Brasileiros em Mianmar relatam tensão um mês após golpe

No dia 1° de fevereiro, Mianmar acordou com a notícia de um golpe de Estado: os militares tomaram o poder e prenderam os líderes do governo civil, entre eles, a líder Aung San Suu Kyi, que ganhou o Nobel da Paz em 1991. Desde então, o país vive dias dramáticos, com protestos diários por democracia e a escalada da repressão militar.

As Forças Armadas usaram armas de fogo para reprimir as manifestações neste domingo (28) e pelo menos 18 manifestantes foram mortos, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas).

A pequena comunidade brasileira no país está tensa. As primeiras consequências do golpe militar foram sentidas com os cortes de internet e a dificuldade de comunicação com a família. A incerteza política levou à corrida aos bancos e aos mercados em plena pandemia de Covid-19.

As semanas seguintes, marcadas por manifestações nas ruas e panelaços diários, deram esperança de um retorno rápido à normalidade. No entanto, o aumento das prisões arbitrárias, das ordens restritivas e de mortes assusta a todos.

“As manifestações eram bem pacíficas, mas agora têm a presença massiva de policiais e do exército nas ruas. O pessoal está muito preocupado”, conta Amanda, que vive no país há quase dez anos.

Estudantes de medicina e profissionais de saúde desfilam com cartazes pedindo a liberdade de Aung San Suu Kiy na cidade de Yangon, capital econômica de Mianmar — Foto: AP Photo

Estudantes de medicina e profissionais de saúde desfilam com cartazes pedindo a liberdade de Aung San Suu Kiy na cidade de Yangon, capital econômica de Mianmar — Foto: AP Photo

Bancos fechados e desobediência civil

Logo após o golpe, houve uma corrida aos bancos e aos mercados. As pessoas tentaram sacar dinheiro e fazer estoques de comida e se prepararam para o período de incerteza que estaria por vir.

A resposta dos apoiadores ao governo que foi derrubado não demorou. Manifestações pela democracia e pela liberdade da popular líder Aung San Suu Kyi explodiram nas principais cidades de Mianmar. Além disso, todos os dias, às 20h, os opositores dos militares fazem um panelaço de 15 minutos.

Uma outra forma de resistência foi lançada com o movimento de desobediência civil. Entre as ações, está o pedido de paralisação para quem trabalha em serviços do Estado ou que atinjam o governo. Com isso, a maioria das agências bancárias de Yangon estão fechadas e apenas os caixas eletrônicos estão funcionando.

“Muitos caixas eletrônicos ficam sem dinheiro logo no começo do dia. As pessoas fazem um esforço coordenado para retirar o dinheiro dos bancos porque eles não sabem o que pode acontecer”, explica João Dutra Kyaw Aung, diretor de uma start-up de tecnologia em Mianmar. “Tenho reduzido ao máximo os meus gastos. Tenho receio de ficar sem dinheiro e não ter acesso ao que tenho no banco”, completa.

Comércios e supermercados que antes aceitavam cartões internacionais deixaram de usar a forma de pagamento com os constantes cortes de internet, conta.

Morador de Yangon, João Dutra Kyaw Aung participou de protestos pela democracia em Mianmar desde o golpe militar. Na foto, ele segura cartaz durante manifestação no dia 8 de fevereiro — Foto: Arquivo pessoal/RFI

Morador de Yangon, João Dutra Kyaw Aung participou de protestos pela democracia em Mianmar desde o golpe militar. Na foto, ele segura cartaz durante manifestação no dia 8 de fevereiro — Foto: Arquivo pessoal/RFI

Os médicos e profissionais da saúde aderiram em massa ao movimento de desobediência civil e apenas casos de emergência e ligados à pandemia têm sido atendidos nos hospitais das principais cidades do país. Os professores também entraram em greve como parte do movimento, assim como outras categorias.

Além disso, muitos birmaneses deixaram de pagar seus impostos e tarifas de serviços prestados por empresas ligadas ao governo. Comerciantes também estão deixando de recolher os impostos no momento da venda para atingir financeiramente o governo militar.

“É um nível de desobediência civil difícil de imaginar”, avalia Priscilla Dantas, que mora também na capital econômica do país, Yangon.

Cortes de internet e censura

Os cortes de internet têm sido usados como estratégia da Junta Militar no poder para estancar as manifestações diárias que acontecem em todo o país desde o início de fevereiro.

Os birmaneses passaram dias sem acesso algum à rede. Em seguida, Facebook, Instagram e Whatsapp foram bloqueados. Diariamente, o país fica sem conexão à internet entre 1h e 9h.

