Renato Russo é inspiração para entender a injustiça e a dor de uma morte no trânsito

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Vocês esperam uma intervenção divina, já que o judiciário está contra vocês. Vocês se perdem no meio de tanto medo de que a impunidade vença e um agente de trânsito tenha morrido em vão. E vocês fazem toda essa zoada nas redes sociais, ilusória, e os milionários e seu staff de advogados e desembargadores fingem não ouvir o estardalhaço e a indignação tomando conta do noticiário Paraíba afora. Mas acontece que a covardia e corrupção já foram postas à mesa. Se já estão servidas, eles irão saborear até que as vozes da agonia fiquem roucas. Eu tenho pena dessa tragédia anunciada.

O agente saiu de casa para trabalhar, beijou apaixonadamente sua esposa e não sabia que era o último que daria. Se encontrou com os amigos de trabalho e decidiram realizar uma blitz da Operação Lei Seca na rota que o destino traçou como seu fim. Que ironia… Foi na operação concebida para salvar vidas que ele perdeu a vida.

Foi a rota que Rodolpho (com ‘ph’ mesmo, para diferir dos reles ‘Rodolfos’ da classe média e baixa) usou para retornar para o conforto de sua casa. Talvez a noite dele tenha sido uma droga. Talvez ele tenha usado outras drogas além de álcool. Talvez.

Ele vinha lento em sua Porsche de cor branca e viu a barreira da blitz. Impávido, questionou “quem esses caras de colete amarelo são para me barrar no caminho de minha casa?”. Ao se aproximar, decidiu acelerar. Ele queria mostrar que sua Porsche tinha potência suficiente para passar por cima de qualquer um. E assim o fez. Ostentou, atropelou o agente sem olhar para trás. Seguiu para casa de painho e dormiu o sono dos justos. Ora, seu carro não era aqueles celtas ou Ford Ka que obedeciam a lei do bafômetro.

A cena era estarrecedora. Surreal para os presentes. O agente, que apenas estava trabalhando, jogado feito lixo em uma poça de sangue.

Mas vamos do lixo ao luxo. Rodolpho acordou e viu que o noticiário tomou proporções avassaladoras. Sentiu uma pontinha de medo e pediu ajuda a painho, titio, a família toda.

Diante das ameaças e do clamor de familiares, amigos do agente e de uma sociedade que amanheceu o sábado com notícia de algo tão assustador, Rodolpho sentiu medo de que fosse tratado como igual àqueles que são presos diariamente por cometerem crimes similares. Ele julgou que a fúria popular era uma bomba de nêutrons. E pensou: alguém, alguém vai vim aplicar a lei em mim, vocês são vermes, pensam que são reis, como eu e minha família?

Não, Rodolpho não quis ser como qualquer cidadão que comente crime e desce direto para Central de Polícia. Ele não precisa disso. E soube o que tinha que fazer: pediu socorro a painho e contratou o melhor advogado da cidade. Seu defensor fez seu papel direitinho. Emplacou antes mesmo de ser preso um habeas corpus preventivo. Ah… a serenidade no olhar de quem tem muito poder garantir direito de ir e vir, mesmo cometendo algo que dizem por aí que é crime apontado na Constituição. Que? Não! Vocês estão enganados. Ele é a lei. Ou molda a lei como convém.

São três personagens dessa história dramática, Rodolpho, o advogado e o desembargador, todos com dinheiro e sem moral que não ouviram os gritos do resto do mundo, que jorravam lágrimas. Vocês se esqueceram que o agente de trânsito, morto no domingo, não era rico e que por isso sua morte até agora não esteja sendo punida, como seria imediatamente se seu algoz fosse preto e pobre. Para Rodolpho, talvez esse agente nem seria digno de ter um nome, mas ele tinha e era Diogo Nascimento de Souza.

E de repente, as manchetes que só gritavam na província ganharam voz na mídia de toda a nação. Todos estupefatos em como o Brasil vive um momento em que se quer passar a limpo toda a corrupção, como acontece na política, com a operação Lava Jato, e o dinheiro conseguir instalar uma vez mais esse estado psicótico de impunidade que só faz crescer a descrença nas instituições. Que país é este?

Diogo morreu e a esposa não vê o caso como acidente. “Foi assassinato e ficar chorando em casa não trará justiça pelo meu marido”, ela disse. É… A ferida está longe de cicatrizar.

E Rodolpho, que se julgava limpo, se sujou. Mesmo com seu poder e dinheiro, Diogo não ressuscitará para abrandar a qualificação de seu crime… ops, sua brincadeira de ostentar seu Porsche de cor branca.

A hora é de lutar por igualdade de direitos. Ouçam a canção “Fátima”, composição de Renato Russo lá pelos idos dos anos 1980.

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