Multifacetado e referência no universo musical, paraibano Zé Ramalho completa 66 anos

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    Nascido em Brejo do Cruz em 1949, José Ramalho Neto comemorou 66 anos de uma carreira pontuada de sucessos neste sábado, dia 3. Zé Ramalho, como é popularmente conhecido no universo musical, é um artista que assume entre suas influências musicais desde elementos da cultura nordestina até mitologia grega, passando pela Jovem Guarda, Beatles, Rolling Stones, Raul Seixas e, acreditem, histórias em quadrinhos. Tanta diversidade contida em sua música só poderia influenciar poetas e músicos de uma forma geral.

    O piauiense radicado na Paraíba, Beto Brito, é um deles. Ele assume que um dos artistas que mais lhe influenciou foi Zé Ramalho. “Eu tinha apenas dezesseis anos quando decidi ganhar o mundo e tentar ser artista depois que abri o vinil “Avohai” em 1998, e me deparei com aquela figura mística, envolvente, com uma voz faiscante, rasgada, viajando em bólides encapuçados e me fazendo tentar descobrir esses mistérios que caem sobre nós entre o céu, a terra e o mar”, afirmou.

    “Avohai” é a música que abre o disco de estreia “Zé Ramalho”, em 1978. 

    “Como se não bastasse, depois disso “A peleja do diabo com o dono do céu” colocou ainda mais perguntas na minha cabeça. Quem é Freud e Zé Limeira? O que é mote, galope à beira mar? Onde fica o Jardim das Acácias? Isso foi um golpe baixo para um jovem semi-analfabeto, sem instrumentos e sem toca discos, salvo pelo vizinho. Hoje o Zé é meu parceiro, compomos “Correio da noite” faixa do meu disco mais recente e cantamos juntos no “Imbolê” em 2005. A inquietude de Zé Ramalho mexeu comigo e vai mexer sempre”, reconhece Beto Brito.

    “Correio da Noite”, faixa homônima ao disco de 2014 de Beto Brito foi composta em parceira com Zé Ramalho.

    Amigo e parceiro de Zé Ramalho, o músico Hugo Leão conta que conheceu o autor de “Admirável Gado Novo” desde os anos 60, quando Zé começa a compor as primeiras músicas. Uma delas, “Chegou ao fim”, Hugo acabou de lançar e que era ainda inédita. “São 50 anos de convivência e nos consideramos irmãos pelo tempo de serviço e amizade”, diz.

    Ele acrescenta que gosta de todas as músicas de Zé Ramalho. “Vila do Sossego” , “Jardim das Acácias” são músicas que gravou com ele antes de Zé chegar na CBS. “E tem a minha parceria com ele na música (Botas de Sete Léguas) que muito me orgulha” . Hugo lembra, também, da parceria no LP “Coração de Brasil”, que Zé produziu e fez alguns arranjos de base.

    O paraibano Paulo Vinícius é outro que não nega a influência de Zé Ramalho em seu trabalho musical. Sua relação artística com a obra de Zé Ramalho é fruto da admiração e identificação com o estilo. É coisa que vem de longe, segundo ele, e vem lá do primeiro LP da discografia oficial de Zé, comprado numa antiga loja de discos chamada Olacanti e que lhe chegou às mãos de presente do amigo e parceiro Flavio Eduardo Fuba, nos idos de 1977, quando ainda eram estudantes de engenharia na UFPB – Campus de  Campina Grande.

    “Eu tinha só 17 anos e havia uma efervescência cultural em plena atividade em Campina Grande naquele tempo. A música e o estilo de interpretação de Zé Ramalho representavam algo de muito instigador e inédito no mercado, como bem disse, tempos depois, Jorge Mautner”, recorda.

    “Orquídea Negra” é composição de Jorge Mautner e foi faixa-título de um disco de Zé Ramalho, em 1983.

    Paulo Vinícius conta que só muito tempo depois é que foi conhecer Zé Ramalho pessoalmente, entre 2002-2003, através de Hugo Leão, de quem Zé já era grande amigo e também parceiro desde a adolescência. “Foi Hugo que ajudou a fazer essa ponte entre mim e Zé. Até então, com a ajuda de Ricardo Anísio, eu só tinha tido um ou dois contatos com Zé por telefone. Essa falas aconteceram durante a produção do meu primeiro álbum – Outubro – Um Tributo a Zé Ramalho, lançado 13 anos atrás, exatamente no dia 3 de outubro de 2002. Lembro que eu estava na redação do antigo jornal O Norte e Ricardo me apareceu com um telefone na mão dizendo que Zé Ramalho queria falar comigo. Foi quando ele me disse que havia escutado o master e tinha gostado, aprovava e liberava todas as suas canções para o meu Outubro. Aquilo era tudo que eu queria ouvir”, ressalta.

