Cloroquina: efeitos colaterais são devastadores e infectologista desaprova automedicação

Insuficiência cardíaca, comportamento suicida e até cegueira. Esses são apenas alguns dos efeitos colaterais proporcionado pelo uso de cloroquina, composto divulgado por Donald Trump e Jair Bolsonaro como eficaz no tratamento contra o novo coronavírus (Covid-19). Baseado em poucos estudos, com amostragem de resultado ínfima, as falas de autoridades políticas e médicas elevaram a procura pelos remédios, o que causou um esvaziamento do estoque nas farmácias, deixando pacientes crônicos sem a medicação. Confira lista com todos os efeitos colaterais – extraídos da bula – no fim desta matéria.

Neste domingo (22), a cidade de Lagos, maior metrópole da Nigéria, registrou dois casos de intoxicação por cloroquina. O uso da medicação, direcionada ao tratamento de pessoas com lúpus, malária e artrite reumatoide, por quem não necessita pode trazer diversos problemas de saúde.

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A cloroquina é tão tóxica, que até mesmo um paciente crônico que vai usá-la precisa passar por exames prévios. A automedicação com o intuito de se prevenir contra o novo coronavírus é completamente irresponsável e pode trazer danos sérios ao usuário. Além disso, vale lembrar, como sempre frisa as autoridades de saúde, que o que previne é vacina, não remédio.

‘É uma medicação muito tóxica’

Conforme o infectologista Fernando Chagas, que atua no Hospital Clementino Fraga, referência no tratamento de coronavírus na Paraíba, está totalmente vedado o uso indiscriminado de cloroquina por quem não tem doença crônica ou recebeu prescrição médica. O especialista alerta para os efeitos colaterais.

“A cloroquina e a hidroxicloroquina são tão tóxicos, tanto que quando vamos prescrever para quem tem malária por exemplo, fazemos eletrocardiograma, porque pode causar alteração no coração que chamamos de alargamento do espaço QT – é algo extremamente perigoso, onde o paciente pode evoluir para uma parada cardíaca. Sem falar que pode acumular no corpo, causar tremores, dor de cabeça, vômitos. É uma medicação muito tóxica”, afirmou o infectologista.

Com relação ao possível tratamento aplicado com cloroquina em pacientes com Covid-19, Chagas comenta sobre dosagem e eficácia.

“A concentração da hidroxicloroquina para conseguir qualquer tipo de resultado teria que ser uma dose muito maior para o que se usa para tratar lúpus, e mesmo assim duraria em média três meses. Mas nesse tempo o paciente já está curado do covid-19 e pagou o preço de ter a doença”, disse.

‘Não faz sentido consumir a medicação de quem precisa’

A situação de desabastecimento – potencializada pela compra irresponsável da população – enfrentada pelos lúpicos se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter na noite de quinta-feira (19). A hidroxicloroquina se tornou item raro nas farmácias ao redor do Brasil, e também na Paraíba.

O especialista Fernando Chagas repudia esse tipo de compra desnecessária por parte da população que não seja paciente que necessita do composto. Para ele, não tem sentido comprar ou estocar uma medicação que não serve para você e tirá-la de quem precisa.

“Estou recebendo muitas mensagens das pessoas, desesperadas, porque não estão achando os seus remédios, eles podem sofrer muito. Os paciente com lúpus podem evoluir com doenças renais, dores, e muito mais, é terrível a situação. Para refletir: se essa medicação causasse realmente uma proteção, quem tem lúpus não pegaria covid, já que toma o remédio a vida toda. Não faz sentido consumir a medicação de quem precisa, por achar que vai se prevenir. Ainda tem gente estocando, achando que pode precisar; essa atitude só prejudica o coletivo”, declarou Chagas.

Ministério da Saúde regula distribuição

A Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enquadrou a hidroxicloroquina e a cloroquina como medicamentos de controle especial. A medida é para evitar que pessoas que não precisam desses medicamentos provoquem um desabastecimento no mercado. A falta dos produtos pode deixar os pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide sem os tratamentos adequados. Confira comunicado da Anvisa.

Laboratório aumenta produção

A Apsen Farmacêutica, responsável pela produção de hidroxicloroquina, anunciou nesta sexta-feira (20) que irá aumentar a produção das medicações a base do composto para manter o tratamento dos pacientes crônicos.

