Concerto na Paraíba celebrará obra de Geraldo Vandré

São Paulo – Um concerto sinfônico marcado para 23 de março, em João Pessoa, celebrará a obra do cantor e compositor Geraldo Vandré, que nasceu na capital paraibana em 1935, e onde viveu até os 17 anos. Nos últimos dias, ele esteve lá para, entre outras atividades, discutir detalhes da apresentação. O local ainda não está definido.

No último dia 9, o normalmente arredio Vandré participou do programa Palco 105, da Rádio Tabajara, ao lado do secretário estadual da Cultura, Lau Siqueira, um dos organizadores do concerto, que vem sendo discutido há mais de dois anos. Em 2015, o autor voltou à Paraíba, depois de duas décadas, participou de um tradicional festival de cinema (Fest-Aruanda), recebeu homenagens e foi recebido pelo governador, Ricardo Coutinho (PSB), que fez a proposta do concerto. “Vocês vão ficar impressionados com a capacidade que Geraldo Vandré teve de transitar da música popular para a música erudita”, disse Lau.

Além disso, durante o programa o secretário da Cultura anunciou a reedição de um livro de poemas publicado por Vandré no Chile, em 1973, pouco antes de retornar ao Brasil: Cantos Intermediários de Benvirá. “A obra de Geraldo Vandré é toda baseada na palavra, na poesia.”

Segundo Vandré, o concerto terá apresentação da Orquestra Sinfônica da Paraíba. “Nesse caso, são peças compostas especialmente para orquestra”, adiantou. A pianista Beatriz Malnic, que mora nos Estados Unidos, deverá participar. Em dezembro de 1987, com o nome de Ismaela, ela tocou peças de Vandré para piano, em recital na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo. “Nós estivemos com a pianista. As peças são belíssimas”, diz Lau. Sobre o local, ele brincou: “Pelo jeito que está aqui, tem de ser no Almeidão”. Trata-se do estádio José Américo de Almeida Filho, hoje com capacidade máxima para 25 mil pessoas, mas que já chegou a receber 40 mil.

Vandré permaneceu pouco mais de meia hora no programa, que teve apresentação de bandas contemporâneas (Flotilha em Alta-terra, banda-fôrra e Flor de Pedra). O apresentador do programa, Val Donato, pergunta se ele acompanha a música brasileira atual: “Eu ouço”, responde, rindo. “Acho que está muito aplastada (algo como fatigada), né? Há 50 anos, nós tínhamos os festivais de música popular. Hoje nós temos o quê? Rock in Rio. Então, por aí dá pra ter uma medida do que a realidade veio a ser.” Mas ele elogiou a realização de um festival de música paraibana, organizado pela emissora: “É sempre muito importante esse tipo de promoção. Quanto mais fizer, melhor”.

Festivais

Lau lembra que Vandré é “fruto dos festivais”. O cantor e compositor venceu os das TVs Excelsior e Record, ambos em 1966, respectivamente com Porta-Estandarte e Disparada (parceria com Theo de Barros), neste segundo caso empatada com A Banda, de Chico Buarque. A música foi cantada durante o programa radiofônico em João Pessoa, transmitido ao vivo. Há uma versão mais longa de Disparada no livro publicado no Chile – segundo Vandré, escrita depois da canção.

No episódio mais conhecido, em setembro de 1968, ele concorreu no Festival Internacional da Canção (FIC), da Globo, com Pra não Dizer que não Falei de Flores (Caminhando). Perdeu na final da fase nacional para Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque), o que rendeu célebre vaia no Maracanãzinho lotado. No início de 1969, deixou o Brasil, vivendo a maior parte do tempo na França e no Chile.

Lau lembra de participação dele em outro festival, no Peru, em 1972. Com Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve, venceu o festival de Água Dulce. Parceria com Manduka, filho do poeta Thiago de Mello, a música foi interpretada pela venezuelana Soledad Bravo. “(Fui) a convite do poeta César Calvo. Era no tempo do general Velasco Alvarado. Foi uma experiência muito enriquecedora”, lembra Vandré.

Como artista profissional, Vandré – nascido Geraldo Pedrosa de Araújo Dias – apresentou-se no Brasil pela última vez em Anápolis (GO), em 13 de dezembro de 1968, justamente o dia do AI-5. No dia seguinte, ele e o conjunto Quarteto Livre (Geraldo Azevedo, Nelson Ângelo, Franklin da Flauta e Naná Vasconcelos) fariam show em Brasília, mas todos saíram às pressas de volta para São Paulo, com receio de uma prisão. Nos anos 1980, Vandré tocou no Paraguai.

“Vamos retornar por esse caminho da música orquestral, da música tipo erudita, que é uma exigência do desenvolvimento econômico. Sem desenvolvimento econômico não existe cultura artística, e sem cultura artística não existe desenvolvimento econômico”, afirmou.