Mídia nacional destaca “discurso de resistência” de RC na visita de Lula à PB

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Na reportagem especial “Vidas secas, nunca mais”, publicada no site Brasil 247, o governador Ricardo Coutinho foi destaque por ter realizado obras complementares para o recebimento das águas do Rio São Francisco com a transposição e pelo seu discurso de resistência ao golpe e de agradecimento aos “pais” da obra, os ex-presidentes petistas Lula e Dilma Rousseff, durante a inauguração popular ocorrida no último domingo (19), em Monteiro.

Leia na íntegra no site:

O coração do semiárido nordestino presencia uma revolução. A chegada das águas do rio São Francisco aos municípios da caatinga paraibana e pernambucana foi festejada em um evento histórico no último dia 19 de março, em Monteiro, com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da presidente deposta Dilma Rousseff, acompanhados de alguns dos principais representantes da esquerda do País e de mais de 120 mil pessoas.

A transposição das águas do São Francisco, que vai democratizar o acesso a água para 12 milhões de pessoas, sendo mais de 1 milhão de pessoas só na Paraíba, deixaria orgulhosos vários autores que relataram o histórico de seca e miséria da região.

Entre eles, o escritor alagoano Graciliano Ramos talvez derramasse algumas lágrimas ao ver a água do Velho Chico correndo em Monteiro (PB) ou em Sertânia (PE), tão distante de seu leito sertão adentro.

Graciliano Ramos nasceu e por anos morou no semiárido alagoano. Escreveu, entre outros, o livro Vidas Secas, publicado em 1938. A obra conta a história de miséria e permanente migração do vaqueiro Fabiano e sua família: a esposa Sinhá Vitória, os dois filhos e o cachorro Baleia. Tinha um papagaio também, mas foi sacrificado para servir de comida.

Em dado trecho do livro, Fabiano contempla a chegada da chuva, o “inverno” para os nordestinos, mas sabe que é uma felicidade passageira. “Fabiano olhava a caatinga e previa que a seca voltaria, o verde sumiria, ele precisaria apertar o cinto, encolhendo o estômago. Isso porque sempre acontecia com ele, com o pai dele, e com o avô dele. Ele precisava resistir, ser duro. Ser homem. E quando morresse, seus filhos deveriam seguir o mesmo caminho. Era bom que aprendessem a ser duros como ele, para não morrerem fracos como Seu Tomás da bolandeira”, diz Graciliano, ao descrever seu protagonista.

Quase 80 anos depois de Vidas Secas vir a público, para muitos a felicidade da água já não será mais passageira. Além da água que cai do céu, agora tem a que vem do “rio”. Ainda é possível encontrar exemplares de Fabiano na região. Com alguns avanços tecnológicos, obrigados pelo tempo a chegar aos rincões do Nordeste, como luz elétrica e telefone celular, mas muitos continuam preservados em sua essência “dura”, forjada na seca.

Seu Sebastião Alves da Silva é um desses exemplares. Com 68 anos, é nascido e criado em Monteiro. Diz que nunca saiu da cidade, nem mesmo para a vizinha Campina Grande, que fica a 172 km dali, muito menos para a capital João Pessoa. Sebastião sobrevive de uma aposentadoria como trabalhador rural. Não sabe ler, nem escrever. Se envergonha de assinar seu nome com o polegar. “Na minha época, a escola mais próxima ficava a sete léguas [cerca de 34 km] da minha casa. Não tinha condição”, diz.

“Espero que daqui até o resto da minha vida não vai faltar mais não uma felicidade dessas”, diz seu Sebastião sobre a chegada da água

Sebastião tem a mesma pele curtida do sol do semiárido que tinha Fabiano. A diferença crucial entres os dois está na esperança. O aposentado monteirense, conta, sempre acreditou que a água um dia não fosse faltar na sua terra.

“Tinha muitas pessoas da minha idade que estavam pensando que essa água não chegava. Mas eu nunca desenganei. Porque primeiro Deus, e segundo os homens da terra”, diz Sebastião, orgulhoso, olhando para o leito do rio Paraíba, agora perenizado com as águas do São Francisco, que viajaram 208 km desde o reservatório de Itaparica (BA).

