Primeiros clubes, turfe e briga com o prefeito: o futebol da PB 100 anos atrás

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Cinco quilômetros. Era mais ou menos o que separava as duas grandes paixões desportivas dos moradores de João Pessoa em 1917, que naquela época ainda se chamava Parahyba. Em um lado da cidade, no Sítio do Roger (atual bairro do Roger), estudantes entravam em campo para defender a seleção paraibana de futebol contra um selecionado pernambucano, formado também por estudantes, que naquele ano tinham viajado à Paraíba para prestar exames para o ingresso no Lyceu Parahybano. O time da casa venceria por 2 a 0, com gols de Abrahão e Julio Rique. Do outro lado do centro pessoense, no Hypódromo de Jaguaribe (que ficava entre as ruas 1º de maio, Osvaldo Pessoa, Floriano Peixoto e Vasco da Gama), as corridas de cavalo (tradiconalmente chamados de turfe) começavam a disputar espectadores com o futebol e roubavam a cena dos boleiros nos jornais da capital. Com todo o seu glamour e as apostas que a cercavam.

É, afinal, um pouco dessa história de um século atrás que será contada agora, na data em que se comemora o Dia Nacional do Futebol.

A modalidade, que tinha chegado ao Estado há menos de 10 anos, tentava sobreviver naquele 1917. É deste mesmo ano que data a primeira grande controvérsia do futebol local. Isto porque até a gestão da então presidente Rosilene Gomes na Federação Paraibana de Futebol, aparecia nos registros da entidade que o primeiro campeão estadual havia sido o Colégio Pio X, justamente um século atrás. Entretanto, na atual gestão da entidade, de Amadeu Rodrigues, essas informações foram retiradas do site da FPF e desde então não consta mais nenhuma informação sobre quando foi que se deu exatamente o início das disputas do Campeonato Paraibano.

Na verdade, tudo começou em 1908. Segundo o livro “A História do Futebol Paraibano”, de Walfredo Marques, o esporte chega ao Estado por intermédio de alguns jovens paraibanos que estudavam no Rio de Janeiro e voltaram para passar férias em casa. Um deles, José Eugênio Soares (que viria a ser o pai do humorista Jô Soares), trouxe na mala uma bola. Assim, foi fundado o Club de Foot Ball Parahyba, dividido em duas equipes: Norte e Sul. O pontapé inicial foi dado em 15 de janeiro, no Sítio do Coronel Manoel Deodato, que ficava nas imediações de onde hoje é a Praça da Independência. Com o dono da bola, José Eugênio Soares, como um dos atletas em campo.

E em uma mistura de falta de tática e excesso de força, o novo esporte foi crescendo e virando febre entre os pessoenses, tanto que mesmo depois dos estudantes voltarem para o Rio, outros clubes foram surgindo nos anos seguintes, até que foi criada a primeira entidade em 5 de março de 1914. Era a Liga Parahybana de Foot Ball, que servia para orientar e disciplinar o número de clubes, mas que não organizava o campeonato.

O mais curioso é que o esporte era jogado de uma forma completamente diferente do que se pode observar atualmente. Para se ter uma ideia, havia um juiz de gol, mas não existia placar. Então, por trás de cada trave, era colocado um mastro para que quando fossem marcados os gols, pequenas bandeiras nas cores do time indicasse para que lado ele precisava ser anotado.

Como descreve Walfredo Marques, havia mais técnica pessoal do que trabalho de equipe. Por isso, quando um jogador pegava a bola era incentivado a parar apenas no gol adversário. Outra forma de se consagrar era dando o famoso chutão, ou sendo violento nas cargas:

“Era até considerado chic deixar a bola para carguear o inimigo que tentasse tirar a bola” , descreve o livro no linguajar típico da década de 1960, época de sua publicação.

A popularidade do futebol na capital era tanta que no primeiro interestadual, em setembro de 1914, entre as ligas Parahybana e Pernambucana, compareceram três mil pessoas ao campo aberto da Estrada dos Macacos, onde se encontram hoje as avenidas Coremas e Pedro II. Diante de uma banda de música, de autoridades e dos milhares de espectadores, os paraibanos venceram por 2 a 0.

Tudo ia bem, até que no primeiro trimestre de 1917, as corridas de cavalo foram introduzidas na capital, tendo grande destaque nos jornais. O público, então, começou a frequentar o hipódromo localizado em Jaguaribe, para torcer para o seu cavalo favorito.

Outro problema enfrentado pelos times era que, por causa de uma briga com o prefeito da Parahyba (atual João Pessoa), José Bezerra Cavalcanti, o local próximo à Praça da Independência havia sido interditado, pondo fim ao tradicional local de jogo de bola na cidade. Ainda assim, sobravam o campo do Roger, da Estrada dos Macacos e outro onde atualmente é a avenida João Machado.

Foi neste cenário que o Colégio Pio X foi campeão, exatamente um século. E apesar de ter sido considerado por muito tempo como o primeiro campeão estadual, o primeiro Campeonato Paraibano oficial só foi realizado em 1919, quando foi criada a Liga Desportiva Paraybana (precursora do que seria a FPF).

O primeiro jogo oficial organizado pela entidade foi em 25 de maio daquele mesmo ano e Cabo Branco venceu o Royal por 1 a 0. O interessante é que o jogo aconteceu extamente no Hypodromo, que já vinha recebendo partidas e passou a ser arrendado no início daquele ano para jogos de futebol.

As corridas de cavalo, que até chegaram a ameaçar o futebol, havia entrado em declínio até sumir da realidade paraibana para deixar o futebol reinar pelos próximos 100 anos. E não só na capital. Mas esta já é uma outra história. Informações do G1.

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