Maria Valéria Rezende sobre fazer literatura: “Quero continuar a ser livre”

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Maria Valéria segue levando a sua rotina sem muitas alterações após ser festejada como vencedora do prêmio Jabuti de melhor romance do ano pelo livro Quarenta Dias. Apesar de toda projeção conquistada desde então, algumas dificuldades seguem como complicadores da divulgação do seu trabalho.

Atualmente, por exemplo, não se encontram exemplares de Quarenta Dias nas livrarias de João Pessoa, a cidade onde a escritora vive. Além de ter vencido o Jabuti, a obra foi indicada como leitura paradidática para o vestibular da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) do ano passado, situação que também havia acontecido em 2008 com seu romance O Voo da Guará Vermelha e que se repetirá esse ano com seu novo livro Outros Cantos

“A grande dificuldade desse país é a distribuição. Mesmo eu tendo ganho o Jabuti, mesmo Outros Cantos tendo sido indicado para o vestibular você liga para as livrarias e não tem”, revela Valéria.

“Muito do mercado de livros está dominado pelas cadeias de livrarias e elas estão controlando o que vem e o que não vem. Como carregar o meu livro, ou cinquenta tons de qualquer coisa, o frete é o mesmo preço, então, é mais vantajoso eles trazerem muito, encherem o caminhão baú daquilo que vai vender fácil”, descreve sobre o processo de distribuição de livros no Brasil.

“Esse é o drama: um país imenso com uma péssima distribuição. Qualquer livraria aqui da Paraíba pra ter meus livros pra vende tem de pedir pra São Paulo e são no mínimo 15 dias pra chegar, é absurdo isso”, desabafa.

Sem rótulos

Ela expressa novamente sua rejeição a classificação de escritora regionalista, rótulo que teimam em lhe atribuir e que, nas palavras da própria, não faz sentido algum.

“Eu acho que esse é um rótulo que pode ter tido algum sentido há meio século atrás, mas que na verdade jamais me pareceu importante. O que você vive no campo e o que se escreve não existe separado (do território). Não existe a região contida em si mesma. Então, você classificar como regionalista… E o resto, o que é? Está fora de alguma região? ”, pontua.

“Não tem sentido nenhum mais isso hoje. Inclusive porque você está falando de um país que é continental onde são seres humanos integrais que estão vivendo em qualquer lugar. Essa mania de querer botar rótulo é uma maneira de afastar a concorrência. Hoje em dia não tem cabimento”, complementa.

Valéria reforça que as divisões classificatórias impostas pelo status quo do circuito literário são anacrônicas e inconsistentes, terminando por reforçar velhos arquétipos e preconceitos dos mais variados tipos.

“A literatura com letra grande, é a que escrevem os homens brancos de determinado região do Brasil. O resto é regionalismo, é literatura feminina, é literatura negra, é literatura da periferia, é literatura gay. Poxa, o que é que é isso?”, questiona

“Vocês podem notar que cada vez que sai a lista dos finalistas de algum prêmio vai aparecer assim ‘fulano, fulano, fulano entre outros’. O ‘entre outros’ são as mulheres e os escritores que vivem foram do eixo”, explica.

Maria Valéria é taxativa ao afirmar que a produção literária autêntica prescinde de qualquer rótulo. “Qualquer pecha, qualquer etiqueta que você acrescente à literatura você está dizendo que não é bem literatura, você está reduzindo a uma subespécie, então, fim de papo”.

O Jabuti e as denominações

Maria Valéria Rezende já havia lançado pelo menos outros 16 livros, entre romances, coletâneas de contos e crônicas e títulos infanto-juvenis, quando foi anunciada vencedora do Jabuti 2015 de Melhor Romance. Entretanto, como não figurava no circuito literário do eixo Rio-São Paulo e outras adjacências do establishment desse meio, não era suficientemente conhecida para ser citada nominalmente pela grande imprensa. Para ela, foi como se, de algum modo, ela permanecece anônima – mesmo sendo celebrada como autora de um grande feito.

“Quando saiu a notícia de que eu havia vencido o Jabuti de melhor livro do ano todas as manchetes de jornal eram assim: ‘freira bate Chico Buarque e Cristovão Tezza’, ou ‘veterana desbanca Chico Buarque e Cristovão Tezza’ “, descreve.

“O nome que estava era o deles, deselegante para com eles e para comigo. Eu continuava anônima. O que quer dizer ‘veterana’? Eu não sou tão mais velha do que eles e quem já tinha ganho Jabuti foram eles, então, os veteranos eram eles.  O que quer dizer veterana? ‘velhota anônima e anônima continua’ “, ela expressa com uma dose de crítica e de bom humor.

Liberdade

Valéria reafirma que não tem a literatura como algo condicionante, como uma missão ou obrigação.

“Já tenho 73 e já fiz um monte de coisas na minha vida que me realizaram, que ninguém nem sabe mas sei eu. Eu não me sinto obrigada a continuar publicando. Eu vou continuar escrevendo enquanto for possível, enquanto minhas mãos e meus olhos permitirem, se eu tiver vontade, se eu tiver tema”, esclarece.

“Não tenho um projeto de carreira. Tenho dois romances pela metade que eu gostaria de acabar e tenho um baú de contos, e tenho uma caderneta onde eu anoto os títulos, as sinopses e as personagens principais dos romances que eu provavelmente não terei tempo de escrever”, explica ela para falar de um livro inacabado que pretende dar continuidade.

É um livro “cuja escrita é difícil”, porque a proposta é fazer um romance narrado em primeira pessoa por uma mulher do século XIX e ao mesmo tempo com uma linguagem palatável no século XVIII e legível no século XXI. Valéria diz, no entanto, não ter um prazo ou compromisso ferrenho de escreve-lo.

“É um trabalho de linguagem bastante custoso e eu vou fazer pelo gosto de fazer, não tem hora marcada nem dia marcado, nem editor comprometido, nem nada. Quando tiver pronto vamos ver – se estiver pronto”, afirma.

Ela revela, contudo, que pode mudar ideia e fazer outra coisa completamente diferente. “Se eu resolver fazer outra coisa…  Eu ando com vontade de tocar piano. Eu toquei muito piano quando eu era menina e faz uns quarenta anos que eu não ponho a mão num piano. De repente eu vou resolver estudar piano ao invés de escrever”. A liberdade é o seu imperativo. “Eu quero ser livre, quero continuar a ser livre”, conclui.

 

 

 

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