No Aruanda, Fernando Morais defende Chatô: “ele não era um gangster”

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    Uma mesa de debates que pode ser chamada de antológica – e até mesmo histórica – aconteceu no segundo dia de programação do 10º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro.  Para discutir o filme Chatô – O Rei do Brasil, que abriu as exibições do Festival, foram reunidos os professores Chico Pereira (UEPB) e Monique Cittadino (UFPB), o ator Marco Ricca, protagonista do filme, Guilherme fontes, ator e diretor, o escritor Fernando Morais, autor da biografia de Assis Chateaubriand e o ator consagrado Lima Duarte, que conheceu o Chatô e trabalhou diretamente com ele na TV TUPI. Participaram também o cineasta paraibano Vladimir Carvalho e o músico Geraldo Vandré, fazendo intervenções mais breves. O debate foi realizado no auditório do Hotel Sapucaia, que fica na orla da Praia de Tambaú.

    Com uma mesa composta por figuras tão singulares – e brilhantes –, cada uma em sua área, a conversa fluiu e envolveu o público, mesmo com o atraso de mais de uma hora e meia em relação ao horário estipulado para o início. Discussões sobre o perfil tropicalista de Chatô, situações irreverentes e absurdas envolvendo essa personagem histórica tão rica e relevante para a cultura brasileira, relato de casos de quem conviveu muito próximo a ele, caso do ator Lima Duarte, a ambiguidade latente que seu perfil humano, político e social apresentavam, também diálogos sobre cinema e arte deram a tônica do debate.

    Fernando Morais falou sobre as ambivalências e contradições que cercam a figura de Assis Chateaubriand. Autor de diversas biografias de personagens notáveis, Morais enfatizou que Chatô era mais complexo e singular que uma visão maniqueísta pode abranger. Era ousado e irreverente, quebrava paradigmas e fustigava os poderes da alta aristocracia, mas também era um legítimo expoente e referendador do poder dominante, tinha atitudes violentas e desonestas, sendo acusado de praticar gangsterismo, algo que Morais refuta.

    “Ele não era gangster. Tinha algumas atitudes que podem ser consideradas como de um gangster, cometia abusos, mas sempre com um toque de molecagem. Esse era o lado saboroso dele”, defendeu o biógrafo e citou, em seguida, uma história em que Chatô levara um carro cheio de vagalumes para frente do Copacabana Palace só para soltá-los, exibir à vista da janela do quarto de sua amada e iluminar a noite dela como uma espécie de declaração de amor. Esse episódio, demonstrava, segundo Morais, o lado sensível e romântico de Chateaubriand. “Esse era o Chatô. Mas esse era o mesmo Chatô que mandou castrar um homem rico porque não quis lhe fazer uma doação. Esse era o Chatô, assim como o outro também era o Chatô”, ressalta o escritor. “Ele era mil figuras num homem só”, conclui Morais.

    O diretor do filme, Guilherme Fontes, falou sobre algumas polêmicas envolvendo a abordagem que filme faz de alguns personagens reais, como o presidente Getúlio Vargas. Fontes destacou que construiu uma representação ficcionalizada da história que leu na biografia de Fernando Morais. Segundo ele, o filme utiliza elementos factuais e realistas para construir sua própria narrativa. “Esses personagens serviram apenas para a construção da minha estória, da minha fábula, com fundos históricos, com fundos reais. Eu fui, de alguma forma ou de outra, mostrando a minha paixão pelo Brasil, a minha paixão pela personagem”, justificou Guilherme.

    Ele falou ainda, no debate do Aruanda, do difícil processo de concepção artística do seu primeiro filme e sobre perseverança em concluir a produção em respeito a toda equipe que se dedicou a esse trabalho. “Para chegar aos pés da obra do Fernando Morais ou do que o Chatô representou para o Brasil, realmente é uma tarefa insana. Nem sei como consegui chegar direito ao final. Eu só sei que eu não podia desistir apenas porque uma ou outra pessoa não estava interessada que eu chegasse ao final. Eu tinha uma tarefa, um compromisso. Meus atores, técnicos, diretores de arte, figurinistas, todas essas pessoas que dedicaram esse tempo incrível, que tiveram a oportunidade fazer um trabalho incrível, eu não podia decepciona-los. Eu tinha de concluir e eu só podia concluir da maneira como eu pensei e não como queriam que eu realizasse o filme”. Respondendo a uma pergunta feita pela realizadora paraibana Kalyne Aimeida sobre a dica que daria a quem se propõe a fazer cinema no Brasil diante do pouco investimento e da burocracia dos incentivos públicos, o ator e diretor foi assertivo. “Só tenho um conselho: não desista!”.

    Paraíba

    Perguntado sobre o simbolismo de lançar o Chatô – O Rei do Brasil, na Paraíba, terra de origem do personagem-protagonista e que é citada e representada de forma contundente, o diretor Guilherme Fontes foi novamente assertivo. “ A alma desse filme sempre foi a Paraíba. Não tem saída, esse primitivismo de Chateaubriand, esse cara que veio desse lugar pra ganhar o mundo. Não tinha como não fazer essa referência, essa homenagem. Tanto é que esse foi o único festival aqui no Brasil que o filme vai rolar”, ressaltou ele sobre a inclusão de Chatô na programação do 10º Fest Aruanda.

    “Era importante pra mim vir aqui com o filme devido a esse protagonismo que (o lugar) tem no filme. A homenagem a Paraíba em algumas sequências é sem dúvidas um carinho e um respeito que eu tenho pela Paraíba e pelas origens da personagem”, concluiu Guilherme.

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