Opinião: “Discutir liberdade é também oportunidade de fazer poesia”

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Por Walter Galvão, editor do jornal A União

Censura, nunca mais – Discutir liberdade é também oportunidade de fazer poesia. É uma palavra que rima com dignidade, com verdade… O “também” pressupõe obviamente outros processos sensíveis e racionais, emotivos e intelectuais que rolam num debate sobre esse tema precioso e delicado.

É uma discussão que ao mesmo tempo remete às ansiedades mais profundas da pessoa (o ser livre de constrangimentos de qualquer ordem), mexe em feridas dolorosas da história (absolutismo, escravidão, opressão, manipulação), informa sobre níveis de compreensão da vida em comunidade (plenitude da autodeterminação da consciência frente ao outro, ao diferente) e reivindica um lugar de poder no cotidiano (cidadania crítica, igualdade de gênero…).

Alguém está de posse de sua liberdade. Então, essa é uma pessoa historicamente habilitada, sujeito e objeto de direitos. E de obrigações.

Falta liberdade a determinada sociedade. Nesse caso, intuímos: há uma consciência infeliz que rege os destinos dessa gente, comunidade mutilada em sua essencialidade, violentada naquele espaço evolutivo espiritual de onde brota a consciência plena do agir para o atendimento de necessidades.

Há o pressuposto, no caso da ditadura, de que um horror oprime desmaterializando na atmosfera moral do espaço e do tempo e subjuga fisicamente em sua materialidade objetiva sob um pacto supostamente legal.

A literatura de Kafka e de Orwell nos dá uma representação dessa fantasmagoria opressiva em que se transformam os usos do poder para assegurar a liberdade de uns em detrimento da liberdade de muitos. Da mesma forma, “Ilíada” e “Odisseia” projetam a elaboração uma ideologia expansionista que cristaliza um padrão de liberdade para um tipo de cidadania.

Nessa mesma perspectiva, Machado de Assis radiografou sentidos e sentimentos de liberdade. Em “Esaú e Jacó”, Machado dimensiona ficcionalmente o impacto que o sentimento de liberdade produz nessa expansão do humano político típica da modernidade que foi a proclamação da República entre nós.

Daquele momento histórico até hoje, a liberdade, que para Hegel era a verdade do espírito; à qual estamos condenados, na compreensão de Sartre; e que dimensiona o humano, na célebre afirmação de Jean-Jacques Rousseau, tem sido uma dura conquista da sociedade brasileira.

Entre as tapas das ditaduras, e os beijos dos militantes e idealistas na democracia, nosso espaço social garante aos grupos e aos indivíduos, apesar das desigualdades e com as contradições e limites de praxe, um usufruto de liberdades públicas que nos sintonizam com o palco ideal republicano da pós-modernidade onde podemos, ou deveríamos, nos expressar livremente.

Daí, a mim me parece absurdo que alguém tenha pretendido censurar a música “Metralhadora”, da banda baiana Vingadora, ao mesmo tempo em que há uma mobilização para proibir uma nova edição no Brasil da autobiografia de Hitler, “Mein Kampf”. E isso depois de o país ter se livrado na Justiça da intenção censória dos que queriam impedir que se escrevessem biografias não autorizadas de personalidades históricas. A censura à imprensa, a músicas, filmes e livros, entre outras formas de criação, é a expressão de uma miséria cultural que os brasileiros, mesmo os de inclinação fascista, não merecem nem precisam. Estamos politicamente maduros. Não devemos, nem podemos, apodrecer com qualquer tipo de censura.

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