    Paulo confessa que a música de Zé Ramalho sempre teve e sempre terá grande influência nos seus trabalhos. Ele reconhece que no começo, havia uma “dependência” justificadamente maior. “Afinal, se hoje eu tenho algum reconhecimento como compositor e intérprete é porque lá atrás, quando eu estreei nos palcos, eu fazia covers dos sucessos dele. Isso me deu visibilidade e oportunidade para eu me lançar mais tarde como autor. E é claro que nesse processo criativo o autor bebe de muitas fontes, somos todos produtos de nossas influências e aquelas que mais nos dizem, sempre são, por consequência, as que mais estão presentes em nossos trabalhos”, enfatiza.

    Nesses quase 15 anos de produção independente, Paulo Vinícius conseguiu já ir além do que imaginava no começo. Tem cinco álbuns lançados, entre eles um que é totalmente autoral, alguns singles, alguns videoclipes, mas como “Outubro” é o trabalho primeiro e é o que mais tem a marca da influencia de Zé Ramalho. “Trata-se de uma homenagem explícita ao mestre da Pedra de Turmalina. Foi um trabalho minucioso de pesquisa para harmonizar sete grandes sucessos de Zé com outras oito grandes canções de diversos autores como, Cátia de França, Renato Teixeira, Hugo Leão, Hélio Contreiras, Bráulio Tavares, Jaiel de Assis e Pedro Osmar, Fuba, além de uma faixa autoral em parceria com este último. O título Outubro foi escolhido por sugestão de Pedro Osmar. Tudo a ver com a sonoridade da palavra, o mês do aniversário do homenageado, e uma alusão ao filme revolucionário de Serguei Eisenstein – afinal, o lançamento do nosso Outubro “seria uma revolução”  dizia Pedro para mim em tom encorajador em nossas conversas meses antes do dia do lançamento”, detalha.

    Provocado a escolher a música preferida de Zé Ramalho, Paulo Vinícius sai pela tangente. “Uma música só eu não conseguiria eleger. Isso me traria grande remorso por muitas outras”, acrescenta.

    Multifacetado, além de gravar discos tributos em homenagem a Bob Dylan e Raul Seixas, Zé Ramalho se apresentou no Rock in Rio com a banda Sepultura, em 2013.

     

    UMA CARREIRA PONTUADA DE SUCESSOS

    Zé Ramalho gravou seu primeiro álbum solo em 1977 e o título era justamente seu nome. Antes, em 1975, gravou “Paêbiru”, com Lula Côrtes, disco que até hoje virou raridade e é disputado no mercado negro. Em 1979, lançou “A peleja do diabo com o dono do céu”. “A Terceira Lâmina” e “Força Verde” foram lançados, respectivamente, em 1981 e 1982. “Orquídea Negra” viria em 1983 e “Pra não dizer que não falei de rock” em 1984. Outros álbuns se seguiram: “De gosto, de água e de amigos” (1985), “Opus Visionário” (1986), “Décimas de um cantador” (1987). “Brasil Nordeste” (1991), “Frevoador” (1992), “Cidades e lendas” (1996), “Antologia Acústica” (1997), “Eu sou todos nós” (1998), “O gosto da criação” (2002), “Estação Brasil” (2003), “Parceria dos viajantes” (2007), “Zé Ramalho da Paraíba” (2008) e “Sinais dos tempos” (2012).

    Gravou ainda tributos a nomes como Raul Seixas (2001), Bob Dylan (2008), Luiz Gonzaga (2009), Jackson do Pandeiro (2010) e Beatles (2011). Lançou o CD Grande Encontro, com Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo (dois volumes, sendo um sem Alceu) e dois discos ao vivo, sendo um em parceria com Fagner. Zé Ramalho é filho de Estelita Torres Ramalho, uma professora do ensino fundamental, e Antônio de Pádua Pordeus Ramalho, um seresteiro. Quando tinha dois anos de idade, seu pai se afogou numa represa do sertão, e passou a ser criado por seu avô. A relação entre os dois seria mais tarde homenageada na canção “Avôhai”.

    Por Linaldo Guedes, no jornal A União

     

     

     

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