Ele conta que até o momento, a população de Monteiro estava se mantendo com o que restava de água do açude de Poções, principal reservatório da cidade. “Com as chuvas muito poucas, o reservatório estava sem água. É tanto que a Cagepa [Companhia de Água e Esgotos da Paraíba] puxava uma água pra gente que só era lama”.

Como a grande maioria dos moradores de Monteiro, ao falar da água do São Francisco, seu Sebastião engata logo em seguida um agradecimento ao ex-presidente Lula, responsável por retirar do papel a transposição das águas, que havia sido idealizada inicialmente pelo intendente da comarca do Crato (CE), Marcos Antônio de Macedo, em 1847.

“Para o bem que Lula tem feito, eu acreditava que essa água chegava. Porque ele não fez o bem só para mim, mas também para os nordestinos”, afirma. Questionado sobre o que espera do futuro, agora com as águas do Velho Chico em Monteiro, seu Sebastião é só esperança. “Mas rapaz, eu espero tudo de bom. Que onde tem muita água, tem tudo quanto é bom. Só não tem se não quiser. Eu já estou com esta idade, e espero que daqui até o resto da minha vida não vai faltar mais não uma felicidade dessas.”

Monteiro será a São Borja de Lula?

Além de trazer esperança e alegria para milhares de paraibanos, a inauguração popular da chegada das águas do São Francisco a Monteiro se transformou num marco histórico. Talvez no mais simbólico ato da esquerda brasileira desde que a presidente eleita Dilma Rousseff foi retirada do poder por meio de um golpe parlamentar em agosto de 2016.

A pequena cidade de 33 mil habitantes nunca recebeu tantos visitantes em um evento popular. As ruas principais e a estação onde o canal da transposição irriga o leito do rio Paraíba ficaram completamente tomadas por pessoas, a maioria vestidas de vermelho ou trazendo algum sinal de apoio a Lula e Dilma, cujos governos construíram mais de 90% da transposição. A Polícia Militar da Paraíba estimou que 120 mil pessoas participaram do evento.

Um delas era o professor universitário aposentado Zélio Marques. Do alto dos seus 80 anos e expondo com orgulho sua admiração pelo ex-presidente Lula, o morador do sertão da Paraíba comemora a chegada da água. “Eu sou sertanejo, esperei 80 anos, sofri seca, fome e sede. Hoje, só tenho alegria. Estou com água e com Lula”, afirma.

Frequentemente associado a Getúlio Vargas como um dos presidentes que mais governou em favor dos mais pobres e trabalhadores, Lula pode ter vivenciado em Monteiro o início do retorno à Presidência da República, como ocorreu com o ex-presidente gaúcho.

Em 1945, depois de garantir conquistas históricas para a classe trabalhadora, como a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) (que foi ferida de morte pelo projeto de lei aprovado pela Câmara nessa quarta-feira, 22), Getúlio Vargas preparava o País para a redemocratização, com eleições gerais para presidente, Congresso Nacional e estados.

Getúlio, no entanto, sofreu um revés naquele ano. Em 29 de outubro de 1945, ele foi deposto pelo Exército. Depois de declarar publicamente que aceitava a deposição, Vargas se retirou para São Borja, sua cidade natal no sudoeste do Rio Grande do Sul. Lá permaneceu durante cinco anos até retornar à Presidência, eleito pelo PTB e embalado pela marchinha “bota o retrato do velho outra vez / bota no mesmo lugar”.

Ao chegar em Monteiro, com a imensa multidão que o aguardava sob o sol forte do dia de São José, Lula percebeu o sentimento de “bota o retrato do velho outra vez” que estava presente na cidade.

Lula foi até o leito do rio Paraíba. Pretendia mergulhar nas águas, mas o número de pessoas ao seu redor era tanto, que conseguiu apenas entrar alguns metros e jogar água para cima. Em carro aberto, Lula, Dilma e o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), percorreram as principais ruas de Monteiro, até chegarem na praça Presidente João Pessoa, onde discursariam.

Lula fez um discurso firme, memorável. Lembrou da infância em Caetés (PE) e da dificuldade de se conseguir água para o consumo. Com a paternidade reconhecida pelos paraibanos, se disse orgulhoso de ter tido a coragem de enfrentar as dificuldades políticas, ambientais e sociais, e iniciado o projeto da transposição, que ficou a cargo do então ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, presidenciável do PDT.

