Opinião: Curta registra reencontro de pessoas que combateram regime militar em Catolé do Rocha

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    No início de 2014 fiz parte da equipe do filme Praça de Guerra, documentário de curta-metragem cujo roteiro e direção são de um amigo meu, Edmilson Junior. A produção conta a história de cinco jovens que participaram da organização de um levante contra o regime militar, em 1969, no município de Catolé do Rocha, alto Sertão da Paraíba. Mais de 40 anos depois eles voltaram a cidade para um reencontro – registrado no filme – em que fazem relatos desse episódio.

    Foi uma experiência única estar presente no set de filmagens e acompanhar de perto todo o processo criativo e técnico de captação de imagens, sons, o arranjo das sequências, a disposição das câmeras, os planos, enquadramentos, imprevistos surgidos, perrengues e situações inusitadas. Vi a magia do cinema acontecendo nos bastidores, comigo fazendo parte dela.

    Para além disso, a história retratada no filme é muito singular. Jovens rapazes no Sertão da Paraíba dos anos 1960, numa cidade dominada pelo coronelismo e por uma cultura tradicionalista, influenciados pelos ideais revolucionários resolvem iniciar uma guerrilha, sobem a Serra do Capim Açu (na zona rural de Catolé do Rocha) e passam dias treinando para o levante.

    O ímpeto da juventude junto à convicção política de ir contra a ditadura militar em seu momento mais duro, pouco tempo após o AI-5, quando se perseguia, matava e se torturava indiscriminadamente no Brasil, demonstra o espírito rebelde da chamada “geração vira-mundo”, que ousou transgredir, romper com a cultura do tradicionalismo, com a tirania e a truculência autoritária.

    A história narrada pelas personagens do documentário, Edmilson Azevedo, Gildásio Fausto, José Salustriano Neto, Luiz Gonzaga e Ubiratã Cortez, os cinco jovens, hoje velhos amigos, camaradas “veteranos de guerra”, é ilustrativa de uma geração que, em todo mundo, questionou os valores vigentes do status quo e tentou promover rupturas e mudanças nos âmbitos político, cultural e social. As marcas dela permanecem vivas na cultura contemporânea, sendo necessário que essa identidade e essa memória sejam resgatadas. O filme de Edmilson é um dos que fazem isso.

    Praça de Guerra é um registro de um período histórico até hoje emblemático, pouco discutido. Feito a partir da experiência humana, dos relatos sobre as vivências pessoais e as identidades de sujeitos envolvidos na resistência à ditadura, o filme traça uma radiografia de uma época em que sonhar, ir à luta e arriscar a vida por uma causa eram imperativos e sintomáticos da juventude politicamente engajada.

    Entre as cinco figuras humanas retratadas no filme, uma diversidade de caminhos. Edmilson terminou doutorado e se tornou professor da UFPB, Luiz Gonzaga, um dos irmãos mais velhos de Chico César, foi para São Paulo e se tornou um dos principais líderes do movimento por moradias, Gildásio é bancário aposentado assim como João Salustriano, conhecido pelo nome de Neto Boca Rica. Ubiratan Cortez ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores em Catolé do Rocha, foi candidato a prefeito da cidade em 1982, com direito a Lula no palanque. Hoje vive cercado dos filhos e netos. Um ponto em comum entre eles? A crença na mobilização política, no poder popular, que emana do povo.

    O cinema como documento histórico e humanístico, que resgata a memória e a identidade dos indivíduos e, por tabela, da sociedade como um todo, é um dos melhores instrumentos para promoção da cidadania. O valor artístico já vem embutido na obra cinematográfica de forma indissociável, de modo que a abordagem de temas dessa natureza é uma espécie de diferencial.

    Praça de Guerra, sem dúvidas, é também uma produção que tem esse caráter de singularidade – embora seja modesta e despretensiosa. O lançamento acontecerá nesse sábado, dia 18 de julho, em Catolé do Rocha. Em agosto está prevista uma sessão em João Pessoa. Uma excelente oportunidade para quem quer conhecer um pouco mais sobre uma época peculiar da história brasileira e também sobre as vivências e experiências emocionais de pessoas que estiveram no epicentro disso tudo e que ajudaram a construir a liberdade e a democracia a qual desfrutamos hoje – e que permite eu escreva esse texto.

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