Uma crise bem mais profunda

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Uma crise bem mais profundaEstive em Fortaleza recentemente, na Bienal Internacional do Livro. Participei de uma mesa sobre livro e leitura com algumas pessoas da área. Nomes relevantes, aliás. Inclusive o grande José Castilho. Lembramos logo o nome de Castilho quando se fala em Plano Nacional do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca. Ele é um dos pilares dessa construção. Uma das pessoas dando a régua e o compasso por aí. Claro que outros também, como Fabiano Puiba e muitos que não vou citar. Ouvi do Castilho uma informação que me alarmou bastante. Ele disse que o resultado da última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou 75% de analfabetos funcionais no país. É algo extremamente preocupante e que está diretamente relacionado com a pouca atenção que ainda se dá para a leitura enquanto direito social.

Esse índice nos lembra o poeta gaúcho Mário Quintana que dizia que “o pior analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê”. O analfabetismo funcional é a incapacidade que a pessoa tem de compreender os textos mais simples. Mesmo sabendo ler. Pois bem, esse fantasma entrou para as universidades. Não há mais como disfarçar. As deficiências do ensino fundamental e médio são cumulativas. No governo Lula tivemos algumas das primeiras preocupações com a leitura literária enquanto política pública. Avançamos muito na construção do Plano Nacional do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas. São inúmeros os municípios brasileiros que ganharam bibliotecas. Vários estados estão preparando os Planos Estaduais. Ganhamos a lei do livro. Ainda que não esteja sendo cumprida.  No entanto, houve uma certa descontinuidade e no atual governo pós-golpe, uma paralisia lamentável.

Quem conduzia a política nacional para o livro e a leitura era o MinC. No tempo em que tínhamos um ministério da Cultura. Atualmente temos apenas um balconista como ministro e um total esvaziamento de todas as pastas. Sendo a leitura literária discriminada até mesmo no âmbito cultural, podemos afirmar que no plano federal estamos reduzidos a zero. Apesar de Roberto Freire afirmar que vai priorizar a literatura.  Não vai. Não há prioridade além de salvar a própria pele num governo de ministros envolvidos em tantos atos desabonadores. Inclusive ele. Zeramos quase tudo, infelizmente. Aliás, o Brasil está no negativo.

Pois bem. Temos acompanhado pelas redes sociais os resultados dessa imensa defasagem que aliás, não é de hoje. As posturas desnecessariamente agressivas. A falta de argumentos diante dos fatos. A supressão do contraditório. A pouca habilidade para o manejo de uma linguagem minimamente compreensível. Como dizia Francis Bacon, “a leitura traz ao homem plenitude; o discurso, segurança; e a escrita.” Entendo que existem inúmeras responsabilidades. Uma delas, logicamente, do poder público por não priorizar a escrita enquanto estratégia pedagógica para as escolas públicas, principalmente. Compreendendo que a leitura não é apenas uma atividade escolar. O livro precisa ser um objeto do cotidiano. Claro, temos honrosas exceções. Mas, a regra é de doer. Outra responsabilidade é do mercado do livro. O mercado editorial brasileiro está transnacionalizado. Sobrevive das amenidades. Leituras para não pensar. Best Sellers de qualidade duvidosa. Colocou a literatura, principalmente contemporânea, na extrema marginalidade. Uma Bienal se instala numa cidade com um investimento público altíssimo, mas não deixa um único livro para as bibliotecas ou programas de leitura.

É hora de pensarmos um pouco mais nisso. Em meio à crise, temos avanços significativos. Verdadeiros guerrilheiros e guerrilheiras da leitura espalhadas pelo Brasil. São os semeadores e semeadoras da esperança. Projetos lindos sobrevivendo quase sem apoio ou completamente sem apoio. Os gestores públicos que ainda insistem na defesa da leitura, recebem muitas vezes a apatia em resposta. As universidades também têm responsabilidade, pois estão formando profissionais que não leem. Inclusive professores de literatura. Claro, ressalvo as exceções honrosas. No entanto, experiências cotidianas em algumas escolas, em ONGs. Feiras literárias que começam na sala de aula. Professores e professoras que levam a literatura para seu alunado. Esses sabem do poder transformador e do papel da leitura na qualidade do ensino e na construção cidadã. Mas, ainda são poucos. Infelizmente muito poucos. Está na hora do Brasil pensar nisso. Afinal, estamos na terra de Machado de Assis e Augusto dos Anjos.

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