Caso Braiscompany: Ministério Público de São Paulo entra na investigação

Autointitulada “maior gestora de cripto ativos da América Latina”, empresa fundada na cidade de Campina Grande também está na mira do MP da Paraíba

Reportagem publicada pelo site de notícias O Antagonista revela que o Ministério Público de São Paulo também está no encalço da empresa paraibana Braiscompany, que se autointitula a “maior gestora de cripto ativos da América Latina”. O MP da Paraíba também apura a possibilidade de esquema de pirâmide disfarçado de investimentos em criptomoedas.

O site revela ainda que Fabrícia Campos, esposa de Antônio Neto Ais, operador da Braiscompany, era beneficiária do programa Bolsa Família até setembro de 2019.

“De junho de 2014 a setembro de 2019, ela [Fabrícia Campos] recebeu mais de 15 mil reais pelo programa social para famílias de baixa renda, numa situação que não lembra nem de longe a vida de luxo que os fundadores da Braiscompany ostentam atualmente”, destaca O Antagonista.

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O escândalo Braiscompany

Até 2018, Antônio Neto Ais e a sua mulher, Fabrícia Campos, empreendiam no ramo do marketing multinível, no qual empresas como i9Life, Hinode e Mary Kay repassam aos revendedores de seus produtos uma parte dos lucros obtidos. As coisas não pareciam ir muito bem para o casal na Paraíba. Segundo o Portal da Transparência, Fabrícia era beneficiária do Bolsa Família. De junho de 2014 a setembro de 2019, ela recebeu mais de 15 mil reais pelo programa social para famílias de baixa renda, numa situação que não lembra nem de longe a vida de luxo que os fundadores da Braiscompany ostentam atualmente.

A empresa fundada pelo casal em 2019 oferece ao investidor a compra de criptomoedas que serão alugadas, por no mínimo um ano, para a financeira operar no mercado. Por meio desse trade, a Braiscompany promete devolver mensalmente um rendimento de 8% a 10% para seus clientes. Para o doutor em contabilidade Felipe Pontes, que acompanha as operações da empresa desde o início, o negócio é “nebuloso”.

Foi em meio à neblina que a Braiscompany montou sete escritórios, um deles na região da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. A empresa possui cerca de 10 mil investidores e chegou a promover e patrocinar grandes eventos, com presença de famosos, com os ex-jogadores de futebol Ronaldinho Gaúcho e Falcão, e até servidores da Polícia Federal. Tudo ia muito bem até novembro do ano passado, quando a financeira parou de repassar os ganhos aos seus clientes.

Autointitulada “maior gestora de cripto ativos da América Latina”, a empresa culpa a corretora de criptomoedas Binance pelos problemas e pede paciência, mas não apresenta perspectivas de solução. A agitação causada pela crise interna catalisou as suspeitas que rondam a Braiscompany desde a sua fundação Os Ministérios Públicos da Paraíba e de São Paulo apuram a possibilidade de esquema de pirâmide disfarçado de investimentos em criptomoedas.

Em entrevista exclusiva a O Antagonista, um ex-funcionário da empresa disse que apenas 5% do capital investido pelos clientes é de fato operado pela Braiscompany e que os consultores da financeira eram obrigados a investir 30% de seus próprios salários nos negócios da companhia. Segundo ele, um contrato de confidencialidade impede que os funcionários exponham esse tipo de informação.

“Muitos [funcionários] saíram porque viram que o negócio era totalmente diferente do que se noticiava na mídia. Saía mais dinheiro do que se operava. Foi quando eu comecei a ver que o negócio era errado”, conta.

Segundo o denunciante, a rotina dentro da empresa é de pressão e medo. “É uma situação estarrecedora, aquela mídia, aquele sorriso, aquelas festas… Aquilo é tudo combinado em grupos de WhatsApp. Quem não fizer, quem não pular, quem não sorrir e não disser que as coisas estão indo bem, que estão pagando, é demitido na hora.”

Atrasos

Se as festas são de fachadas, os atrasos nos pagamentos são bem reais e, acordo com uma cliente entrevistada pela reportagem, já impactam em seu planejamento familiar e até em sua saúde. A mulher também só aceitou falar sob a condição de anonimato, por medo de sofrer retaliação da empresa e não conseguir recuperar os investimentos.

“Não tenho dormido, basicamente. Estou com olheiras profundas, tenho me sentido mal, tenho crises de ansiedade, inclusive, porque eu não sei o que vou fazer. Estou perdida. E, quando a gente tenta contato, pedindo para eles uma informação, um prazo, alguma coisa, [eles respondem] ‘Ah, tem que aguardar’. Um aguardar infinito, sem nenhuma perspectiva de nada.”

A advogada especializada em golpes financeiros Larissa Gatto representa 37 clientes com ativos na Braiscompany. No total, eles aguardam há mais de 30 dias para receber 2,5 milhões de reais. “A carteira em que a Braiscompany pede para que os cliente façam o depósito do cripto ativo é uma carteira de passagem. O dinheiro entra nessa carteira e sai para uma outra conta da Binance, que tem um volume bem considerável. Uma conta que foi criada em 2018 e teve a última movimentação dela em 19 de janeiro e foi zerada”, explica a advogada.

Na última terça-feira (7), o fundador da Braiscompany fez uma live para apresentar sua versão da história. “A Binance está travando saques e transferências. Ponto. Se você não acredita ou se você não quer saber ou se você não quer entender, isso não muda o fato do que está acontecendo hoje no cenário global de cripto”, argumenta. “O nosso jurídico já está trabalhando com ação judicial, mas, até sair uma sentença judicial, nós estamos falando de um período de tempo em que os meus clientes querem o seu rendimento hoje”, justifica Ais.

A transmissão ao vivo frustrou os clientes, por apresentar um prazo para a regularização dos pagamentos. “Gostaria de dizer para vocês: ‘Amanhã está resolvido’, mas eu sei que vai chegar esse momento. Eu gostaria de falar para vocês: ‘Até dia 30 está resolvido’, mas eu não vou falar o que eu não posso.”

Procurados por O Antagonista, Antônio e Fabrícia não quiseram dar entrevista. A reportagem aguarda um posicionamento da Binance. O ex-jogador de futsal Falcão, que aparece em imagens de eventos solidários da empresa, informou por meio de sua assessoria que o atleta nunca fez publicidade e também não possui investimentos na Braiscompany. As investigações seguem em segredo de justiça.