Opinião: Ausências, vazios que gritam, polifonia do silêncio são ingredientes de trilogia de Bergman

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    O cinema de Ingmar Bergman é uma viajem nas profundezas da alma humana através de imagens em movimento, sons, diálogos, luz e sombra que compõem uma narrativa única. Poucos conseguiram imprimir uma identidade em suas obras, uma marca inconfundível que revela ao espectador quem é o diretor do filme sem precisar ver nos créditos. Bergman é definitivamente um deles, num grupo seleto no qual se encontram outros mestres realizadores como Jean-Luc Godart, François Truffaut, Frederico Fellini, Alfred Hitchcock, John Ford e contemporâneo Almodóvar.

    Entre as muitas obras-primas de Bergman que são clássicos da história do cinema, como O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros e Persona, está uma sequência de três filmes denominada Trilogia do Silencio, também conhecida como Trilogia da Fé. Nela, o diretor sueco aborta questões como a não-comunicação entre as pessoas, dilemas sobre fé e religião, a morte e sua inevitabilidade, a busca de sentidos para a existência humana.

    Começando com Através de um Espelho, em seguida Luz de Inverno e completando com O Silêncio, a trilogia de Bergman suscita reflexões diversas e as deixa em aberto. Não é intenção trazer respostas peremptórias, mas provocar o espectador a se autoquestionar. Os questionamentos trazidos à tona nesses filmes refletem os dilemas da humanidade em busca de um eixo, de algo pelo que viver e direcionar seus esforços.

    Através de um Espelho mostra o drama de uma família composta pelo pai e seus dois filhos –  um rapaz e uma moça, dois jovens – que acompanha a deterioração progressiva da saúde mental da filha mulher, que sofre com os efeitos de um transtorno psíquico que a faz ter alucinações. À medida em que o pai toma ciência da complexidade do quadro da filha, vai se revelando para ele a ausência da divindade e a fragilidade dele e da condição humana diante de uma realidade dura e corrosiva. Ele não mais consegue ignorar o que se passa.

    O título do filme remete à 1ª Epístola do apóstolo Paulo aos Coríntios (“Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas depois veremos face a face…”, Coríntios 13:11). Karin, a filha em questão, está recém-chegada de um internamento e crê que Deus se encontra atrás da porta do sótão da casa, mas o que há na verdade é uma aranha pequena. Os dilemas e anseios dela se direcionam a expectativa da chegada da Divindade, que atravessará a porta e se mostrará, face a face.

    Luz de Inverno retrata a rotina de Tomás, um pastor de uma pequena cidade que lida com uma crise na sua Fé. Sente-se incapaz de estabelecer um diálogo franco com os fiéis da comunidade e não consegue trazer conforto e esperança a um suicida que começa a desacreditar da existência de Deus. Paralelamente, lida com distância e uma certa hostilidade a paixão devotada que Martha, uma das leigas, tem por ele. Viúvo, ele não se conforma com a perda da esposa e se fecha a qualquer possibilidade de envolvimento mais concreto. A impossibilidade de ver, compreender e, consequentemente, ajudar o outro, a resistência em aceitar o amor, o vazio do silêncio retumbante, sem repostas ou sinais divinos, sem atenuante ou disfarce: apenas a vida crua e a fragilidade do ser humano.

    O Silêncio, obra que fecha e dá nome a trilogia, mostra duas irmãs que viajam junto com o filho de uma delas e se hospedam num hotel de uma cidade europeia insólita. Vê-se a relação de poder de uma tentando controlar a outra, a incomunicabilidade entre eles em meio a uma ligação de afeto que passa pelos vínculos de afeto familiar entre duas irmãs, mãe e filho, tia e sobrinho. O menino não acessa a crise e busca os escapes em seu universo lúdico.

    As três obras cinematográficas estão interligadas, mas são também independentes. Podem ser vistas separadamente, mas se entrelaçam nas temáticas, referências e significações. Há inerente ao silêncio diversos sentidos. Nos três filmes Bergman transmite a mensagem da essencialidade da coexistência, de se relacionar e conviver com o outro, que é no ser humano que se encontra a verdadeira divindade e o isolamento só nos afasta dela e nos aproxima do fim.

    Há no silêncio uma polifonia, isto é, várias significações e discursos que se sobrepõem e comunicam algo. Na Trilogia do Silêncio essa mensagem se dá nas ausências, na não-comunicação entre as personagens, nos vazios que gritam, repletos de ruídos e emoções contidas, no silêncio do Divino, que coloca o os indivíduos à deriva de si mesmos. Bergman nos conduz com sua narrativa densa, reflexiva e demasiadamente humana. Unindo o cinema das imagens, planos, luzes e enquadramentos, sequências suaves e contemplativas aos diálogos existencialistas e corrosivos, ele nos transmite uma mensagem que transcende e é atemporal: não há existência longe do outro. É conversando, amando, compreendendo e convivendo que se constrói a trajetória da vida.

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