Os números sobre a leitura no Brasil são bem controversos. O Instituto Pró-Livro tem feito pesquisas regulares que revelam números surpreendentes em todos os sentidos. Por exemplo, a pesquisa Retratos da leitura no Brasil, de 2007, revela que o Brasil está entre os dez maiores produtores de livros do mundo e que o MEC é o terceiro maior comprador de livros do mundo. Este ano participei de uma mesa na Bienal do Livro de Fortaleza e soube através de uma das maiores autoridades na área, o Professor José Castilho, que temos 70% de analfabetos funcionais no país. Isso é assustador uma vez que inclui as universidades e os universitários. Ou seja: se trata de um desastre social com alta capacidade de reprodução. Os déficits de leitura do ensino fundamental, parece, não são recuperáveis nas demais etapas do ensino. A última edição da pesquisa revelou que 44% da população não lê e que 30% jamais comprou um livro.  Ou seja, há uma provocação instalada.

Enquanto isso a FLIP continua fazendo sucesso e escritores desconhecidos do público nos eventos de literatura continuam sendo maioria. Em alguns eventos literários me parece que existe a necessidade de fechar uma grade de programação. Mas não há qualquer reflexão sobre ela.  As trocas entre os escritores, é de fundamental importância. Os debates sobre a produção literária e a crítica literária, principalmente, devem continuar existindo. O machismo e o racismo na produção literária. Cabe tudo e estamos avançando neste sentido. Até mesmo a FLIP tem construído programações de interesse da literatura, sem a predominância do olho destoante do mercado literário. Existem experiências fantásticas, mas o desastre está posto e se reflete diretamente nas tragédias pedagógicas reveladas pelo IDEB.

Todavia, a leitura ou a falta de leitura, pouco se discute. Pouco se encaminha a respeito e poucas secretarias de educação percebem o impacto positivo das práticas leitoras no desenvolvimento da vida intelectual das escolas. O Festival de Leitura organizado pela Fundação Espaço Cultural através da Biblioteca Juarez Gama Batista e do Sistema Estadual de Bibliotecas começa a fazer um contraponto importante. Aliás, o Agosto das Letras fazia parte de um contexto que foi eliminado pela Fundação Cultural de João Pessoa. Foi lá que nasceu o Agosto, um evento fundamentado em alguns eixos, como oficinas de leitura nos bairros, com o objetivo de formar leitores. Um projeto editorial e um departamento de literatura para desenvolver projetos de desenvolvimento da literatura na cidade. O projeto foi abortado pela prefeitura e recuperado pela FUNESC, inicialmente sem o foco específico na leitura. No entanto, este ano podemos dizer que a Paraíba tem seu festival de leitura. Um evento que se firma numa linha muito mais pedagógica e literária.

O evento foi pensado exatamente para priorizar o debate  sobre os processos de incentivo à leitura desenvolvidos na Paraíba e a absorção dos diversos caminhos para a sedução do leitor. Seja pelos quadrinhos, pela Contação de História, seja pelas mais diversas linguagens, do RAP ao Cordel. A centralidade da Literatura está exatamente no fundamento do Agosto. Literatura sem leitores e sem crítica, não é literatura, mas crise. Veremos relatos de experiências bem-sucedidas em escolas estaduais e municipais quanto a aproximação dos jovens ao prazer da leitura, ao gosto pelo conhecimento. Vamos debater sobre os impactos desses projetos no desenvolvimento escolar e até mesmo da cidadania.

Entre os dias 17 e 20 deste mês a Paraíba terá a oportunidade de vivenciar debates e propor debates sobre a produção literária e, sobretudo, sobre o que nos cabe enquanto responsabilidade não apenas institucional, mas de geração, de sociedade. O que está em pauta, desde já, é a omissão da sociedade diante da imensa diluição da condição humana nesse universo que permite que um país que produz muitos livros, tenha um universo de leitores tão diminuto. Esse é um assunto que me parece ser transversal. Deveria também estar e todos os eventos literários. Afinal, se publica tanto livro para quem e com que qualidade? De 17 à 20 de agosto estaremos na alça de mira das trovoadas que devem ganhar corpo no cotidiano das escolas, nos bares, nas calçadas, na sala de aula e nas bibliotecas espalhadas pelo Estado.  Afinal, como dizia Mário Quintana: “o pior analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê.”

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