Opinião: De forma experimental, ‘Claustro’ revela olhar de quem vive em situação de confinamento

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    A experiência do confinamento num espaço físico e a relação com seus elementos: um trinco de porta, os reflexos luminosos, a chave que balança por alguns instantes, o interruptor, a torneira da pia do banheiro, a estante de livros, tudo que compõe o quadro da percepção de um ambiente. Como isso se relaciona com você, que mensagem comunica diariamente?

    A concepção do filme Claustro, projeto experimental do cineasta e filósofo Tiago Penna, parte dessa premissa, que por sua vez veio de uma experiência pessoal vivenciada através de um apartamento em que ele morou durante a escrita da sua dissertação de mestrado em filosofia na UFPB. Tendo de ficar longas horas seguidas sozinho no local, sem ver ou conversar pessoalmente com outras pessoas, dedicado a leitura e a escrita, Tiago estabeleceu uma relação intrínseca com esse ambiente, de contemplação e absorção dos elementos presentes no espaço.

    O apartamento é a personagem central do filme, seu protagonista. Vemos um passeio audiovisual sobre recantos, objetos, pequenas ações como abrir e fechar a geladeira, frigir de ovos numa frigideira,  sons como o barulho de uma máquina de lavar, tudo ao som de uma trilha instrumental de linha intimista, que envolve e vai conduzindo as imagens. Junto a essas ferramentas há ainda a inserção de citações filosóficas e literárias permeando a narrativa, trazendo outras significações.

    Um curta-metragem de ficção, com alguns aspectos de documentário e que reúne uma simbiose de elementos narrativos: som instrumental, imagens contemplativas, fragmentos de texto, ambiências cotidianas. O experimentalismo visual de contar uma história sem personagens humanas, mas que dialoga diretamente com questões eminentemente subjetivas. Ganha sentido a intenção expressa pelo diretor quanto a proposta do filme que, segundo ele, é realizar a ”adaptação da filosofia para o cinema através da poesia”.

    Claustro possibilita uma imersão sensorial e de percepção visual dos detalhes e caracteres de um lugar, um diálogo com seus aspectos particulares e ambiências poéticas. Dividido em três atos –  I Contemplação, II Fluxo Dialético e III Caos Apoteótico – o filme traz as dimensões presentes no convívio com um mesmo espaço fechado: da quietude, de contemplar e absorver os detalhes, de refletir e captar as mensagens rotineiras – ter insigths, da agitação caótica das pequenas ações – as combustões presentes em atos aparentemente banais.

    Participei da equipe de Claustro e acompanhei de perto o processo de construção do filme, cena por cena. Um trabalho minucioso, feito sem recursos, de forma colaborativa e que, não obstante, tem um tratamento arrojado e um verniz profissional, resultado do empenho de um grupo de profissionais experientes e completamente engajados. A energia criativa foi e a força da vontade foram os eixos norteadores.

    Os pequenos detalhes são a base da qual parte o filme: o macro emerge do micro. As minúcias se aprofundam desde que se permita vê-las, que os olhos se abram, que se busque e, sobertudo, que se sinta. Claustro é uma janela, um olho poético-cinetográfico pelo qual vislumbramos um universo que nos é visível mas que nosso cotidiano frenético e apressado veda. Nas palavras da centenária poesia de Olavo Bilac, encontra-se uma descrição perfeita que serve para ilustrar a experiência do filme:

    Do claustro, na paciência e no sossego,
    Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!
    Mas que na forma se disfarce o emprego
    Do esforço: e trama viva se construa
    De tal modo, que a imagem fique nua
    Rica mas sóbria, como um templo grego

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