade só foram dois estudos feitos, com testes em pacientes com resultado positivo, coletaram material da boca e da garganta, viam a presença do vírus, usaram as medicações e depois de um certo tempo foi testado, e no período que deveria estar positivo já tinha negativado. Com isso, associou essa negativação a prescrição dos medicamentos. O problema é que é um estudo muito pequeno. Na associação de azitromicina com cloroquina teve êxito com seis pacientes, porque foram testados só neles. A conclusão ainda é muito remota”, afirmou Chagas ao Paraíba Já.

A informação replicada por autoridades e meios de comunicação sobre os resultados dos estudos levaram ao consumo desenfreado do cloroquina e hidroxicloroquina, ato condenado pelo infectologista. Ele também alerta para a antecipação e certo equívoco da própria comunidade médica. “Na ânsia da gente se livrar desse problema, na loucura que a gente está de passar por esse momento difícil, estamos lançando estudos que nem tem conclusão ainda, e acaba acontecendo isso. Sei que é a vontade da gente resolver, mas acaba tendo essa consequência. As pessoas veem um estudo pequeno, ainda não concluído, sonham em se livrar do problema e partem para consumir desenfreadamente uma medicação que é extremamente tóxica”, disse Chagas.

‘Não faz sentido consumir a medicação de quem precisa’

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População lotou farmácias e comprou de forma irresponsável medicações que são de uso controlado para outros pacientes (Foto: Reprodução/Gazeta do Povo)

A situação de desabastecimento – potencializada pela compra irresponsável da população – enfrentada pelos lúpicos se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter na noite de quinta-feira (19). A hidroxicloroquina se tornou item raro nas farmácias ao redor do Brasil, e também na Paraíba.

Uma farmacêutica, que atua em uma farmácia em João Pessoa e preferiu não se identificar, apontou justamente a quinta-feira como o ápice da procura pelo composto. Inicialmente ela relata que não entendeu, mas ao ler as notícias compreendeu a alta procura. Como é vendido sem receita, não teria como restringir a compra. Porém, esse cenário mudou. A compra sem regulação foi barrada pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nesta sexta-feira (20).

O especialista Fernando Chagas repudia esse tipo de compra desnecessária por parte da população que não seja paciente que necessita do composto. Para ele, não tem sentido comprar ou estocar uma medicação que não serve para você e tirá-la de quem precisa.

“Estou recebendo muitas mensagens das pessoas, desesperadas, porque não estão achando os seus remédios, eles podem sofrer muito. Os paciente com lúpus podem evoluir com doenças renais, dores, e muito mais, é terrível a situação. Para refletir: se essa medicação causasse realmente uma proteção, quem tem lúpus não pegaria covid, já que toma o remédio a vida toda. Não faz sentido consumir a medicação de quem precisa, por achar que vai se prevenir. Ainda tem gente estocando, achando que pode precisar; essa atitude só prejudica o coletivo”, declarou Chagas.

Ministério da Saúde regula distribuição

A Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enquadrou a hidroxicloroquina e a cloroquina como medicamentos de controle especial. A medida é para evitar que pessoas que não precisam desses medicamentos provoquem um desabastecimento no mercado. A falta dos produtos pode deixar os pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide sem os tratamentos adequados. Confira comunicado da Anvisa.

Medicamento
Ministério da Saúde anunciou que medicamentos serão controlados após alta procura (Foto: Getty Images)

A Agência recebeu relatos de que a procura pela hidroxicloroquina aumentou depois que algumas pesquisas indicaram que este produto pode ajudar no tratamento da Covid-19. Apesar de alguns resultados promissores, não há nenhuma conclusão sobre o benefício do medicamento no tratamento do novo coronavirus.

Ou seja, não há recomendação da Anvisa, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus.

Laboratório aumenta produção

A Apsen Farmacêutica, responsável pela produção de hidroxicloroquina, anunciou nesta sexta-feira (20) que irá aumentar a produção das medicações a base do composto para manter o tratamento dos pacientes crônicos.

“É fato que aumentou a procura pelo medicamento nas farmácias por conta das notícias de seus possíveis benefícios contra o coronavírus, por isso implementamos um plano emergencial visando o aumento da produção do medicamento que será, neste primeiro momento, triplicada para cobrir as necessidades dos pacientes crônicos que já utilizam a medicação, reforçando que a compra deve ser feita sempre com prescrição médica”, diz trecho da nota da Apsen. Confira na íntegra:

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Em um momento tão delicado, em que o mundo vive uma pandemia e grande comoção, a Apsen, fabricante do medicamento com a molécula hidroxicloroquina, que recentemente foi apontada por alguns estudos internacionais, como sendo eficaz no tratamento da COVID-19, vem a público para informar, de forma bem transparente, sobre as medidas que estão sendo tomadas para preservar a continuidade do tratamento dos pacientes que fazem o uso crônico. É fato que aumentou a procura pelo medicamento nas farmácias por conta das notícias de seus possíveis benefícios contra o coronavírus, por isso implementamos um plano emergencial visando o aumento da produção do medicamento que será, neste primeiro momento, triplicada para cobrir as necessidades dos pacientes crônicos que já utilizam a medicação, reforçando que a compra deve ser feita sempre com prescrição médica. Além do aumento na produção do medicamento, a Apsen está em contato frequente com as autoridades de saúde do país para garantir as necessidades de todos os envolvidos neste momento. Reconhecida no mercado por oferecer tratamento de ponta e colocar o paciente como centro de toda a sua atenção e preocupada com a saúde de todos os brasileiros, a Apsen também já se prontificou a disponibilizar e doar uma parte do estoque do medicamento para o Ministério da Saúde (ou ANVISA) para que as autoridades capacitadas possam utilizá-lo de forma adequada no tratamento dos casos da COVID-19 no país.

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O que é a hidroxicloroquina?

A hidroxicloroquina é um derivado menos tóxico da cloroquina. Ambos são medicamentos baratos e amplamente disponíveis, usados no tratamento de doenças como malária, lúpus e artrite reumatoide. É tomado por via oral.

Como prevenir o coronavírus?

Podemos tomar alguns cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o coronavírus. Entre as medidas estão:

A Secretaria de Saúde do Estado (SES) lançou uma página especial em seu site para informar sobre o coronavírus. Boletins, formas de prevenção, contatos e outros itens podem ser conferidos no site. Acesse a página especial sobre Coronavírus.

Quais os serviços de referência para Covid-19 na Paraíba?

A Paraíba estruturou sua rede de serviços hospitalares para identificar, orientar e cuidar qualquer pessoa que possa ter tido contato com o Coronavírus. No entanto, os hospitais de doenças infecto contagiosas Complexo Hospitalar Clementino Fraga e Hospital Universitário Lauro Wanderley, ambos em João Pessoa, e o Hospital Pedro I em Campina Grande, tiveram suas estruturas adaptadas para receber estes pacientes.

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