“Se eles têm vergonha, nós não temos. Dilma e eu, Ricardo [Coutinho] e muitos outros governadores e vocês. Nós temos orgulho de dizer que somos pai, mãe, irmão, tio e sobrinho da transposição das águas do São Francisco”, disse Lula.

O ex-presidente disse também que os que governam para os ricos não sabem o sofrimento do povo trabalhador e do povo humilde. “Quero que o povo nordestino seja tratado em igualdade de condições. Aqui tem que ter universidade, indústria, escola técnica, mestres e doutores. Tem que ter criança de barriga cheia. Se isso é o mal e eles não aceitam, se preparem. Não sei quanto tempo de vida eu tenho, mas ainda que eu tenha um minuto, vou dedicá-lo a levantar a moral do povo pobre deste país”, avisou.

Lula falou sobre a mãe, dona Lindu, que segundo ele nunca perdeu a esperança, mesmo quando não tinha nada para cozinhar para os filhos, e disse ter aprendido com ela a acreditar em tempos melhores. “Apesar do que eles tentam fazer comigo, e do que fizeram com Dilma, meu recado é que eles vão ter de brigar comigo nas ruas deste país, e nas ruas o povo vai ser o senhor da razão.”

Dilma, a “mãe da transposição”

A presidente deposta Dilma Rousseff estava feliz. Mesmo em meio à multidão de pessoas o que lhe dava alguma dificuldade de se locomover, ela era só sorrisos. Cumprimentava, acenava, agradecia o carinho. No palco, se cobriu por vezes com a bandeira rubro negra da Paraíba. Em seu discurso, destacou os avanços empreendidos em seus dois governos para que a transposição fosse efetivada. Foi nas gestões de Dilma que a obra mais avançou, 72%. Não fosse deposta pelo golpe de 2016, Dilma disse que entregaria também o Eixo Norte da transposição, que tem 260 km de extensão, beneficiando 188 municípios do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

“Mais do que um canal, um complexo sistema de estações elevatórias, que chegam a uma altura de corresponde a um edifício de 92 andares”, explicou. Dilma lembrou que a ascensão do PT à Presidência marcou o início de uma série de conquistas importantes dos brasileiros, muitas sob ameaça hoje. “Foi quando interrompemos um processo de redução de direitos, de privatizações, de redução de programas sociais e iniciamos a resistência ao projeto neoliberal em curso”, relatou.

A presidente eleita fez críticas ao golpe que a apeou do poder e voltou a alertar que o desmonte dos direitos conquistados pelos trabalhadores e a população mais humilde ainda estão em curso. “O golpe não acabou, as mentiras são sistemáticas, há outro golpe em andamento, mas não vamos permitir que ocorra. Eles sempre souberam que a democracia só beneficia o povo brasileiro e por isso trabalham rapidamente para retirar direitos dos brasileiros, como a aposentadoria. Só tem um jeito de impedir, o povo nas ruas.”

O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), também fez um discurso duro em favor da Justiça com os méritos de Lula e Dilma na transposição do São Francisco. “Agradeço, não só como governador, mas como cidadão. Hoje nós estamos aqui celebrando a transposição, a chegada dessas águas e essa obra tem a assinatura do presidente Lula e a colaboração da presidente Dilma”, disse Coutinho.

Coutinho disse também que a inauguração popular da transposição é a “vitória do povo contra o coronelismo”. “Nós sabemos o que era o Nordeste, o que não faltava era carcaças de animais na seca, pessoas invadindo mercearias para saquear e matar a fome, não tínhamos Universidade, não tínhamos Institutos federais, não tínhamos cisternas para o homem da terra.”

Também estiveram na comitiva do ato histórico os governadores do Piauí, Wellington Dias (PT), da Bahia (PT), Rui Costa, os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ), natural da Paraiba, Fátima Bezerra (PT-RN), Humberto Costa (PT-PE), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Paulo Rocha (PT-PA), José Pimentel (PT-CE), Gleisi Hoffmann (PT-PR), além de vários deputados federais, como Carlos Zarattini (PT-SP), Sílvio Costa (PTdoB-PE), Benedita da Silva (PT-RJ), José Guimarães (PT-CE), Luciana Santos (PE), presidente nacional do PCdoB, e de líderes como o ex-governador da Bahia Jaques Wagner e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

 

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