Opinião: união entre cinema, jornalismo e política resulta em documentário sobre Snowden

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    “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.  Essa famosa frase do escritor britânico George Orwel é a máxima perfeita para definir o efeito e a função social do trabalho da jornalista e cineasta Laura Poitras à frente da divulgação dos documentos ultrassecretos do sistema de monitoramento de dados por um sistema do governo dos EUA, que se revelou o maior caso de espionagem em massa da história e um escândalo enorme.

    Um personagem central para que essa história viesse à tona: Eduard Snowden. Laura, conhecida por seus documentários anteriores que revelam verdades indigestas para o establishment governamental americano, recebeu mensagens criptografadas de um usuário não-identificado que prometia a ela provas sobre algo bombástico envolvendo altos setores do governo.

    A fonte misteriosa pedia sigilo total e dava instruções de segurança para evitar que os contatos fossem rastreados. O codinome – ou nickname – que ele usava era Citizenfour, (Cidadão Quatro, em tradução livre), daí se explica o nome do filme. Enfim, eles se encontraram em Hong Kong, na China, e Snowden se relevou. Laura filmou horas de conversas com Snowden no quarto de Hotel em que ele ficava recluso na cidade chinesa. Outros dois jornalistas aparecem e se tornam parte dessa história: Gleen Greenwald – que também havia sido contatado por Snowden –  e o repórter Ewan MacAskill, que se incorpora ao grupo depois de feitas as primeiras revelações. Ambos trabalhavam para o jornal britânico The Guardian, o principal do Reino Unido e uma das publicações mais importantes do mundo.

    A narrativa do documentário segue o ritmo de um suspense, uma espécie de thriller político, porém, trata-se de uma história real e contada de forma muito sóbria, sem espetacularizações. Nesse caso, a realidade, por si, já vem carregada de sensacionalismo. Um amplo sistema de vigilância coordenado pela Agência de Segurança Nacional (NSA) americana para espionar dados privados de cidadãos e empresas dentro e fora dos EUA, abrangendo desde  e-mails pessoais, códigos de acesso, chamadas telefônicas até mesmo a tendência de tráfego virtual de usuários, com provas contundentes que revelavam detalhes de como essa espionagem é operacionalizada.

    O filme mostra a construção de uma grande base de armazenamento de dados feita pelo governo americano e revela detalhes da extensão da rede de captação de informações. O Brasil é mostrado em vários momentos devido a Gleen Greenwald residir na cidade do Rio de Janeiro, junto com seu companheiro David Miranda. Ele revela ao jornal O Globo detalhes sobre a espionagem feita a cidadãos e empresas brasileiras.

    Citizenfour funciona como um alerta contra um totalitarismo de Estado alicerçado no controle de informações através de um sistema amplo, que obstrui a privacidade de centenas de milhões de pessoas, empresas e organizações diversas, vilipendiando o princípio de liberdade e isonomia na troca de informações. O enredo do filme poderia ser de uma ficção mirabolante, mas ganha toda a força de uma história real e muito viva. Remete, voltando a Orwel, ao livro 1984, que retrata uma sociedade totalitária, sob controle de um Grande Irmão cujos olhos eletrônicos tudo veem. O Big Brother moderno é uma realidade que ameaça.

    O filme é um verdadeiro manifesto pelas liberdades individuais e coletivas e pela democracia. Eduard Snowden foi perseguido pelo Governo dos EUA e é acusado de vazamento ilegal de informações sigilosas, passou mais de um ano com sua situação diplomática indefinida até que a Rússia aceitou oferecer asilo político, o que causou grande atrito com Washington. Laura Poitras se exilou na Alemanha por não se sentir segura em solo americano, devido as intimidações constantes e ameaças veladas que recebeu. Seu Citizenfour foi vencedor do Oscar 2015 de melhor documentário e atesta como a união entre cinema, jornalismo, engajamento político – e muita coragem para subverter os poderes vigentes – pode ser libertadora e,  literalmente, fazer história.

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