Youth: Uma crônica intimista e leve sobre a velhice

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    Youth (Juventude, em tradução livre) foi o primeiro filme que vi em 2016. A segunda produção de língua inglesa dirigida pelo italiano Paolo Sorrentino – a primeira foi Aqui é o Meu Lugar, com o astro Sean Penn como protagonista – é uma crônica existencialista e leve sobre a velhice, sobre olhar para Vida e para o que ela significou e ainda significa, tanto em coisas densas, como também nos pequenos atos.

    A narrativa gira em torno da personagem de Michael Caine, um prestigiado maestro britânico aposentado que resolve passar férias numa espécie de Spa de alto luxo onde celebridades e figuras proeminentes de todos os nichos se hospedam, desde astro desbocado do Rock, Miss Universo, astro de cinema em crise até um ilustre monge budista. Nesse mosaico deveras heterogêneo as personas projetam seus dilemas e suas idiossincrasias variando entre a insegurança, o narcisismo e a total vulnerabilidade.

    Youth: Uma crônica intimista e leve sobre a velhice
    Os planos contemplativos do diretor Paolo Sorrentino: imagens orgânicas, personagens flutuantes: humanidade latente retratada de forma naturalista.

    As personagens aparecem desnorteadas, flutuantes. As identidades e as personas se diluem ao longo da película. Vários arquétipos são mostrados em situações insólitas, mas embora haja uma ironia latente e uma boa dose de comicidade, nada é retratado com cinismo. Tudo no filme parte de uma humanização envolta de um niilismo benevolente, quase orgânico. Os conhecidos planos contemplativos de Sorrentino estão presentes e balizam parte da dramaticidade da narrativa. Algumas sequências de imagens são verdadeiras alegorias cênicas – que, somadas as de fato, como a impagável cena do videoclipe pop, constroem um mosaico imagético carregado de simbolismos diversos.

    Numa das cenas a personagem de Harvey Keitel, cineasta e melhor amigo do protagonista Michael Caine, fala ao velho camarada: “Você diz que as emoções são superestimadas. Está errado. As emoções são tudo que temos, o que nos resta”. Essa frase é a síntese dialógica do filme. A busca pelas emoções autênticas na velhice e também fora dela, a forma estoicista e resignada de encarar que a procura por pequenos prazeres e sensações sinceras é o que nos resta, no fim das contas.

    Youth: Uma crônica intimista e leve sobre a velhice
    Cena icônica de Youth: o último grande idílio de dois velhos amigos, a beleza que se mostra jovem e nua, inebriando a velhice

    A sequência da nudez feminina, estrategicamente reproduzida no cartaz de divulgação do filme, em que os dois velhos amigos (Caine e Keitel) estão na piscina aquecida e veem uma bela mulher nua entrar na água muito naturalmente, sem se importar com a presença deles, apresenta além da beleza plástica uma boa dose de simbolismo e poeticidade.  A beleza nua e jovem, tal qual uma deusa grega, se mostra e inebria a visão e os sentidos da velhice: duas facetas da Vida que se contrastam. É apropriadamente descrita por uma das personagens como “o último grande idílio” da vida de dois homens octogenários.

    Youth: Uma crônica intimista e leve sobre a velhice
    Rachel Weisz (à esquerda) e Jane Fonda (à direita), ambas destaque no elenco de Youth. A primeira interpreta a filha do protagonista Michael Caine e a segunda, numa participação especial, protagoniza uma das cenas mais icônicas do filme

    Além de Caine e Keitel, impecáveis em cena, demostrando fina sintonia e as nuances da vulnerabilidade das suas respectivas personas cênicas, temos uma excelente Rachel Weisz como coadjuvante de luxo, interpretando a filha do maestro. O sempre competente Paul Dano, como um ator em crise de identidade, mais uma vez está muito bem e a participação especial e icônica de Jane Fonda como a atriz-musa do diretor de cinema que, numa cena antológica, descontrói a falsa resiliência do meio cinematográfico, é um dos pontos altos do filme.

    Youth poderia ser mais bem aprofundado e menos alegórico, ter suas personagens melhor esmiuçadas e algumas situações mais substancialmente retratadas. Talvez seja uma escolha estética do diretor, mas que, nesse caso, comprometeu um pouco o resultado final. Mas é sim, sem sombra de dúvidas, um belíssimo filme.

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