Análise: o escárnio do aumento do fundão eleitoral para 2026
Ilustração: Thiago Alencar/Agência CENARIUM

A revelação de que líderes do Congresso Nacional articulam o aumento do chamado fundão eleitoral para 2026 é mais uma prova do abismo que separa parte da classe política da realidade vivida pela maioria dos brasileiros. A informação foi publicada pela jornalista Roseann Kennedy, em sua coluna no Estadão, e confirma que a proposta já está em análise na Comissão Mista de Orçamento (CMO), dentro da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), sob relatoria do deputado paraibano Gervásio Maia (PSB).

Não bastasse o desgaste com a tentativa fracassada de emplacar a tal PEC da Blindagem, que ampliava privilégios e colocava parlamentares acima da lei, agora surge a movimentação para aumentar os recursos do fundo eleitoral – dinheiro público usado para bancar campanhas políticas. Nas eleições de 2024, o valor já havia sido bilionário: R$ 4,9 bilhões. Em vez de buscar alternativas para reduzir esse gasto imoral, cogita-se ampliá-lo.

Chama atenção a incoerência de muitos deputados que, em discursos inflamados, cobram do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva cortes de gastos, austeridade e equilíbrio fiscal, mas, nos bastidores, trabalham para turbinar seus próprios recursos de campanha. O contraste é gritante: enquanto milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, a classe política insiste em ampliar o privilégio de ter campanhas bancadas pelo dinheiro do contribuinte.

Esse é um escárnio contra a sociedade. Em um país marcado pela desigualdade social, pela precariedade dos serviços públicos e pelo drama de famílias que não sabem como colocar comida na mesa, é inadmissível que se discuta a ampliação de um fundo que já consome bilhões sem qualquer benefício direto à população.

Não é à toa que até parlamentares do chamado “baixo clero” demonstram resistência em apoiar a proposta. Eles temem novas manifestações de rua, como as registradas recentemente contra a PEC da Blindagem. E têm razão: o sentimento popular de repulsa contra medidas que apenas servem para fortalecer os caciques políticos tende a crescer, especialmente em um período de desconfiança em relação às instituições.

Aumentar o fundo eleitoral para o pleito de 2026 é insistir no erro de priorizar os interesses da classe política em detrimento das necessidades urgentes do povo. O Congresso precisa entender que a sociedade está vigilante e que a paciência com privilégios se esgotou.

Com as eleições de 2026 no horizonte, é essencial que a população compreenda a importância de escolher representantes comprometidos com o interesse público, e não com privilégios de gabinete. O aumento do fundão, se confirmado, será mais um capítulo vergonhoso de uma legislatura marcada por pautas dissociadas da realidade social.

Cabe ao eleitor, no ano que vem, dar a resposta nas urnas e exigir uma política mais responsável, ética e voltada às verdadeiras prioridades do Brasil.