Uma tentativa de golpe à democracia está em curso, afirma colunista

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Na manhã em que escrevo esta coluna lá fora o Brasil está em transe: está em curso, e é preciso que se denuncie sem meias palavras, uma tentativa de golpe de Estado de escancarado conteúdo bonapartista (Sérgio Moro) e midiático (Rede Globo). O objetivo é atear fogo em Roma. O clima de histeria coletivo é tão áspero que são divulgadas conversas privadas, quando todos nós – quem atira a primeira pedra? – relaxamos as cautelas de linguagem, como se fosse crime de Lesa Pátria. Gostaria de escutar as gravações privadas do juiz Sérgio Moro no comando da Lava Jato.

Pouco me importa se circunstancialmente o golpe angarie apoio majoritário, se expressa a voz irracional de ativistas nas ruas ou penas sanguinárias na internet, no fundo da alma movidos pele ressentimento. Não importa se o golpe tenha o apoio de profissionais liberais de renda elevada, intelectuais liberais (nossos liberais apoiaram todos os golpes da histórica brasileira, sem exceção) e até pessoas mansas de boa índole. São pessoas que tomaram uma deliberação: não se envergonham de caminhar ombro a ombro em manada com grupos de uma juventude bombada de adrenalina destrutiva que pedem o retorno da ditadura militar. Hitler teve o apoio dos mansos. Mussolini foi um dia majoritário. Pouco me importa nadar contra a corrente: minhas convicções são de fundamento.

O grande historiador britânico Tony Judt, um liberal social-democrático de convicções verdadeiras, escreveu poucos dias antes de morrer um livro magnífico sobre o século XX que intitulou “um século esquecido”. Eu complementaria afirmando que apagar o século XX da memória trata-se de um grande problema porque o século produziu grandes novidades. Uma das grandes novidades, logo no começo do século, foi a irrupção do fascismo na Itália como movimento reacionário de massas.

Até o século XIX, o que predominava na direita política eram os pequenos grupos de intelectuais aristocráticos avessos à dinâmica vertiginosa de transformações da modernidade. É o tempo de Nietzsche, de Schopenhauer, de Burckhardt, intelectuais não-práticos. O fascismo, ao contrário, constituiu-se um movimento plebeu de escuta organizada da esgotolândia da alma. Quando destampamos o esgoto, sentimos o odor.

Os movimentos de direita se jactavam ano passado que, ao contrário dos movimentos sociais de esquerda, confraternizavam com a polícia em praça pública. Escrevi à época que esse discurso era de falso pacifismo. Na verdade, aquele “pacifismo” já exibia violência simbólica, assédio moral, preconceito, ignorância, cujo ponto de concentração estava na palavra de ordem da intervenção militar. Em algum momento do processo, a violência passaria de concentrada a ativa, prestes a explodir em algum momento do futuro.

Por isso, não me espanta que “os mansos” exasperados, que nas manifestações de 2013 tanto criticaram os Black Blocs da boca para fora, invistam, neste segundo ano de crise política, na violência ativa. A escalada começou através da recepção de lideranças próximas ao governo em restaurantes, hospitais e até enterros, e aprofundou nas manifestações de domingo, naquela atitude estilo ‘Qué se vayan todos’, importada da crise argentina de 2001, de hostilizar políticos tradicionais do PSDB. Já na noite de ontem assistimos cenas de jovens portando bombas e partindo para o enfrentamento com a polícia em frente ao Congresso em Brasília. Isso é só o começo.

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