“Eu não consigo mais falar com minha família no Brasil com frequência por causa da conexão precária e eles ficam muito preocupados”, lamenta Dantas.

Os cortes de comunicação estão garantidos por uma lei birmanesa, aprovada em 2013, que permite ao governo bloquear a rede ou interceptar mensagens durante períodos de situação de emergência. A Junta Militar declarou em fevereiro estado de emergência com duração de um ano.

VPNs, aplicativos de mensagens criptografados e redes de comunicação por Bluetooth são algumas das maneiras encontradas para burlar um possível sistema de vigilância sobre os birmaneses, já que os relatos de prisões arbitrárias são numerosos.

De acordo com a organização AAPP, de ajuda a presos políticos, cerca de 850 pessoas foram detidas no país desde 1° de fevereiro.

Repressão e segurança comunitária

Há relatos de muitas prisões realizadas durante a noite, no período em que o país está sob toque de recolher. Priscilla Dantas conta que o prédio em que morava, no centro comercial de Yangon, foi invadido duas vezes durante a noite por militares que procuravam opositores para prender.

“A partir disso, as pessoas começaram a se organizar e colocar olheiros durante a noite para ver quando os militares estão chegando e fazer um panelaço, para avisar todo mundo”, diz.

Com um filho pequeno, ela e seu marido decidiram deixar a região central, com muitos protestos, e se mudar para outro bairro em “um prédio com segurança na porta e câmeras de segurança”.

A brasileira Priscilla Dantas conta que os militares faziam barreiras com arame farpado em manifestações no centro comercial de Yangon (foto de 6 de fevereiro) — Foto: Arquivo pessoal/RFI

A brasileira Priscilla Dantas conta que os militares faziam barreiras com arame farpado em manifestações no centro comercial de Yangon (foto de 6 de fevereiro) — Foto: Arquivo pessoal/RFI

Dificuldades para estrangeiros

A embaixada brasileira em Yangon tem publicado alertas pedindo para que os residentes fiquem em suas casas e mantenham suas informações atualizadas no consulado. Além disso, o serviço tem publicado as possibilidades de voos para saída do país, passando pela Malásia, pela Coreia do Sul e seguindo pelo Catar até o Brasil.

Para quem construiu a vida em Mianmar, há o medo de uma mudança no tratamento oficial dos estrangeiros no país. A abertura para o comércio internacional nos anos recentes e o aumento de migrantes não são vistos com bons olhos pelos militares.

“Existem rumores de que as regras de estrangeiros possam mudar, que possa ter problemas com o visto. Esse é o meu maior medo, o de ser forçado a sair daqui”, conclui Kyaw Aung.

Até a publicação desta reportagem, a embaixada brasileira não havia respondido quantos são os brasileiros que tentam deixar o território.

Quantos mortos mais?

O domingo (28) deveria ser um dia nacional de protestos organizados pelos partidários de San Suu Kyi, mas foi marcado pela violenta repressão dos militares. Em diversas cidades de Mianmar, as forças armadas usaram, além dos jatos d’água, armas de fogo para dispersar os protestos. De acordo com as Nações Unidas, ao menos 18 manifestantes foram mortos e outros 30 ficaram feridos.

Ativistas birmaneses perguntam “Quantos mortos serão necessários para que as Nações Unidas aja?”

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrel, condenou os assassinatos e afirmou que a Europa deve anunciar sanções ao país. “A violência não dará legitimidade ao golpe ilegal do governo democraticamente eleito”, disse o espanhol.

O secretário geral da ONU, António Guterres, pediu que a comunidade internacional “mande um sinal claro aos militares de que a vondade do povo de Mianmar expressa nas eleições deve ser respeitada e que eles devem dar um fim à repressão”.

Nas ruas do país, os manifestantes exigem a libertação da popular líder da Liga Nacional pela Democracia. Filha de um herói da independência birmanesa, San Suu Kyi tem um histórico de luta pela democracia no país e foi presa política ao longo de 15 anos entre 1989 e 2010, enquanto o país vivia sob ditadura.

Em prisão domiciliar desde o golpe, a líder brimanesa voltou a ser vista nesta segunda (1°) por vídeo ao participar de uma audiência judicial. Ela é acusada pelo governo militar de ter importado ilegalmente walkie-talkies e ter violado restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Nessa segunda, a líder foi indiciada por duas novas acusações: desrespeito a uma lei sobre as telecomunicações e por incentivar “o distúrbio à ordem pública.”