Botafogo-PB calcula que deixou de receber cerca de 30% de receita anual em dois meses

Botafogo-PB entrou em campo apenas duas vezes em casa e com público no mês de março

Uma crise profunda que atingiu praticamente todos os setores da sociedade. A pandemia do novo coronavírus vai provocar uma mudança drástica no relacionamento entre as pessoas e os modos de produção quando o mundo estiver no considerado “novo normal”. No futebol, o momento é de total incerteza, com a perda de receitas e a não realização de jogos.

A reportagem entrou em contato com Renato Beltrão, vice-presidente administrativo do Botafogo-PB, que explicou a situação do tricampeão paraibano. Segundo o dirigente, o Belo deixou de receber cerca de 30% da receita anual apenas com a baixa de março e o zerado mês de abril.

Renato explicou que esses primeiros meses da temporada, com o Campeonato Paraibano, a Copa do Nordeste e a Copa do Brasil, o clube está habituado a ter uma agenda cheia de jogos, fato que, dentro de campo, resulta em rotação do time e desgaste dos atletas. Contudo, para as finanças alvinegras, isso é fundamental para se ter uma boa saúde financeira. E é justamente esse o maior desafio nesse momento de tantas dúvidas.

– De fato, o maior desafio é não ter visibilidade do que irá acontecer, fica difícil planejar um orçamento em um cenário de tantas incertezas. A dificuldade já é uma realidade. Desde a suspensão das atividades, começamos a ter perdas significativas com arrecadação dos jogos, patrocínios, do plano de sócio-torcedor, cotas de campeonatos, e por aí vai. Para se ter uma ideia, os dois meses sem partidas (março e abril) representaram 32% da receita orçada para arrecadações no ano. Isso porque, nesses meses, concentravam-se os maiores números de jogos para o clube. Se considerarmos maio, esse valor sobe para 43%. O programa de sócio-torcedor teve uma redução de receita na ordem de 30% no mês de abril comparado ao mês anterior – disse Renato Beltrão.

O fato é que o Botafogo-PB entrou em campo apenas duas vezes em casa e com público no mês de março. Foi na vitória sobre o Imperatriz por 2 a 1, pela sexta rodada da Copa do Nordeste, no dia 7; e na vitória sobre o Nacional de Patos pelo placar de 4 a 1, pela sétima rodada do Campeonato Paraibano, no dia 15. O Belo ainda empatou com o Sousa em 1 a 1, no jogo atrasado pela quarta rodada do estadual, no dia 18 de março, numa partida que não contou com a presença de público. No dia seguinte, o calendário do futebol do estado foi suspenso.

De acordo com o dirigente administrativo do Botafogo-PB, essas partidas contaram com um público abaixo do esperado. Ele acredita que isso aconteceu devido ao receio que as pessoas já tinham com o avanço da Covid-19 pelo país. Ou seja, mesmo com esses jogos com o público, o Belo deixou de arrecadar por todo o mês de março e o de abril. O cenário vivido em maio consegue ser ainda mais preocupante.

Crise atinge o quadro de funcionários do clube

Nessa situação, não é só o clube que sofre. Afinal, muitos funcionários dependem do trabalho para seguir com as suas vidas. Renato Beltrão contou que, hoje, o Botafogo-PB conta com 55 pessoas trabalhando diariamente no clube, seja funcionário ou prestador de serviço. Além deles, existem os atletas e a comissão técnica, chegando a um número de quase 100 pessoas.

O dirigente garantiu que o Botafogo-PB preza para manter esses empregos. Uma medida que já foi tomada foi a suspensão dos contratos de alguns funcionários pela MP 936/2020, do Governo Federal. A Medida Provisória suspende os contratos de profissionais por até dois meses, com os funcionários recebendo auxílio governamental. Além disso, a diretoria do Belo reduziu o salário dos jogadores em 25%.

– O clube vem tomando algumas medidas para reduzir os custos. Uma delas foi a suspensão dos contratos dos funcionários, conforme prerrogativa da MP 936/2020. Apenas alguns serviços seguem funcionando, como, por exemplo, portaria e manutenção dos campos – relatou o dirigente.

Os que tiveram os contratos suspensos vão receber o auxílio do Governo Federal com um teto de R$ 1.800. Para os funcionários que receberem salários maiores que o teto, o próprio Botafogo-PB vai arcar com a diferença.

Futebol sem público

No Brasil, como a pandemia ainda não atingiu um pico na curva de contágio, é difícil prever quando o futebol vai ser retomado. Na Europa, muitos países estão conseguindo diminuir o nível de contaminação pela doença, fato que alivia os sistemas de saúde. A Alemanha, aos poucos, vai diminuindo a questão do isolamento. Neste fim de semana, o país vai retomar o Campeonato Alemão, com jogos acontecendo sem a presença de público e uma série de medidas a serem tomadas para a segurança dos profissionais que vão entrar em campo ou trabalhar nas partidas.

O cenário é bem diferente em solo brasileiro. Não há expectativa para a retomada dos jogos. O que se vê realmente são estados próximos de um colapso na saúde.

Pensando no futuro, a tendência é que, quando o futebol voltar, as partidas aconteçam sem a presença do torcedor. Isso, para equipes como o Botafogo-PB, vai significar um novo problema, já que o clube necessita de receita para seguir bem das finanças. No caso de times das principais séries do Campeonato Brasileiro, a A e a B, as cotas de televisão são altas. Enquanto isso, quem está em divisão inferior não recebe tal quantia.

– É um grande problema para todos os clubes, mas, por não possuírem cotas de participação, isso se torna ainda mais complicado para os clubes que não participam das séries A e B. Teremos que nos reinventar, utilizar meios de tecnologia para mitigar a falta desse público. Temos conversado muito, principalmente em formas para garantir que os nossos sócios possam acompanhar esses jogos. Acredito que os clubes, em conjunto com a CBF, têm que chegar em uma solução diferente do que é hoje. Requer um modelo de negócio diferente – avaliou Renato.

Por fim, o dirigente botafoguense analisou a situação do futebol paraibano. Para ele, vai ser preciso muita união para sair dessa situação catastrófica.

– Nós, que administramos clubes, isso eu incluo os colegas dos demais times da Paraíba, temos o desafio de “matar ou morrer” para preservar todos os empregos. Sabemos que a prioridade é a saúde, mas a situação é crítica. É hora de uma grande união entre clubes, FPF, Governo do Estado, para que, em conjunto, consigamos superar tudo isso. E isso eu não falo de futebol, e sim das pessoas que dependem dos trabalhos – concluiu.

Dos 10 clubes da elite do futebol paraibano, o Botafogo-PB é o que possui a melhor situação financeira. Apesar disso, o poderio de cada equipe, isso também pelo mundo, vai ser bem diferente quando a crise chegar ao fim.

Do G1.

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