“É fato que aumentou a procura pelo medicamento nas farmácias por conta das notícias de seus possíveis benefícios contra o coronavírus, por isso implementamos um plano emergencial visando o aumento da produção do medicamento que será, neste primeiro momento, triplicada para cobrir as necessidades dos pacientes crônicos que já utilizam a medicação, reforçando que a compra deve ser feita sempre com prescrição médica”, diz trecho da nota da Apsen

Efeitos colaterais

Distúrbios hematológicos e do sistema linfático

Desconhecida

Depressão da medula óssea, anemia, anemia aplástica, agranulocitose, leucopenia, trombocitopenia.

Distúrbios do sistema imune

Desconhecida

Urticária, angioedema, broncoespasmo.

Distúrbios de metabolismo e nutrição

Comum

Anorexia.

Desconhecida

Hipoglicemia.

A Hidroxicloroquina pode exacerbar o quadro de porfiria.

Distúrbios psiquiátricos

Comum

Labilidade emocional.

Incomum

Nervosismo.

Desconhecida

Psicose, comportamento suicida.

Distúrbios do sistema nervoso

Comum

Cefaleia.

Incomum

Tontura.

Desconhecida

Convulsões têm sido reportadas com esta classe de medicamentos. Distúrbios extrapiramidais, como distonia, discinesia, tremor.

Distúrbios oculares

Comum

Visão borrada devido a distúrbios de acomodação que é dose dependente e reversível.

Incomum

Retinopatia, com alterações na pigmentação e do campo visual. Na sua forma precoce, elas parecem ser reversíveis com a descontinuação da Hidroxicloroquina. Caso o tratamento não seja suspenso a tempo existe risco de progressão da retinopatia, mesmo após a suspensão do mesmo. Pacientes com alterações retinianas podem ser inicialmente assintomáticos, ou podem apresentar escotomas visuais paracentral e pericentral do tipo anular, escotomas temporais e visão anormal das cores.

Foram relatadas alterações na córnea incluindo opacificação e edema. Tais alterações podem ser assintomáticas, ou podem causar distúrbios tais como halos, visão borrada ou fotofobia. Estes sintomas podem ser transitórios ou são reversíveis com a suspensão do tratamento.

Desconhecida

Casos de maculopatia e degeneração macular foram reportados e podem ser irreversíveis.

Distúrbios de audição e labirinto

Incomum

Vertigem, zumbido.

Desconhecida

Perda de audição.

Distúrbios cardíacos

Desconhecida

Cardiomiopatia que pode resultar em insuficiência cardíaca e em alguns casos com desfecho fatal. Toxicidade crônica deve ser considerada quando ocorrerem distúrbios de condução (bloqueio de ramo/bloqueio átrio-ventricular) bem como hipertrofia biventricular. A suspensão do tratamento leva à recuperação.

Prolongamento do intervalo QT em pacientes com fatores de risco específicos, que podem causar arritmia (torsade de pointes, taquicardia ventricular).

Distúrbios gastrintestinais

Muito comum

Dor abdominal, náusea.

Comum

Diarreia, vômito.

Esses sintomas geralmente regridem imediatamente com redução da dose ou suspensão do tratamento.

Distúrbios hepatobiliares

Incomum

Alterações dos testes de função hepática.

Desconhecida

Insuficiência hepática fulminante.

Distúrbios de pele e tecido subcutâneo

Comum

Erupção cutânea, prurido.

Incomum

Alterações pigmentares na pele e nas membranas mucosas, descoloração do cabelo, alopecia. Estes sintomas geralmente regridem rapidamente com a suspensão do tratamento.

Desconhecida

Erupções bolhosas, incluindo eritema multiforme, síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica, rash medicamentoso com eosinofilia e sintomas sistêmicos (Síndrome DRESS), fotossensibilidade, dermatite esfoliativa, pustulose exantemática generalizada aguda (PEGA).

PEGA deve ser diferenciada de psoríase, embora a Hidroxicloroquina possa precipitar crises de psoríase. Pode estar associada com febre e hiperleucocitose. A evolução do quadro é geralmente favorável após a suspensão do tratamento.

Distúrbios musculoesqueléticos e do tecido conjuntivo

Incomum

Distúrbios motores sensoriais.

Desconhecida

Miopatia dos músculos esqueléticos ou neuromiopatia levando à fraqueza progressiva e atrofia do grupo de músculos proximais.

A miopatia pode ser reversível com a suspensão do tratamento, mas a recuperação pode durar alguns meses.

Estudos de diminuição dos reflexos tendinosos e anormalidade na condução nervosa.

Em casos de eventos adversos, notifique ao Sistema de Notificações em Vigilância Sanitária – NOTIVISA, disponível em http://portal.anvisa.gov.br/notivisa, ou para a Vigilância Sanitária Estadual ou Municipal.

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