Teori: fato consumado

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Estávamos e não estávamos ali. O circo da mídia jazia em ação com seus olhares cheios de dúvidas e inquietações, um muzak de mil vozes, espoucar de flashes, intumescências iluminantes. A cada disparo os tumores de luz nos cegavam para que a posteridade se agarrasse à cena em que se amontoavam horror e promessas de muitas dores. O gás do atordoamento se misturava ao oxigênio escasso da hora.

Estávamos em meio aos escombros. O ar ardia, aquele cheiro estranho eu acreditava que se desprendia dos coletes dos socorristas, das insígnias e das canetas, das macas de branco momentaneamente estacionadas com aquela resignação pálida de quem está pronto para acudir.

As telas das máquinas nos circundavam, a quadradura das câmeras… entre elas nós repórteres nos espremíamos. Os olhares relutavam em aceitar de chofre o campo nu em que o morticínio se retorcia.

Os corpos, poucos. Os fatos sobre eles, muitos. Um fogaréu estava no horizonte do café da manhã da nação. Todos morreram. A frase era um ricochete, eco em loop no céu da ansiedade que chovia sobre as oficinas da notícia improvisadas ao derredor. Ilhas de edição sussurravam nas vans. Ondas, streamings, links e interações tecnoloucas.

Estávamos e não estávamos ali. Entre os escombros se agitava o espesso veludo das obsessões. Eu conhecia aquele clima.

Da outra vez não tivemos como escapar da manchete: Acidente ou Atentado? A história agora se retorcia como farsa e como tragédia.

O pior acontecera. O pior estava a caminho. Para mim…

Há duas horas o celular vibrou dentro da rede, sob minhas costelas.

Sim? Um avião se espatifou. O avião pode ser o dele. É o dele… Eu acho… vá pra lá agora. A morte tão próxima, uma impossibilidade. É também sempre possível. E eis que em meio a esse possível há o transe de todos que sabem muito bem o que a morte dele representa.

As ameaças que aconteceram, a carga da pressão contínua, agora, acho que é o que está posto, parece que vão se apresentando as peças de um quebra-cabeças do qual a imagem que resultará da união de todas será o veredito em que um cadáver será a lente de aumento sobre a placa onde vermes e moscas se multiplicam.

Chego à cena. As televisões estão a mil. A conspiração é uma evidência opaca. Uma cena dentro de outra cena, escândalos concêntricos em que vida íntima e pública se misturam nas cinzas de uma tragédia.

O que fazer, como fazer, com quem fazer o meu trabalho naquele instante. As fontes me parecem suspeitas. A família tem muito a preservar. A filha apresentadora de TV talvez me diga alguma coisa, certamente está em choque, mesmo assim vou ligar pra ela. Acho melhor não, essa história toda, o pai, com quem ela me viu noites e noites no escritório de casa, envolvido numa trama, vítima?, certamente porque está morto. Vítima. De si próprio?

Como agora contar a história? A quadrilha vai assumir que executou o cara? A quadrilha do cara, o que será que está pensando?

Eu não estou pensando direito, preciso de anotações coerentes, vou gravar discreto um áudio com ela para usar de base da reportagem.

No Face, 332 mensagens, já me perguntam e agora? A tua cara como fica…Eu penso no que não posso revelar, o que é preciso desvendar, não acho que será o certo sonegar a informação crucial sobre o porque de tudo ter acontecido.

De que o público precisa? Da verdade com sua prosaica dimensão de mediocridade? Da história oficial que recontaremos em mil plataformas? Fico pensando nisso tudo enquanto o Uber me leva para a redação. Eu sei que é preciso dizer algo, alguma coisa coerente, o programa entra no ar em 15 minutos, acho que deixei meu off no carro…Ainda não consigo acreditar que ele está morto. Agora, com certeza as coisas vão mudar. Teremos ainda muito o que dizer sobre tudo.

Reproduzido do jornal A União, edição de 22 de janeiro de 2017.

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