“Violette” é fascinante, mas narrativa é clássica e sem grandes inovações

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    Viollete é um filme denso do início ao fim. Há poucos respiros narrativos. Essa cinebiografia da escritora francesa Violette Leduc nos transporta para a França do Pós-Guerra, da segunda metade dos anos 1940. As incertezas de um país combalido e em reconstrução suscitam conflitos e dilemas políticos e existenciais – que permeavam fortemente as relações humanas nesse período.

    Nesse cenário, Violette, interpretada esplendidamente pela atriz Emmanuelle Devos, que busca um sentido para sua vida, que se divide entre paixões frustradas e o tráfico de alimentos (na época do racionamento compulsório). Ela conhece Simone de Beauvoir, então jovem filósofa ainda pouco conhecida e desenvolve por ela uma paixão intensa, porém não correspondida. Beauvoir se encanta pela verve literária de Leduc e a incentiva a transpor para a escrita tudo que lhe inquieta e lhe corrói. A partir daí que o enredo do filme se desenvolve.

    "Violette" é fascinante, mas narrativa é clássica e sem grandes inovações
    Sandrine Kiberlain interpreta Simone Beauvouir (atrás) e Emmanuelle Devos, é a protagonista Violette Leduc.

    Temos uma imersão profunda no universo subjetivo e sensorial da protagonista Violette. Embora o filme não utilize esse recurso narrativo de forma mais enfática, toda a mise-en-scène, bem como a representação das personagens, parece ser constituída pela ótica de Leduc. Até mesmo Simone de Beauvoir, aqui personificada pela veterana Sandrine Kiberlain, uma figura reconhecidamente forte, vigorosa, envolvente e ousada aparece um tanto apática, fria, distante. As outras personas, tanto fílmicas quanto histórias, seguem essa linha.

    O “ponto de virada”, como é conhecido no jargão cinéfilo, o período do filme onde a narrativa dá uma guinada e mostra sua real preponderância, ocorre na segunda metade da película. A impressão de que história de Violette entra numa espiral dramática e toma um rumo irreversível é subvertida e somos surpreendidos com o desfecho. A direção de Martin Provost conduz o filme com um naturalismo estilizado – nem tão ortodoxo, nem inovador. Temos aqui uma linguagem linear, coesa e um tanto simplista.

    Do ponto de vista da construção da narrativa, Violette é deveras convencional. Uma típica cinebiografia francesa, que não ousa quase nada na linguagem, justo contando a história de uma figura transgressora e controvertida, que fez dos seus desejos mais latentes, seus dramas e suas ânsias e ausências interiores o bastião de uma escrita bela e corrosiva, que causou polêmica à época. Essa opção estética faz com que a obra tenha uma construção dramática e de linguagem que se assemelha bastante a de um telefilme.

    Nesse aspecto poderia ser bem melhor, mas ainda assim é um bom filme: sóbrio, emocional e muito envolvente, embora pudesse ser um pouco mais ágil e menos arrastado. O ponto forte da produção é o enredo que ela conta, o simbolismo da figura humana retratada. Somos tragados e envolvidos por Violette, a vontade que nos incide é de procurar imediatamente um de seus livros e lê-lo. Uma história fascinante e envolvente contada de forma redonda e clássica, mas consistente ainda assim.

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