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Quotidiano

A luxúria utópica ou a história real da ilha do faz de conta

Eu poderia fazer um artigo falando sobre uma supercelebridade que completa seu centenário ou filosofar sobre como a conjuntura política está indo de ladeira abaixo no que há de mais podre ou até mesmo tergiversar com alguma crítica de filme, peça de teatro, músicas ou artes plásticas, mas resolvi contar a história de como duas personagens corromperam a ilha Utopia.

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Não foi a política de Estado que fez perecer aquele lugar tão perfeito. Talvez a sociedade resolveu abstrair de todos aqueles sanguessugas do poder que faziam a disputa de quem estampava a manchete mais negativa do dia.

Não foram as calamidades sociais nem as doenças que tiraram dos olhos daquele povo a esperança por dias melhores. Acontece que até mesmo no mundo perfeito, há a resiliência, a conformação, a paciência e a tolerância.

Essa é a história de duas pessoas que se encontraram no auge de suas vidas, quer seja das inquietudes juvenis, quer seja da maturidade provocativa.

Eles não deveriam nem começar o lance deles. Duas pessoas com personalidades complicadas, complexas, apesar de comportamentos díspares. Ela, escrachadamente ativa, altiva, viva. Ele, timidamente manipulador, estratégico e intelectual.

Essa é a história de como água e óleo tentam, tentam e tentam muito se misturar. Não dá. A heterogeneidade etária não permite.

Os dois desbravaram os limites do corpo juntos. Ela conheceu com ele um novo mundo. Ele encontrava nela a juventude que há muito já tinha passado. A história já começou toda errada: os dois não tinham que estar, mas estiveram. E estiveram por muito tempo, sob os versos de Caetano e Mautner, que diziam exatamente assim: “Eu não peço desculpas e nem peço perdão / Não, não é minha culpa / Essa minha obsessão / Já não aguento mais ver o meu coração / Como um vermelho balão / Rolando e sangrando / Chutado pelo chão / Psicótico, neurótico, todo errado / Só porque eu quero alguém que fique / Vinte e quatro horas do meu lado / No meu coração eternamente colado”.

Quanto narradora, me ponho em dúvida se esta história é de amor. Estes dois coitados nadaram muito contra o tempo, na contramão, para só estarem perto por alguns minutos. Isso não é ideal de beleza ou de realeza de amor. Mas achavam divino a conquista em meio a escassez temporal.

Ao mesmo tempo sou arrebatada pelos versos do poeta paraibano de Aroeiras, o imortal Hildeberto Barbosa Filho, em seu “Poema do Amor Violento”. Ali, ele descreve com bastante crueza como ambos se sentiam e até mesmo se posicionavam. Reproduzo na íntegra a seguir:

Do amor,
ternura alguma
Do amor,
somente a beleza
e a violência do ato.
Somente a voragem passageira.
Do amor,
nenhuma certeza,
nenhuma promessa,
nenhuma história.
Nenhum passado, nenhum futuro.
Apenas, árido, o presente.
Do amor,
apenas a comédia.
Apenas a tragédia.
Apenas o risco, a paixão,
a doença, o inferno.
O avesso, o abismo, o logro.
Do amor,
ternura alguma.
Somente a posse corrosiva.
Somente os corpos vazios,
o silêncio cruel.

Evidentemente que toda essa paixão, toda essa fúria faria mal aquele mundo tão perfeito, tão idealizado. Sozinhos, os dois abalaram instituições seculares. É um pecado demasiado cruel.

E o final poderia ser até um remake do clássico shakespeariano, mas o veneno desta tragicômica história é a covardia e o punhal é a incapacidade de simplesmente esquecer.

Essa é a história de quem nunca escreveu uma história de amor (ou uma crônica) para a sua (?) amada, por quem devota o coração.

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Edilane Ferreira

Jornalista, radialista e utopista. Editora-chefe do Paraíba Já. Contato: [email protected]

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