Não é raro nos depararmos com famílias inteiras sentadas na frente das suas casas, nas calçadas, quando a noite chega. Isso é comum em cidadesdo interior da Paraíba. Principalmente no Sertão. Boas e longas conversas. Um bom carteado ou dominó. Também em bairros populares como a Ilha do Bispo, em João Pessoa, é muito comum. Um hábito que bate de frente com a solidão das grandes metrópoles. Ou mesmo dos bairros mais abastados em cidades médias. Não se vê isso no Altiplano. As mansões e os poleiros de luxo não abrem as portas. Guardam segredos inconfessáveis, às vezes. Os mais ricos colocam uma muralha histórica nas relações humanas. Vivemos hoje num mundo de portas fechadas, muros altos, cercas elétricas esistemas de monitoramento. Claro, tudo isso porque a segurança pessoal é um negócio bastante lucrativo. A indústria do medo condena as famílias ao regime deprisãodomiciliar. Há décadas a segurança pública virou desafio nestepaís desmantelado. No fundo as pessoas vivem em prisões psicológicas e o medo é um sentimento que se espalha feito erva daninha.

Fala-se que bairros como a Ilha do Bispo são perigosos. No entanto, chegando por lá até mesmo altas hortas da noite, nos deparamos com uma intensa alegria popular. Adultos, crianças e idosos convivendo amorosamente nas calçadas. Uma alegria e uma esperança que os moradores das torres de marfim do luxuoso bairro do Altiplano, nem sonham. Esses poderosos senhores dos anéis, por muitos motivos e com sobras orçamentárias para colocar os filhos nas escolas mais caras, não se relacionam fora das suas coberturas. Não conhecem as alegrias das ruas. Optaram pelas gaiolas luxuosas desse tempo de muitas relações suspeitas. Como diria Cátia de França, “são um bando de canários presos em belas gaiolas.” Há um imenso simbolismo nisso. Vivemos tempos de apartheid social escancarado.

Vamos ver um caso específico. Em Piancó, a família Leite reside num lugar estratégico. Exatamente em frente à Câmara Municipal da cidade. Aquela mesma Casa Legislativa onde o presidente comprou um bafômetro para medir a embriaguez de alguns vereadores. Dizem que havia quem levasse para as sessões, litros de uísque. Algo que entrou no folclore do Vale do Piancó. Pois bem: diariamente o mecânico e músico Marcelo Leite, cujo nome artístico é Marcelo Milk, senta em frente da casa com as irmãs e vizinhos. As conversas passam pela política, pela arte, pelos processos criativos e pedagógicos desenvolvidos na cidade. Conhecida como “a Calçada da Fama”, a frente da casa da família Leite é uma festa desde os tempos do velho e saudoso Mestre Severino. Coração imenso, a família acolhe os que passam. É ponto obrigatório para o menestrel Chico Jó, há anos.

Residência da família do amigo, músico da Orquestra Sinfônica da Paraíba e professor aposentado da UFPB, João Leite, o local se transformou num templo de reflexões cotidianas. Lugar de reuniõespermanentes entre artistas, intelectuaise outros beradeiros que, na informalidade dos dias, vem gerando uma relação intensa com ampla repercussão na cidade. Se diz que na calçada dos Leite, os debates são bem mais frutíferos que muitos dos embates estéreis no prédio em frente. Pelo menos em relação às inquietações culturais, não temos dúvidas. A alegria venceu o medo e a democracia da “Calçada da Fama” é sempre regada à cerveja ou café. Não raramente, até amanhecer o dia. Logicamente, com os cuidados de uma produção culinária que deixa no chão muitos restaurantes caros onde nem sempre se oferece a contrapartida mínima dos 10% de necessário acolhimento.

Cada vez que vou à Piancó recebo aulas de cidadania. Aulas de sociologia e até mesmo de antropologia são cotidianas na “Calçada da Fama”. Por lá se encontra Aurea Barros, uma das fotógrafas mais sensíveis e eruditas que conheço. Por lá o sorriso de João Leite é mais aberto, conjugado com as portas sempre abertas. Lições de felicidade repartida são espalhadas e escorrem pelos ladrilhos da calçada. O fusca envenenado de Marcelo, com a enorme estampa dos Beatles revela uma profunda conexão com tempos onde Piancó resguardava sua identidade. Até mesmo o Sol que diariamente produz um espetáculo indescritível no Mirante de Santo Antônio, se rende ao acolhimento caloroso de uma família que simboliza os melhores sentimentos de humanidade que iluminam a esperança diante de um caos cotidiano que engole o melhor de cada um de nós.

 

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